Memorial para vítimas da guerra às drogas causa polêmica no México

Por NYT |

compartilhe

Tamanho do texto

Memorial foi construído em parque da Cidade do México para lembrar os milhares de mortos desde 2006, mas alguns questionam se todas as vítimas merecem tal homenagem

NYT

Na tentativa de se recuperar de uma guerra de drogas que deixou dezenas de milhares de mortos e do aumento do crime violento em geral, o México construiu um memorial às vítimas da violência. Mas, assim como uma cena de crime ainda sob investigação, ele permanece longe de olhares curiosos, atrás de uma lona branca, envolto em perguntas e incertezas.

Violência: México estima que 26 mil desapareceram desde 2006

New York Times
Memorial recém-construído para vítimas da guerra das drogas na Cidade do México (05/12/12)

Mobilização: No México, esquadrões de autodefesa combatem violência na região sul

Uma série de placas de metal enferrujadas no meio de piscinas refletoras em um dos maiores parques da Cidade do México, o memorial é hoje considerado uma metáfora acidental para o nevoeiro e as dúvidas que giram em torno dos debates do país sobre a violência e a vitimização.

Sua conclusão foi apressada pelo ex-presidente Felipe Calderón, cujo mandato de seis anos foi afetado pela explosão da violência, e o local ainda não foi inaugurado publicamente. Em 30 de novembro, nos últimos 90 minutos do mandato de Calderón, seu governo enviou um e-mail para jornalistas anunciando que o memorial estava pronto e nas mãos de grupos cívicos que haviam solicitado a sua construção.

Poucos debates no país são tão divisórios ou politicamente conturbados como o da tempestade de violência dos últimos anos, com fuzilamentos em massa e corpos pendurados em pontes públicas, resultantes da briga dos cartéis de drogas, mas também de outros assassinatos, assaltos violentos, sequestros e extorsões que podem ou não ser obra do crime organizado.

Oaxaca: No México, policiais surdos trabalham onde ver vale mais que ouvir

Há um ano, o governo de Calderón fez sua última contagem dos supostos mortos pelo combate às drogas - 47.515 desde o final de 2006 - e, em seguida, recusou-se a liberar quaisquer dados adicionais, com seus assessores dizendo mais tarde que a contagem, que dependeu em parte do relato de agências estatais, não havia sido precisa.

Jornais mexicanos e acadêmicos fizeram suas próprias contas e acreditam que o número supere 60 mil. Mais recentemente, o governo divulgou as estatísticas de todos os homicídios relacionados às drogas ou não, e o número foi de 102.705 nos últimos seis anos, pouco menos da metade cometidos com armas de fogo.

O que é certo é que o crime violento muitas vezes fica impune. De acordo com o Censo Mexicano, quase 60% dos homicídios ficam sem solução.

O memorial surgiu do movimento pelos direitos das vítimas, mas também reflete as incertezas da atribuição de culpa e inocência.

US$ 34 bi anuais: Cartéis do México travam guerra sangrenta por rotas que levam aos EUA

Nesse caso, disse Luis Vázquez, um erudito na Escola Latino-Americana de Ciências Sociais na Cidade do México, a divisão se encontra entre as classes média e alta, que estão preocupadas com crimes como sequestro e extorsão, e grupos de direitos humanos, que estão focados nos abusos dos militares e da polícia no ataque bélico aos cartéis. "Há dois grupos e duas discussões relacionadas às vítimas de crime", explicou.

Esses dois lados discordam sobre quem o memorial deve honrar. Eles ainda disputam quem foi responsável por ter a ideia de criar um memorial para as vítimas.

No final, o governo concordou em fornecer quase US$ 2 milhões para o projeto e ajudou a organizar um concurso de um mês de duração entre arquitetos que apresentaram 68 projetos para um painel de juízes de escolas de arquitetura e grupos cívicos.

O projeto vencedor foi liderado por Ricardo Lopez Martin e dois outros arquitetos. Perto de uma das principais avenidas da cidade, suas dezenas de lajes oxidadas, fixadas em um jardim, evocam a passagem do tempo e à noite são iluminadas por dentro. Algumas de suas criações possuem citações de autores como Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Anne Frank. Os visitantes também podem deixar mensagens.

Calderón, que começou a ensinar na Universidade de Harvard em janeiro e tem sido alvo de protestos lá, recusou-se a fazer comentários por meio de um porta-voz. O escritório de seu sucessor, Enrique Peña Nieto, não quis dizer se ele compareceria à inauguração, reconhecendo que não havia data definida.

Peña Nieto: Nova abordagem de presidente mexicano contra violência é questionável

Alguns transeuntes não têm ideia do que está por trás da lona branca no parque, e alguns o desaprovam por ser um lembrete desagradável dos problemas de seu país.

"Não trarei minha filha para ver um monumento às vítimas da violência", disse Gabriel Ruiz, 44, um publicitário que passa pela construção todo dia a caminho para seu trabalho e acredita que a maioria das vítimas esteve de alguma maneira envolvida no crime. "Eles deveriam utilizar esse espaço para providenciar um local aberto para que as crianças pudessem brincar."

Anibel Renteria, 33, uma secretária que costuma almoçar no local, disse que achava o conceito de um memorial às vítimas do crime um pouco demais, mas que aplaudia o esforço. "Se isso dá conforto para as pessoas que perderam alguém, então por que não?", indagou. "Mas nunca teria tido essa ideia."

Por Randal Archibold

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas