Com morte de Chávez, Cuba dá adeus a forte e generoso aliado

Por NYT |

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Morte do líder venezuelano deixa um rastro de tristeza e incerteza por toda ilha, que depende há anos dos pesados subsídios do petróleo venezuelano

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A morte de Hugo Chávez desencadeou uma onda de tristeza e incerteza ao redor de Cuba, à medida que moradores da ilha lamentavam a perda de um aliado ideológico e se preocupavam com os problemas econômicos que poderiam estar por vir, caso a nova liderança da Venezuela corte seus subsídios de petróleo.

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O Granma, jornal do Partido Comunista, mudou seu logotipo vermelho para um preto-e-branco - um gesto que os cubanos disseram nunca ter acontecido antes - e dedicou seis de suas oito páginas à vida de Chávez, sua morte e seu legado. Em uma declaração que cobria a primeira página e foi lida na televisão nacional na noite de terça-feira (5) o governo saudou Chávez como sendo um cubano e prometeram apoiar "a Revolução Bolivariana nestes dias difíceis."

"O povo cubano o considerava como um de seus filhos mais talentosos e o admiravam", disse o governo no comunicado. "Chávez também é cubano."

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Bandeiras em edifícios do governo foram hasteadas a meio mastro depois que o governo declarou dois dias de luto oficial, cancelou concertos e outros eventos públicos que ocorreriam na sexta-feira, 8 de março. Nas ruas de Havana, onde o líder venezuelano lutou contra um câncer em um hospital militar e passou a maior parte de seus últimos três meses, alguns cubanos disseram estar profundamente tristes com a morte de Chávez.

Cuba recebe mais de 100 mil barris de petróleo por dia da Venezuela, comprados em condições favoráveis, como parte de uma troca que permite que dezenas de milhares de cubanos trabalhem em clínicas, escolas e ministérios venezuelanos. O petróleo subsidiado é responsável por cerca de dois terços do consumo de Cuba e é creditado por muitos cubanos como responsável por manter as luzes acesas e os aparelhos de ar condicionado em funcionamento durante o calor do verão.

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"Eu fiquei muito chocada", disse Marina Suarez, 48 anos, sobre o momento em que ouviu a notícia da morte de Chávez. Olhando para o céu com um olhar quase de êxtase, ela acrescentou: "Ele morreu, mas para mim, é como se ainda estivesse aqui."

Suarez disse que estava confiante de que Nicolás Maduro, presidente interino da Venezuela e um chavista, manterá laços estreitos com Cuba caso vença a eleição.

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Luis, um engenheiro de 39 anos de idade, que não quis fornecer seu nome completo, pareceu mais descrente. "É assustador. Se houver uma mudança na Venezuela, eles não vão manter as coisas como elas são", disse ele, referindo-se ao petróleo subsidiado. O governo precisa ter um plano que não dependa da generosidade de outra nação, acrescentou.

Outros aliados de Chávez ao redor do mundo também sentiram o impacto de sua morte. O governo iraniano declarou um dia de luto na quarta-feira e o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad compareceu ao funeral de Estado de Chávez nesta sexta-feira em Caracas. Ao longo de várias viagens para o Irã, Chávez forjou uma forte e controversa aliança que tem atraído empresas de construção iranianas para vários projetos na Venezuela e aprofundou os laços financeiros entre os dois países.

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Ahmadinejad disse que Chávez certamente retornaria à Terra quando o 12º Imam xiita, que, de acordo com as crenças da seita, é um messias, virá para libertar o mundo.

"Eu não tenho dúvida de que ele virá novamente junto a todas as pessoas justas e o profeta Jesus e o único sucessor justo da geração, o ser humano perfeito", disse Ahmadinejad, acrescentando que Chávez havia morrido de uma "doença suspeita" - uma referência às teorias defendidas por algumas autoridades venezuelanas e seus aliados de que o câncer de Chávez esteve de alguma maneira ligado a uma ação do governo dos Estados Unidos.

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Em Cuba, a televisão estatal e o rádio interromperam sua programação regular na noite de terça para mostrar um noticiário contínuo sobre a morte de Chávez e para transmitir a cobertura do evento pela Telesur, o canal de notícias venezuelano. 

Os membros da comunidade venezuelana, oficiais cubanos e diplomatas se reuniram na Embaixada da Venezuela em Havana, na larga avenida em um bairro nobre, na terça-feira para oferecerem suas condolências. Aplausos e gritos de "Viva Chávez" podiam ser ouvidos da calçada do lado de fora.

Em outros casos, porém, as ruas estavam mais calmas do que o habitual: Alguns moradores da Havana Velha, um dos principais pontos turísticos da cidade, disseram ter ouvido pouca música sendo tocada nos bares na noite de terça.

Veja luto por Chávez pela América Latina:

Menina leva faixa com a frase: 'Comandante Chávez, presidente' em praça de São Salvador, El Salvador (5/3). Foto: ReutersPartidário usa camiseta com os dizeres: 'Uh! Ah! Chávez não se vá' após o anúncio da morte de Hugo Chávez em frente a embaixada venezuelana em Buenos Aires (5/3). Foto: Reuters'Os povos do mundo unidos através da Venezuela. Obrigado por sua solidariedade. Sua vitória será nossa vitória', diz cartaz exposto em El Salvador. Foto: ReutersPeruanos se reúnem perto da embaixada venezuelana em Lima após o anúncio da morte de Hugo Chávez (5/3). Foto: ReutersMexicano agita bandeira da Venezuela em frente à embaixada venezuela na Cidade do México (5/3). Foto: APPessoas se reúnem ao lado de fora da embaixada venezuelana em Quito, Equador, após anúncio da morte de Chávez (5/3). Foto: APMulher coloca vela em frente a uma imagem do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ao lado de fora da Embaixada da Venezuela em La Paz, Bolívia (5/3). Foto: APHomem segura cartaz com a foto do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, durante marcha em Manágua, Nicarágua (5/3). Foto: APMulher assiste ao anúncio da morte de Chávez em Manágua, na Nicarágua (5/3). Foto: ReutersArgentinas reagem à morte do presidente venezuelano Hugo Chávez na frente da embaixada venezuelana na Argentina (5/3). Foto: AP

Por Victoria Burnett

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