Grillo, populista de cabelos desalinhados, é destino da Itália – e da Europa

Por NYT |

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Líder do Movimento 5 Estrelas exemplifica novo tipo de político que surge das chamas da longa crise econômica da União Europeia e do descontentamento eleitoral em outros países

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Beppe Grillo, um populista de cabelos desalinhados, voz potente e camisa para fora da calça, é o destino da Itália – e até certo ponto da Europa.

Depois de ganhar um quarto dos votos na eleição legislativa de 24 e 25 de fevereiro, Grillo, um comediante e ativista, está sendo cortejado por tradicionais políticos italianos. Mas como sempre foi contra eles, não está engolindo nada disso. Ele descartou a possibilidade de alianças, criando um impasse para a política italiana.

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New York Times
Beppe Grillo, que fundou o Movimento 5 Estrelas, terceiro colocado nas eleições de fevereiro, é visto em sua casa em Marina di Bibbona, Itália (03/03)

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Ele se referiu ao ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que procurou um retorno ao poder, como "o anão psicótico", e tem firmemente rejeitado apelos de Pier Luigi Bersani, líder do centro-esquerdista Partido Democrático, para juntar forças para governar, chegando a descrevê-lo como um “morto-vivo".

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Em uma rara entrevista em sua casa à beira-mar na Marina di Bibbona em 3 de março, Grillo disse que seria "inadmissível" para ele garantir a estabilidade de um futuro governo italiano. "Seria como Napoleão fazer um acordo com Wellington."

Descalço e vestindo uma calça jeans desbotada e uma camiseta cinza com uma imagem de Gandhi, ele disse que queria acabar com um sistema que havia "desintegrado o país" e construir "algo novo" que restauraria a Itália como uma verdadeira democracia participativa. "Conseguiremos mudar tudo desde que tenhamos pessoas respeitáveis no poder, mas a classe política existente deve ser expulsa imediatamente", afirmou.

Grillo exemplifica um novo tipo de político que surge das chamas da longa crise econômica da União Europeia (UE) e do descontentamento dos eleitores em outros países. Como Alexis Tsipras, que na Grécia liderou uma onda antiausteridade para liderar o segundo maior partido no Parlamento, ou Yair Lapid, que se beneficionou de uma frustração nacional com a desigualdade social em Israel, esses políticos não são extremistas mas, no geral, reformistas de esquerda.

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Reuters
Pôsteres do PDL, de Berlusconi, são vistos em Roma (26/02)

Ao rejeitar se unir aos poderes da classe política tradicional, que consideram irremediavelmente corruptos, os novos políticos estão dando o que falar em Bruxelas e Berlim.

"Há uma sensação de que o projeto europeu corre risco e depende do que acontecerá na Itália caso Grillo culpe a UE pelos problemas", disse Moises Naim, um associado sênior do Carnegie Endowment for International Peace, em Washington. "Se ele se safar, outros políticos também poderão adotar essa posição, e pode haver contágio."

Agora que sua cruzada política, o Movimento 5 Estrelas, ganhou um mandato, o desafio de Grillo será decidir como usá-lo para mudar um sistema que há muito tempo o vê como um homem demagógico, até mesmo imprudente, que corre o risco de levar a Itália para o mesmo caminho que a Grécia.

Grillo rejeitou essas acusações , disse em tom comedido: "Como podemos ser acusados de destruir uma coisa que já está destruída?" "Eles devoraram o país e agora não conseguem mais governá-lo."

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Sua maior vantagem, no entanto, tem sido sua capacidade de explorar o poder dos meios de comunicação e da internet para transmitir sua mensagem. Quando começou um blog político em 2005, milhões passaram a participar do debate.

Estimulado por esse impulso, ele formou seu movimento há pouco mais de três anos com base em um manifesto para a melhoria do saneamento básico, dos transportes, da conexão de internet e do meio ambiente.

Essas táticas podem ser efetivas em mudar as agendas legislativas em nível regional. Mas  para sobreviver no terreno político de Roma será necessária uma abordagem diferente.

O partido "possui os problemas de um movimento que cresceu rapidamente", disse Roberto Biorcio, professor de sociologia da Universidade Bicocca de Milão e autor de um livro recente sobre o Movimento 5 Estrelas. "Portanto, teremos alguns problemas de inexperiência."

AP
Eleitor deposita voto para o Senado italiano em Piacenza (24/02)

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Na entrevista, Grillo disse que o movimento tentaria desenvolver uma plataforma de consenso por meio do debate e definir metas legislativas em maio. Entre as medidas principais está o "salário cidadania", um tipo de seguro-desemprego para italianos atingidos pela crise. Políticas seriam financiadas pelo corte de resíduos, corrupção e gastos políticos. Outras economias viriam da retirada das forças italianas do Afeganistão, encerrando pensões do Estado de 5 mil euros mensais e anulando anistias fiscais, entre outras medidas.

Sua posição reacendeu temores de que a Itália poderá retornar para o centro da crise do euro, que Grillo culpou pela piora na vida da maioria dos italianos. Ele pediu um referendo para permanecer na zona do euro e classificou a divisão entre os rendimentos da Itália e dos títulos da Alemanha de "alucinação" - uma afirmação que soa vazia enquanto milhares de pequenas empresas fecham semanalmente à medida que os investidores estrangeiros elevam as taxas de juros para amenizar a incerteza política.

O primeiro-ministro interino Mario Monti salvou a Itália - pelo menos temporariamente - de ter que pedir um resgate internacional. O risco é que Grillo possa reverter esses ganhos, tornando a situação mais difícil para as pessoas quem ele quer ajudar.

Grillo rebateu essas preocupações. Os mercados reagirão positivamente, disse, "se trabalharmos com transparência e serenidade, formos honestos, abolirmos o conflito de interesse, aprovarmos leis contra a criminalidade, apoiarmos pequenas e médias empresas e transformarmos a Itália em uma comunidade."

Por Liz Alderman e Elisabetta Povoledo

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