Renúncia de Bento 16 torna futuros papas mais sujeitos à pressão dos críticos

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Precedente aberto por Bento 16 pode mudar natureza do papado moderno ao afetar forma como sucessores tomarão decisões perante escândalos, doenças ou medidas impopulares

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A renúncia de Bento 16, que na semana passada deixou um cargo que durante quase 600 anos foi considerado vitalício, reverberará por muitos anos e pode mudar a natureza do papado moderno, começando com a eleição de seu sucessor.

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Papa Bento 16 deixa a cadeira de São Pedro após celebrar sua última audiência geral na Praça São Pedro, no Vaticano (27/02)

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Especialistas do Vaticano e alguns líderes da Igreja disseram que a decisão de Bento 16 tem o potencial de estabelecer limites para os futuros papas, torná-los mais sujeitos à pressão de críticos e alimentar a percepção de que não são apenas os líderes espirituais dos cerca de 1,2 bilhão de católicos do mundo, mas também chefes executivos do grande conglomerado multinacional que é a Igreja Católica, com suas franquias ao redor do mundo e sede no Estado do Vaticano.

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"Se Jack Welch (ex-CEO da General Electric) se parecesse com esse senhor de 85 anos e tivesse renunciado, será que não se diria: 'Bravo, Jack?"', indagou o cardeal Edward M. Egan, arcebispo emérito de Nova York, que caracterizou a decisão de Bento 16 da coisa mais sensata e lógica a ser feita. Ele foi um dos muitos cardeais a apoiar publicamente a escolha de Bento 16, um passo radical para um teólogo conservador.

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Agora, à medida que 115 cardeais se preparam para eleger um novo papa com reuniões iniciadas na segunda-feira para definir a data do conclave, a decisão de Bento 16 os confronta, assim como confrontará os futuros papas, com uma série de novos fatores.

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A possibilidade de renúncia poderia permitir que os cardeais escolhessem um homem mais jovem, sabendo que um prazo limitado é uma opção, ou um mais velho, sabendo que ele poderia sair caso se sinta incapaz de cumprir suas funções.

Isso poderia fazer com que os sucessores - impulsionados por escândalos, decisões impopulares ou doença - renunciem. Alguns funcionários da Igreja temem que essa pressão, ou até mesmo a possibilidade dela, poderia afetar a maneira como um papa tomará decisões.

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Sol se põe atrás de estátuas no topo da coluna Bernini na Praça de São Pedro, Vaticano (04/03)

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"O precedente foi estabelecido", disse o cardeal Wilfrid F. Napier, o arcebispo de Durban, África do Sul, em uma entrevista na sexta-feira. "Se houvesse um papa que se encontrasse em uma situação que, para o bem da Igreja, tivesse de renunciar por algum motivo, ele olharia para para o que Bento fez e diria: 'É uma opção que devo considerar, para o bem da Igreja.'"

Eamon Duffy, historiador da História do Cristianismo da Universidade de Oxford, lembrou que o cardeal John Henry Newman, clérigo do século 19 e intelectual beatificado por Bento em 2010, disse uma vez que um papa não deveria servir mais de 20 anos de mandato, “pois eles acabam se tornando deuses e ninguém os contradiz".

Por Daniel J. Wakin

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