Egito usa esgoto para bloquear túneis na fronteira com a Faixa de Gaza

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Cairo afirma que está determinada a fechar os túneis para impedir o fluxo de armas e militantes de Gaza para o Sinai

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Os militares egípcios estão recorrendo a uma nova tática para fechar os túneis de contrabando que ligam Sinai e Gaza: inundando-os com esgoto. Junto ao mau cheiro, a abordagem está levantando questões sobre as relações entre novos líderes islâmicos do Egito e seus aliados ideológicos do Hamas, que controlam a Faixa de Gaza.

"Horrível", disse Abu Mutair Shalouf, 35 anos, um contrabandista palestino no lado de Gaza, observando à distância trabalhadores tirando baldes de esgoto de um túnel inundado pelos militares egípcios há 15 dias. "Eu não sei por que eles fizeram isso."

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Conselheiros do presidente egípcio Mohammed Morsi, líder ligado à Irmandade Muçulmana, disse que a resposta é simples: estão determinados a fechar os túneis para bloquear o fluxo de armas e militantes que flui entre Sinai e Gaza – uma promessa que Morsi fez em uma entrevista cinco meses atrás.

E a resposta mais moderada do Hamas, um ramo militante da Irmandade, é a mais forte indicação de que seus líderes ainda estão depositando suas esperanças em seus aliados ideológicos no Cairo, mesmo em um momento em que os interesses dos cidadãos de Gaza estão prejudicados.  Os túneis continuam a ser uma fonte vital de algumas importações para Gaza e para o contrabando de impostos de receita para o Hamas. Quando o ex-presidente egípcio Hosni Mubarak usou métodos menos eficazes para fechar os túneis, o Hamas alegou traição.

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Após a inundação de esgoto, vários oficiais do Hamas, no entanto, enfatizaram o direito do Egito em proteger suas fronteiras da maneira como bem entender. "O Egito é um Estado de soberania e nós não lhe impomos nada", disse Salah al-Bardawil, um oficial do Hamas em Gaza. "Nós abordamos o lado egípcio sobre o assunto e espero que eles entendam nossas necessidades", acrescentou. "Confiamos na liderança egípcia, e ela não deixará o povo palestino sozinho."

Analistas ofereceram muitas teorias sobre o momento em que esses bloqueios são realizados. O governo islâmico do Egito, que passa por dificuldades políticas e econômicas, tem um pacote de ajuda financeira parado no Congresso dos EUA. "(O governo egípcio) se mostra mais uma vez como um valioso aliado", disse Yasser el-Shimy, analista do Egito com o International Crisis Group. "Ele pode fazer algo assim, o que, talvez, promova seus interesses estratégicos."

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Ou talvez, segundo Shimy, o governo de Morsi queira lembrar a Israel sobre sua responsabilidade pela pobreza de Gaza e seus problemas. Ou, ainda, os militares egípcios queiram mandar alguma mensagem interna própria, seja ela para a Irmandade ou outros componentes internos, sobre a “independência” dos generais em relação aos islamitas.

As preocupações de Cairo sobre os túneis surgiram em agosto, quando 16 soldados egípcios morreram em um ataque de militantes em um posto militar no Sinai. O governo egípcio acredita que os responsáveis pelo atentado se locomoveram através dos túneis.

Então, depois que o Egito ajudou a intermediar uma trégua entre o Hamas e Israel para acabar com uma semana de combates em Gaza, em novembro, Israel aliviou as restrições às importações ao longo da fronteira. Mais notavelmente, começou a permitir a entrada de material de construção que anteriormente era considerado como sendo de potencial uso militar, embora os palestinos tenham dito que os israelenses ainda bloqueiam a entrada de aço e outros materiais.

Essam el-Hadded, conselheiro de segurança nacional de Morsi, sugeriu que as restrições amenizadas na fronteira poderiam ter incentivado a repressão aos túneis."Agora podemos dizer que as fronteiras estão abertas – algo que ainda pode ser melhorado - e as necessidades do povo de Gaza são permitidas", disse à Reuters.

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Sob Mubarak, os palestinos disseram que os egípcios muitas vezes inundaram os túneis com gás, algo que era facilmente revertido através do bombeamento de ar. Mas por volta do início de fevereiro, os militares egípcios começaram, pela primeira vez, a utilizar águas residuais, e acabaram inundando cerca de vinte dos 200 túneis. (As autoridades egípcias dizem que existem 225 túneis, mas os palestinos afirmam existir 250).

Shalouf, 35 anos, que importa principalmente cascalho, disse que, antes de retirar as caçambas de terra, ele havia bombeado água da terra. Agora, planeja colocar areia e serragem e reforçar o teto. Reparos poderão levar três semanas.

Os palestinos disseram que até agora a enchente prejudicou a subsistência individual, mas não o volume total de mercadorias que circulam abaixo do solo. No dia 20 de fevereiro, cerca de dois caminhões de carga por minuto saíam da zona principal de contrabando dentro de Gaza, carregados com cimento, brita, alimentos enlatados, frutas cítricas e vegetais. Oficiais alfandegários do Hamas mantiveram um registro de cada caminhão e de sua carga.

Por Fares Akram e David D. Kirkpatrick

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