Mudanças sociais da Coreia do Sul levam idosos desamparados ao suicídio

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Sucesso econômico da nação reverte tradição em que pais eram cuidados por filhos após envelhecer; nos últimos anos, número de suicídios quase quadruplicou no país

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Mesmo com o aumento no número de suicídios na Coreia do Sul, o caso de uma viúva de 78 anos mereceu atenção especial durante a recente eleição presidencial.

Em vez de tirar sua vida em casa, como muitos sul-coreanos fazem, a idosa resolveu encenar sua morte como um último ato de protesto público contra uma sociedade que, disse, a abandonou. Ela bebeu pesticida durante a noite em frente da prefeitura de Seul depois que autoridades suspenderam sua aposentadoria com a justificativa de que não eram mais obrigados a sustentá-la pelo fato de seu cunhado ter encontrado trabalho.

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Lee Geum-sook (D), voluntário que trabalha com idosos, segura a mão de Yoon Jeom-do, 89, que vive sozinha em seu apartamento em Seul (18/10/2012)

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"Como vocês puderam fazer isso comigo?", dizia o bilhete de suicídio que a polícia disse ter encontrado em uma bolsa junto ao corpo. "A lei deve servir ao povo, mas ela não me ajudou em nada."

Essa morte faz parte de uma das mais cruéis estatísticas da Coreia do Sul: o número de suicídios entre pessoas acima de 65 anos quase quadruplicou nos últimos anos, fazendo com que o índice de tais mortes no país fique entre as mais altas do mundo desenvolvido. A epidemia é o contraponto do grande sucesso econômico da nação, que tem desgastado o contrato social de Confúcio que formou a base da cultura coreana ao longo dos séculos.

Esse contrato foi criado sobre a premissa de que os pais deveriam fazer quase qualquer coisa para cuidar de seus filhos - nos últimos tempos, gastando suas economias para lhes oferecer uma boa educação - e, depois, passariam o resto de suas vidas sob os cuidados de seus herdeiros. Nenhum sistema de Previdência Social era necessário. Asilos eram praticamente inexistentes.

Mas desde que, nas últimas décadas, as gerações mais jovens da Coreia do Sul se uniram ao êxodo das fazendas para as cidades ou simplesmente acabaram trabalhando duro no ambiente hipercompetitivo que ajudou a impulsionar o milagre econômico da nação, os pais muitas vezes foram deixados para trás. Muitos idosos vivem agora seus últimos anos em condições miseráveis.

Tais mudanças sociais não são incomuns no mundo industrializado. Mas a transformação repentina se provou especialmente dolorosa na Coreia do Sul, onde os pais enxergavam seus sacrifícios como o equivalente a um plano de aposentadoria e onde aqueles que sofrem são vítimas das mudanças que eles mesmos ajudaram a desencadear à medida que reconstruíram a economia após a devastação da Guerra da Coreia (1950-1953).

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O governo começou a construir um sistema público de aposentadorias em 1988, mas relatos indicam que, na maioria dos casos, os valores mal cobrem os custos de vida básicos, e muitos dos sul-coreanos mais idosos não têm cobertura pois o sistema não é retroativo. Um relatório do governo em 2011 indicou que apenas quatro em cada dez dos com mais de 65 anos tinham uma pensão pública ou privada.

À medida que as oportunidades para enriquecer melhoraram nos últimos anos, os pais começaram a ir a extremos para tentar garantir o sucesso de seus filhos, e, por extensão, de sua família.

Muitos pais também esvaziaram suas poupanças para ajudar a pagar as casas de seus filhos. O maior jornal do país, o Chosun Ilbo, criticou em um editorial o "costume ridículo pelo qual pais vendem seu futuro para sustentar seus filhos".

O governo disse que tenta ajudar propondo uma idade maior para que as pessoas se aposentem para que possam economizar mais dinheiro, mas isso é uma tarefa difícil diante do desemprego juvenil. Ele também iniciou a obrigatoriedade de que os municípios criem centros de prevenção do suicídio para todas as idades, e os escritórios têm registrado algum sucesso.

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Lee Geum-sook (D), voluntário que trabalha com idosos, tenta confortar Yoon Jeom-do, 89, que vive sozinha em seu apartamento em Seul (18/10/2012)

Kim Man-jeom, 73, foi um deles. Depois que seu marido morreu em 2011, ela ficou chocada por seus filhos não a terem convidado para viver com eles, apesar de também temer se tornar um fardo. "Uma vez vi uma gravata e ponderei a possibilidade de me enforcar", disse. Ela foi salva, relatou, por um trabalhador social.

Mas como um sinal de que o problema não tem sido tratado de forma sistemática, um número pequeno mas crescente de sul-coreanos idosos está morrendo sem ninguém para reivindicar os corpos ou realizar os rituais funerários tradicionais.

Kim Seok-jung, que abriu uma empresa na cidade de Pusan para cuidar dos pertences desses idosos, disse que ainda lembra do caso de uma mulher de 73 anos cujo corpo foi encontrado em fevereiro, meses após sua morte.

"O calendário na sua parede havia parado em outubro", disse Kim. "Quando vejo esse tipo de coisa acontecer com esses idosos, sei como minha própria geração morrerá."

Por Choe Sang Hun

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