Hospital da Filadélfia oferece realismo para combater violência armada nos EUA

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Com fotos gráficas e relatos detalhados sobre a morte de vítimas de disparos, programa tenta diminuir assassinatos mostrando que glamour relacionado às armas se limita à ficção

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Em uma sala de aula escura, 15 estudantes da 8ª série se surprenderam com uma fotografia. Ela mostrava um morto cuja mandíbula tinha sido destruída por um tiro de espingarda, deixando a metade inferior do rosto totalmente dilacerada.

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Laptop mostra slide sobre etiquetas de dedos do pé a estudantes da 8ª série durante programa sobre violência armada em hospital da Filadélfia (01/02)

Logo na sequência, veio uma imagem das pernas perfuradas de alguém baleado por um rifle de assalto AK-47 e, em seguida, uma foto do abdômen inchado de uma vítima de tiro com ferimentos internos tão graves que o paciente teve de passar por uma colostomia para que seus intestinos, incapazes de funcionar normalmente, fossem substituídos por um saco.

As imagens se referem a algumas das cerca de 500 vítimas de ferimentos a bala tratadas anualmente no Hospital Universitário de Temple, uma instituição no norte da Filadélfia. Enquanto o presidente Barack Obama e líderes do Congresso debatem a legislação destinada a prevenir massacres como o de uma escola em Newtown, Connecticut, o hospital tenta diminuir o número de assassinatos de rua ajudando adolescentes a compreender a realidade da violência armada.

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O programa incomum, chamado de Berço à Sepultura, é destinado a jovens de toda Filadélfia na esperança de que, ao fazê-los ser expostos aos efeitos que as armas causaram em sua comunidade, não apelem à sua utilização para lidar com problemas pessoais - além de ajudá-los a reconhecer que a violência armada não é algo glamouroso como descrita às vezes em programas de televisão e em músicas de rap.

O programa é aberto a todas as escolas da cidade, mas cerca de dois terços dos participantes foram encaminhados por oficiais do sistema de justiça juvenil. Crianças menores de 13 anos não são normalmente admitidas no programa. Desde seu início em 2006, cerca de 7 mil adolescentes participaram e, apesar do conteúdo gráfico, nenhum pai nunca reclamou, disse Scott P. Charles, coordenador do programa de trauma do hospital.

"Em sete anos e meio, nunca ouvi um pai dizer: 'Não consigo acreditar no que você acabou de mostrar a nosso filho'", disse Charles.

De acordo com estatísticas da polícia, 331 pessoas foram mortas na cidade em 2012, representando o maior total desde 2008 e o quarto ano consecutivo de crescimento. De acordo com a polícia, 86% das vítimas foram mortas por armas de fogo.

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Estudantes da 8ª série da Escola Kenderton ouvem relato sobre morte de adolescente durante programa sobre violência armada em hospital da Filadélfia (01/02)

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Ainda assim, o número de assassinatos na cidade de cerca de 1,5 milhão de habitantes caiu de um pico de 406 em 2006, quando a mídia nacional começou a apelidar a cidade de Mortedélfia.

O programa começa com uma visita à ala de trauma do hospital, a primeira parada para vítimas de tiros - metade delas com menos de 25 anos - que são levadas para o hospital no norte da Filadélfia a uma média de mais de uma por dia.

À medida que os jovens de 13 e 14 anos se reuniam em torno de uma maca em uma recente visita, Charles contou a história de Lamont Adams, 16, que morreu no hospital após ser baleado 14 vezes por um outro menino que acreditava que a vítima o havia dedurado.

Lamont chegou à ala de trauma com 24 ferimentos de disparos, dez a mais do que as 14 balas que o atingiram, porque alguns dos tiros também atravessaram seu corpo.

Com a perspectiva de que sua descrição verbal do caso não seria suficiente, Charles pediu a Justin Robinson, 13, que interpretasse o papel de Lamont. O menino deitou-se em um saco de corpo vazio. Charles anexou 24 adesivos vermelhos nas roupas de Justin para representar os ferimentos no corpo de Lamont.

Charles relatou aos estudantes que os ferimentos que achou mais comoventes foram aqueles encontrados nas mãos do menino. "Ele levantou as mãos, pedindo ao rapaz para que parasse de atirar", disse Charles. "Ele não estava preparado para o quão terrível seria passar por isso."

A narrativa passou para a dra. Amy J. Goldberg, a chefe do departamento de trauma do hospital, que disse às crianças que, como Lamont na respirava no momento em que chegou à ala de trauma, cirurgiões rapidamente inseriram um tubo de respiração em sua traqueia sem usar anestésicos.

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Estudantes da 8ª série da Escola Kenderton reagem a slides sobre ferimentos causados por armas durante curso no Hospital Universitário de Temple, na Filadélfia (01/02)

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Ele tampouco tinha pulso, mas isso não impediu os médicos de inserirem um tubo de transfusão em sua virilha para compensar o sangue que ele perdia e, depois de abrir seu peito na esperança de reiniciar seu coração, viram que havia três ou quatro buracos no órgão, disse Goldberg.

À medida que os detalhes da história de Lamont eram contados, uma garota se esforçava para manter sua compostura. Outra escondeu o rosto no ombro da amiga. Lamont morreu cerca de 15 minutos depois de chegar ao hospital, afirmou Goldberg, ressaltando que a prevenção da violência armada é muito melhor do que tentar consertar seus efeitos. 

"Quem vocês acham que tem a melhor chance de salvar suas vidas", perguntou aos alunos. "Vocês mesmos.”

Apesar das imagens terríveis, a maioria dos alunos disse depois que as pessoas deveriam poder possuir armas de autodefesa, embora não armas de assalto. Mahogany Johnson, 14, afirmou que é a favor da proibição de armas semiautomáticas na rua como fuzis de assalto AK-47, que, segundo ela, deveriam ser utilizadas "apenas na floresta". Jabriel Steward, 14, disse: "Todos deveriam poder possuir uma arma para sua proteção, para autodefesa."

Mas Feliciana Asada, 14, disse que mais estudantes deveriam ter a oportunidade de participar do programa. "Programas como esse precisam ser adotados nas escolas", disse.

Por Jon Hurdle

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