Acusações de abuso sexual contra mestre zen-budista chocam seguidores

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Cultura patriarcal e adoração quase religiosa ao mestre zen são apontadas como principais razões para ocorrências de assédio

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Desde sua chegada do Japão a Los Angeles, em 1962, o mestre budista Joshu Sasaki, que tem 105 anos de idade, ensinou milhares de americanos em seus dois centros zen-budistas na região de Los Angeles e um no Novo México. Ele influenciou milhares que buscam a iluminação através de uma cadeia de cerca de 30 centros zen em cidades como Princeton, Nova Jersey e Berlim. Ele é conhecido também como o mestre budista do poeta e compositor Leonard Cohen.

Sasaki tem, de acordo com a investigação de um conselho independente de líderes budistas, iniciada em janeiro, assediado sexualmente suas alunas há décadas, se aproveitando de sua lealdade.

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Joshu Sasaki, professor budista, no centro Bodhi Manda em Jemez Springs


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As alegações contra Sasaki perturbaram os zen-budistas de todo o país que fazem parte de um grupo muito unido em que os participantes parecem conhecer, ou pelo menos saber quem são, os principais professores dos centros.

Sasaki não respondeu a pedidos de entrevista feitos através de Paul Karsten, um membro do conselho de Rinzai-ji, seu principal centro de Los Angeles.

Karsten disse que os superiores de Sasaki estão conduzindo sua própria investigação. E ele advertiu que o conselho independente levou em consideração apenas o que ouviu de dezenas de estudantes e não chegou a pesquisar a fundo as acusações em busca de "veracidade".

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Tais acusações vem se tornando cada vez mais frequentes no zen-budismo. Vários outros professores foram acusados de má conduta recentemente, como Eido Shimano, que em 2010 foi convidado a pedir demissão da Sociedade de Estudos Zen em Nova York sobre alegações de que teve relações sexuais com estudantes.

Os críticos e vítimas têm apontado para uma cultura patriarcal, cheia de sigilo e sexismo, e à adoração quase religiosa do mestre zen, como permissivas de seus abusos.

Estudantes descontentes vem escrevendo cartas para o conselho de um dos centros zen de Sasaki desde 1991. No entanto, foi somente em novembro do ano passado, quando Eshu Martin, um sacerdote zen que estudou com Sasaki de 1997 a 2008, publicou uma carta no site SweepingZen.com, que o resto do mundo zen ficou sabendo dos acontecimentos.

Muitas mulheres molestadas por Sasaki eram monges em seus centros. Uma mulher que enfrentou o mestre na década de 1980 foi expulsa. Ela, que pediu para não ter seu nomedivulgado, disse que depois "quase ninguém no centro, que havia frequentado durante 20 anos, quis saber de mim".

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No relatório do conselho publicado em 11 de janeiro, os três membros escreveram que "Sasaki pedia que as mulheres lhe mostrassem seus seios, como parte da resposta a "um koan" - um enigma zen - "ou para demonstrar ‘desapego’".

Quando o relatório foi enviado para o SweepingZen.com, os superiores de Sasaki publicaram que seu grupo "tem lutado contra a má conduta sexual do mestre Joshu Sasaki Roshi durante uma boa parte de sua carreira nos EUA”.

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Dentro do centro zen Rinza­i-ji, que abriga o templo de Joshu Sasak­i, professor budista em Los Angel­es

Várias mulheres disseram que os centros zen promovem uma atmosfera de sexismo evidente. Jessica Kramer, uma doula em Los Angeles, foi assistente pessoal de Sasaki em 2002. Ela disse que ele tentou se aproveitar em diversas ocasiões.

Cercada quase totalmente por homens, ela disse que poucos simpatizavam com seu problema. "Eu ia falar sobre isso com as pessoas e me diziam: 'Por que não deixá-lo tocar seus seios, se ele quer tocá-los?'"

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O conselho de testemunhas, que escreveu o relatório, não tem nenhuma autoridade oficial. Seus membros pertencem a Associação Americana de Professores Zen e coletaram histórias por sua própria iniciativa, embora tenham tido uma declaração de apoio de 45 outros professores e padres. Um de seus autores, Grace Schireson, disse que os budistas zen nos EUA interpretaram de uma maneira errônea uma filosofia japonesa.

"Devido a sua longa história com a prática zen, os japoneses têm um certo ceticismo sobre os sacerdotes", disse Schireson. Mas nos EUA muitos dos seguidores têm uma "devoção ao guru ou o professor de uma forma que poderia reprimir nosso bom senso e inteligência emocional".

No início de fevereiro, no Rinzai-ji, em Los Angeles, Bob Mammoser, um monge residente, disse que a saúde de Sasaki "estava muito frágil" e que ele foi "basicamente retirado de qualquer ensino ativo". Mammoser disse que há rumores de uma reunião no centro que poderá discutir qual será a ação a ser tomada se for acaso.

Mammoser disse que ficou sabendo das denúncias contra Sasaki em 1980. "Houve esforços no passado para enfrentar isso com ele", disse Mammoser. "Basicamente, eles não têm sido capazes de resolver esse problema."

Ele acrescentou: "O que é importante e muitas vezes esquecido é que, além de tudo isso, Roshi foi uma figura imponente e inspiradora para a prática budista que visou ajudar milhares a encontrarem mais paz, clareza e felicidade em suas próprias vidas. Parece ser o tipo de coisa que acontece quando se é exposto a uma pessoa como um todo, como quando você se casa com alguém e você tem acesso aos seus pontos fortes e qualidades maravilhosas, assim como a suas fraquezas."

Por Mark Oppenheimer e Ian Lovett

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