Renúncia de Bento 16 abre caminho para luta entre conservadores, que defendem Igreja menor com fiéis fervorosos, e aqueles que acreditam que a Igreja deve expandir seu alcance

NYT

O anúncio surpresa feito pelo Papa Bento 16  na segunda-feira, 11 de fevereiro, de que renunciará no dia 28 de fevereiro armou o palco para uma batalha de sucessão que determinará o futuro de uma Igreja Católica que vem lutando contra escândalos e o declínio da fé em seus redutos tradicionais ao redor do mundo.

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Trono do papa vazio é fotografado na Basílica de São Pedro antes da missa de quarta-feira de cinzas no Vaticano
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Trono do papa vazio é fotografado na Basílica de São Pedro antes da missa de quarta-feira de cinzas no Vaticano


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Alegando idade avançada e falta de vigor físico, Bento 16 tornou-se o primeiro papa em seis séculos a renunciar. Autoridades do Vaticano disseram esperar ter um novo Papa até a Páscoa , expressando choque sobre uma decisão que alguns disseram ter sido tomada um ano atrás .

Bento 16 disse que havia examinado sua consciência "diante de Deus" e que sentiu que não estava à altura do desafio de guiar os 1,2 bilhão de católicos do mundo. Essa tarefa deverá ser passada para o seu sucessor, que terá de lidar não só com a Igreja Católica Romana prejudicada pela crise de abuso sexual, mas também com uma Europa cada vez mais secular e a disseminação de movimentos protestantes nos Estados Unidos, América Latina e África.

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Muitos observadores do Vaticano suspeitam que os cardeais irão escolher alguém com melhores habilidades de gerenciamento e um toque mais pessoal do que Bento 16, alguém que consiga estender o alcance da Igreja para novos grupos, particularmente para os jovens da Europa, para quem a Igreja agora é em grande parte irrelevante, e para a América Latina e África, onde os movimentos evangélicos estão cada vez mais presentes.

"Eles querem alguém que possa disseminar essa ideia da nova evangelização, reacendendo o fogo missionário da Igreja e realmente fazendo-a funcionar, e que não fique apenas na teoria", disse John L. Allen, especialista sobre o Vaticano do National Catholic Reporter e autor de vários livros sobre o papado. Alguém que será o "missionário chefe da Igreja, um showman e vendedor da fé católica, que poderá assumir as rédeas e governar com as próprias mãos", acrescentou.

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A outra batalha da Igreja é sobre a distribuição demográfica dos católicos, que mudou decisivamente no mundo em desenvolvimento. Hoje, 42% dos adeptos vêm da América Latina, e cerca de 15% da África, contra apenas 25% da Europa. Isso levou muitos na Igreja a dizer que o novo papa deverá representar uma parte do mundo onde a adesão está crescendo rapidamente, enquanto outros disseram que a visão espiritual deverá ser primordial.

Mas embora a maioria dos católicos do mundo viva fora da Europa, a maioria dos cardeais vêm da Europa, o que aponta para uma tensão central: embora o Vaticano seja uma organização global, muitas vezes ele funciona como se fosse uma vila italiana.

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A especulação é abundante sobre quem melhor preencherá as necessidades da Igreja. O Cardeal Angelo Scola, o poderoso arcebispo de Milão, é visto como o mais forte candidato italiano. Um teólogo conservador com um interesse em bioética e as relações entre católicos e muçulmanos, ele é conhecido por sua inteligência, seu histórico na mesma tradição teológica que o papa Bento 16, sua experiência com a mídia e seus fortes laços com o estabelecimento político italiano. Especialistas do Vaticano elogiaram seu apelo popular, mesmo que seus escritos sejam muitas vezes opacos.

O Cardeal Marc Ouellet, um teólogo dogmático canadense, é amplamente visto como um dos favoritos de Bento 16, que o indicou a chefe da influente Congregação do Vaticano para os Bispos para ajudar a selecionar bispos ao redor do mundo. Críticos do Quebec, Canadá, disseram que ele está fora de sintonia com a província de bispos mais progressistas, mas que isso não é necessariamente uma desvantagem na Igreja de hoje.

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O Cardeal Peter Appiah Turkson, de Gana, chefe do Conselho Pontifício do Vaticano para a Justiça Social, é visto como o candidato Africano para o papado. Educado em Roma e Nova York, ele é conhecido por opiniões semi-ortodoxas sobre o uso de preservativos, dizendo que os casais poderiam usá-lo para evitar a infecção quando um dos parceiros é HIV positivo, embora também tenha defendido a observação de Bento 16 de que o uso do preservativo aumenta o risco de propagação da aids .

O Cardeal Leonardo Sandri, prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais, é um argentino que apelaria para o setor latino-americano da Igreja. Ele também é um membro do Vaticano que serviu na Secretaria de Estado de João Paulo 2º e sabe como lidar com a complexa burocracia do Vaticano, o que pode torná-lo eficaz, de acordo com especialistas.

Bento 16 foi visto como um gestor fraco e seu papado sofreu a interferência de escândalos debilitantes, mais recentemente, um em que o mordomo foi condenado por um tribunal do Vaticano em outubro por roubo depois que ele admitiu ter vazado documentos confidenciais , muitos dos quais foram publicados em um livro que mostrou os bastidores do Vaticano.

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Seu sucessor terá que lidar com uma série de incríveis desafios práticos, inclusive a falta de padres e freiras ao redor do mundo, bem como a crise de abuso sexual que abalou a autoridade moral da Igreja, especialmente na Alemanha e em países de língua inglesa onde tiveram uma repercussão mais complicada.

Em grande parte do mundo em desenvolvimento, especialmente na América Latina e partes da África, as Igrejas Evangélicas estão ganhando territórios que antes eram dominados pela Igreja Católica, atraindo fiéis com serviços que oferecem música e ênfase no auto-aperfeiçoamento.

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Mas especialistas do Vaticano disseram que a preocupação da Igreja com o mundo em desenvolvimento não vai necessariamente fazer com que selecionem um papa dessa parte do mundo.

Bento 16 indicou 67 cardeais e destes 37 são da Europa, que continua a ser o bloco de votação mais substancial, e potencialmente o mais influente. Quase todos os 117 cardeais que votarão para o novo papa foram indicados por Bento 16 e seu predecessor, João Paulo 2º, ambos tradicionalistas, e é provável que o próximo papa irá partilhar de sua visão e doutrina.

O porta-voz do Vaticano disse na segunda-feira que, depois do dia 28 de fevereiro, o papa não irá mais fazer aparições públicas e não participará na indicação de seu sucessor. Mas muitos se perguntavam se sua presença teria um impacto. "O fato é que ele está vivo e é óbvio que a sua opinião e a sua percepção será sentida", disse Paolo Rodari, repórter do Vaticano para o jornal Il Foglio.

Por Rachel Donadio e Elisabetta Povoledo

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