Munições dos EUA são apontadas como causa da malformação de bebês no Iraque

Houve um aumento de sete vezes no número de recém-nascidos com defeitos em Basra entre 1994 e 2003; dentre cada 1 mil nascidos com vida, 23 tinham defeitos de nascença

NYT | - Atualizada às

NYT

A guerra no Iraque acabou já faz algum tempo, mas nas cidades de Basra e Fallujah o número de bebês que nascem com defeitos e os casos de câncer estão em ascensão. Os moradores locais acreditam que o urânio das munições americanas é o culpado por essas ocorrências e alguns pesquisadores acreditam que eles podem estar certos.

À primeira impressão, Askar Bin Said parece estar bêbado. Mas a bebida alcoólica é proibida em Basra. Na verdade, ele viu criaturas que descreve com seus próprios olhos: "Alguns tinham apenas um olho na testa ou duas cabeças. Um tinha um rabo, como o de um cordeiro. Outra parecia uma criança perfeitamente normal, porém com o rosto de um macaco. Ou a menina cujas pernas estavam grudadas, metade peixe, metade ser humano."

Leia também: 'Romeu e Julieta' do Iraque desafiam violência sectária

Reuters
Foto de bairro atacado em Bagdá. Duas crianças, que brincavam em parque, morreram (Foto de arquivo)


Saiba mais: No Iraque, Montéquios e Capuletos são xiitas e sunitas

Os bebês que Askar bin Said descreve foram levados até ele. Ele os lavou e os enrolou em mortalhas, e então os enterrou no solo seco, cheio de pedaços de plástico e tampas de latas, no cemitério que pertence à sua família há cinco gerações. Esse é um cemitério apenas para crianças.

Embora sejam pequenos, os túmulos ficam tão próximos que quase formam um amontoado. Em muitos casos, não existe sequer espaço para colocar a data de nascimento do bebê. Mas isso realmente não importa, porque, na maioria dos casos, as duas datas são idênticas.

Há milhares de sepulturas no cemitério e quase dez novos túmulos são adicionados todos os dias. O número de túmulos é certamente notável, disse Bin Said, mas "realmente não há uma explicação" por que existem tantos bebês mortos e recém-nascidos deformados em Basra.

Após a guerra:  Iraque viveu em julho o mês mais mortal dos últimos anos

Custos: Auditoria mostra que EUA desperdiçaram bilhões no Iraque e Afeganistão

Outros, no entanto, acreditam saber o porquê. De acordo com um estudo publicado em setembro no Boletim de Contaminação Ambiental e Toxicologia, uma revista profissional com sede na cidade alemã de Heidelberg, houve um aumento de sete vezes no número de recém-nascidos com defeitos em Basra entre 1994 e 2003. Dentre cada 1 mil nascidos com vida, 23 tinham defeitos de nascença.

Cânceres duplos e triplos

Números igualmente altos foram registrados em Fallujah, uma cidade que foi fortemente disputada na guerra de 2003. Segundo o estudo de Heidelberg, a concentração de chumbo nos dentes de leite das crianças doentes de Basra é quase três vezes maior do que a quantidade registrada em áreas onde não houve combates.

Leia mais: Cães que atuam em zonas de guerra demandam tratamento diferenciado

Traumas:  Suicídios de soldados americanos superam mortes durante combate

Jawad al-Ali trabalha como especialista em câncer no Hospital Sadr (antigo Hospital Saddam), situado em Basra, desde 1991. Ele lembra do período após a Guerra do Golfo. "Não é que o número de casos de câncer tenha apenas aumentado repentinamente. Também apareceram cânceres duplos e triplos, ou seja, pacientes com tumores nos rins e no estômago. Tinham também grupos de familiares adoecidos, ou seja, famílias inteiras que foram afetadas pela doença."

Ele está convencido de que isso está relacionado com a utilização de munições contendo urânio. "Há uma conexão entre o câncer e a radiação. Às vezes, são precisos 10 ou 20 anos para as consequências se manifestarem."

O Ministério de Defesa Alemão afirmou que não é a radiação que apresenta uma ameaça à saúde, mas sim a "toxicidade química do urânio".

Vivendo em um depósito de lixo

A Royal Society apresentou um dos estudos mais completos sobre o assunto em 2002, mas só lidou com a potencial ameaça para os soldados. Concluiu-se que o risco de danos causados pela radiação é "muito baixo", assim como o risco de toxicidade renal crônica pelo contato com o pó de urânio.

Isto pode até tranquilizar os soldados, mas não Mohammed Haidar. Ele vive em Kibla, um distrito de Basra que, como outros da cidade, se assemelha a um depósito de lixo. Kibla é um bairro repleto de barracos - com líquidos brilhantes e esverdeados fluindo por esgotos a céu aberto e recipientes de plástico cheios de material em decomposição.

Saiba mais:  Com ligação por cabo submarino, Iraque entra para o mundo digital

AFP
Equipes de resgate e segurança observam área atingida por ataque em mercado de Diwaniya, Iraque (foto de arquivo)

Haidar, que é professor de matemática em uma escola local, poderia se dar ao luxo de viver em um bairro melhor. Mas ele gasta todo seu dinheiro em um tratamento para sua filha Rukya. Aos três anos de idade, ela estava sentada em seu colo, como se fosse uma boneca de ventríloquo. Ela é uma menina adorável com tranças e fitas no cabelo, mas não caminha ou fala corretamente.

Quando Haidar vira sua filha, duas aberturas em suas costas se tornam visíveis. Ela tem uma fissura na coluna, o sinal visível externamente da hidrocefalia, assim como um tubo de drenagem implantado para remover o excesso de fluido cérebro-espinal.

Na Alemanha, as crianças com casos como o dela são frequentemente tratadas com cirurgia pré-natal, mas isso não ocorre em Basra. Na verdade, Haidar e sua esposa estão contentes que Rukya ainda está viva. Ela é a sua primeira e única filha. "Nós crescemos em Basra. Eu culpo os Estados Unidos por isso. Eles utilizaram urânio em suas munições. Minha filha não é um caso isolado", disse Haidar.

Religião: Êxodo do norte do Iraque reflete declínio de cristãos no país

Sociedade:  Execuções de homossexuais e 'emos' provocam medo no Iraque

Sem Propaganda

Era impossível manter as crianças e cidadãos longe dos destroços, disse Abu Yassin. "Instalamos placas que diziam: Cuidado – Radiação!, mas as pessoas não levam a sério uma ameaça quando o problema não é visível."

A munição de urânio é uma questão delicada e nem todo médico em Basra está disposto a comentar o assunto. Os motivos para tamanha reticência têm a ver com o regime ditatorial de Saddam Hussein: a suposta ameaça da radiação advinda de restos de munições feitas com urânio já alimentaram a propaganda do antigo regime.

Nos Estados Unidos, nenhum grande jornal publicou uma reportagem sobre as doenças genéticas em Fallujah. O The Guardian da Grã-Bretanha, por outro lado, criticou o silêncio do "Ocidente", chamando-o de uma falha moral, e citou o químico Chris Busby, que disse que a crise de saúde em Fallujah representou "a maior taxa de danos genéticos em uma população já estudada". Busby é o co-autor de dois estudos sobre o assunto.

NYT:  Jovens do Iraque criam sua própria versão da cultura americana

Leia mais:  Debate sobre tropas dos EUA no Iraque reflete choque de emoções

Ainda assim, é difícil identificar com precisão a causa dos defeitos. Anomalia na espinha dorsal também pode ser desencadeada por uma deficiência de ácido fólico no início da gravidez, por exemplo. Além disso, poucos iraquianos conseguem pagar para realizar exames de gravidez regularmente. Como resultado, muitos embriões defeituosos acabam nascendo, ao contrário do que normalmente acontece na Europa ou nos Estados Unidos.

Wolfgang Hoffmann, um epidemiologista da Universidade de Greifswald, no nordeste da Alemanha, tem colaborado com colegas cientistas em Basra há anos. "Os defeitos congênitos muitas vezes parecem muito preocupantes em fotos", disse. "Mas eles são sempre casos isolados e não são necessariamente úteis para identificar tendências."

Hoffmann cita a falta de dados abrangentes e questiona a confiabilidade epidemiológica de relatórios. Ele acredita, no entanto, que os indícios de aumento das taxas de câncer em Basra devem ser levados muito a sério, em parte porque os dados para Basra são mais confiáveis.

Buscando a verdade

Os "fatores de risco plausíveis" para a leucemia infantil, disse Hoffmann, "sem dúvida incluem o ambiente contaminado, mas também a falta de prevenção, o trauma sofrido pelos pais e a devastada infra-estrutura médica." O aumento estatístico do número de crianças com leucemia desde 1993, é também resultado de casos que não foram totalmente documentados antes de 2003.

EUA: Dor em lares americanos cresce com aumento de militares mortos em combate

Janan Hassan, uma oncologista do Hospital Infantil de Basra, participou de um estudo que acaba de ser publicado no Jornal de Medicina da Universidade Sultan Qaboos de Omã. Nele, afirma que embora a taxa de leucemia infantil em Basra tenha se mantido estável entre 2004 e 2009, em comparação com outros países da região, há uma tendência entre crianças muito jovens de contraírem a doença.

Assim, ela acredita que as objeções são apenas parcialmente aplicáveis. Há um "forte aumento" nos defeitos genéticos como causa da leucemia, ela observou. "E os casos são provenientes precisamente das áreas onde aconteceram combates pesados. Como você explica isso? Dizendo que os requisitos de informação mudaram?"

"Bombas em nosso bairro"

O hospital paga a quimioterapia, embora a radioterapia seja mais eficaz para o tratamento de seu tumor. Mas ela é disponível apenas no exterior ou em Bagdá, onde há uma lista de espera de pelo menos cinco meses – e a família não possui muito tempo. A mãe pede a Alá e quando o intérprete pergunta de quem é a culpa pela aflição de seu filho, ela afirma: "A guerra é a culpada. A poluição. Havia muitas bombas em nosso bairro."

O urânio pode ser um fator, mas outras substâncias utilizadas na produção de munições e bombas também estão implicadas, metais pesados tóxicos, como o chumbo e o mercúrio. "O bombardeio de Basra e Fallujah pode ter aumentado a exposição da população aos metais, possivelmente resultando no aumento nos defeitos de nascimento", afirma o estudo de Heidelberg.

Atirador no Iraque:  'Matei 255 pessoas e não me arrependo'

Nos EUA:   Devastado por traumas da guerra, veterano luta para voltar à vida

Além disso, quando o campo de petróleo de Rumaila perto de Basra, foi incendiado em 2003, uma nuvem de fuligem cheio de partículas cancerígenas atingiu a cidade. E outro fator também pode estar em jogo. Desde que Saddam foi deposto, vizinhos do Iraque como Irã, Síria e Turquia têm desviado substancialmente mais água dos rios Eufrates e Tigre. A corrente no Shatt-al-Arab, formada pela confluência dos dois rios, é agora tão fraca que a água salgada penetra no interior do Golfo Pérsico e vai até Basra.

Isto significa que as águas residuais de instalações industriais a jusante de Basra, como a refinaria de petróleo iraniana em Abadan, não estão mais sendo adequadamente diluídas, aumentando a concentração de metais pesados nas águas subterrâneas.

Abu Ammar vive com sua família nas redondezas do antigo centro de comando da Marinha de Saddam. Os aposentos abrigam quase 10 pessoas em um quarto, e a situação de várias outras famílias não é tão diferente quanto a dele. É mais um bairro pobre de Basra - a riqueza dos poços de petróleo de Basra, onipresente no bairro em forma de emanações fedorentas, ainda não foi compartilhada com as pessoas.

Três Olhos para Três Crianças

Ammar colocou um tapete de plástico no chão e uma lata de 7-Up e um bolo para cada um de seus visitantes sobre o tapete. A família - ou o que restou dela - se agachou ao redor do tapete. Os soldados de Saddam executaram dois irmãos de Ammar. O primo sentado ao lado dele ainda tinha um pedaço de estilhaços de um ataque preso atrás de seu olho, a mãe morreu de desgosto, sua esposa já não sai para fora da casa - "e esses são os nossos filhos ", disse ele.

Leia também:  Iraque comemora retirada dos EUA

EUA:  Iraque expulsa e recebe família novamente após exílio

Ele apontou para uma mulher de 21 anos de idade, uma menina de sete anos de idade e um menino, sentado um ao lado do outro. Eles não têm os mesmos pais, mas todos os três têm as mesmas caras estreitas, e juntos eles têm apenas três olhos.

As bases de seus olhos perdidos parecem como o interior de uma ostra, leitoso e disforme. A jovem, Madia, frequenta a faculdade local. Ela não gosta de ir lá mesmo cobrindo metade de seu rosto com o véu. "O que causou isso? Acho que minha mãe inalou algum tipo de substância química quando eu estava dentro dela", disse Madia.

É fácil atribuir a culpa por esses defeitos de nascença às munições de urânio, feitas pelos Estados Unidos. É mais fácil do que ponderar sobre os efeitos do chumbo e mercúrio no solo e nos tomates, ou da fuligem no ar e os materiais tóxicos na água. Mas isso não isenta os envolvidos na guerra da responsabilidade. Não é o suficiente para declarar que a guerra acabou. Mesmo que o Iraque hoje tenha eleições e o tirano tenha sido enforcado, a guerra ainda está presente no solo, no ar e nas crianças.

Saiba mais:  Após retirada americana, cresce temor de conflito sectário no Iraque

Omran Habib lidera o Grupo de Pesquisa do Câncer de Basra. Obteve seu Ph.D. em Londres e agora trabalha como um epidemiologista do Hospital Universitário de Basra. "A guerra causou uma enorme quantidade de danos nesta região", disse. "Munições de urânio certamente não são boas para a nossa saúde. No entanto, mesmo a presença de urânio na urina dos pacientes não implica causalidade."

Um Pacote Branco

A Organização Mundial de Saúde (OMS) está montando um relatório sobre a munição de urânio. Ele irá refletir o estado atual das pesquisas sobre o assunto, mas dificilmente irá fornecer quaisquer novas informações. Com a ajuda da Universidade de Greifswald, um registro do câncer tem sido desenvolvido para a região de Basra e servirá de base para todos os futuros estudos. Ainda assim, embora mais pesquisas sejam necessárias, mesmo que apenas por causa das crianças, ele acontecerá muito tarde para muitas delas.

AP
Homem é visto em frente de local de explosão de bomba em Madain, a cerca de 25 km a sudeste de Bagdá, Iraque (foto de arquivo)

Leia também:  EUA devolvem 'pratos de Saddam' ao Iraque

É certamente tarde demais para o corpo estendido dentro de um pequeno saco branco, amarrado em ambas extremidades, como uma bala, deitado sobre um monte de terra ao longo da borda do cemitério de crianças em Basra. Era para ser o seu primeiro filho, disse o pai, de pé ao lado do corpo. Um dia antes, a criança ainda estava se movendo dentro do estômago da mãe. Hoje, o pai foi simplesmente recebeu um saco branco.

O responsável de plantão por lavar os corpos suspirava alto enquanto cavava a sepultura. Em seguida, colocou o saco dentro do buraco, disse algumas palavras de oração, fez alguns ajustes no saco e o cobriu com terra.

Depois do ritual, os homens foram fumar. Ao pai é dado um pedaço de papelão, onde escreve o nome de seu filho, copiando da certidão de nascimento e certidão de óbito que lhe deram no hospital. O coveiro irá escrever o nome de seu filho no cimento. O menino ia se chamar Hussein Ali. O pai escreveu o nome de seu filho morto pela primeira e última vez.

O homem permanece imóvel. Quem se pergunta sobre de quem é a culpa disso tudo em um momento tão vulnerável? Ele parecia abalado, completamente imerso numa profunda sensação de perda e roubado de uma pequena vida.

Por Alexander Smoltczyk

    Leia tudo sobre: iraqueguerra do iraquecâncerurâniomuniçõeseua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG