Tunísia vive clima derrotista dois anos após inaugurar Primavera Árabe

Para muitos tunisianos, objetivos que motivaram a revolução no fim de 2010 já não parecem mais ao seu alcance

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De maneira não tão sensacional como no Egito, em um assunto de pouca relevância para a imprensa internacional, a revolução na Tunísia está se desvendando. Exatamente dois anos se passaram desde que um vendedor de frutas em uma cidade provincial estimulou os tunisianos a derrubar o presidente autoritário Zine El Abidine Ben Ali, e árabes vivendo outras ditaduras deram início a seus próprios protestos. Mas o clima no aniversário do martírio simbólico é sombrio, até mesmo derrotista. Para muitos tunisianos, os objetivos que motivaram a revolução já não parecem mais ao seu alcance.

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Quais eram esses objetivos? Sair rapidamente e de maneira ordenada de 55 anos de ditadura (logo após quatro séculos e meio de colonização otomana e francesa) para uma forma de governo popular. Para unir os islâmicos de diferentes grupos, sindicalistas comerciais de esquerda, liberais econômicos e sociais e secularistas ao estilo francês que proibiam o uso do véu - todos sem coerção. Corrigir o desequilíbrio econômico histórico entre o próspero litoral e o interior negligenciado. E, finalmente, encontrar um lugar em comum entre duas culturas tunisianas: a primeira, bucólica, herdeira das civilizações mediterrâneas, que pode ser presenciada nos sítios arqueológicos do país; a segunda, um local seguro para a Arábia e o Islã já que a Tunísia dispõe de um dos lugares de culto mais antigos do mundo muçulmano, a mesquita de Uqba, na cidade sagrada de Kairouan, assim como um próspero movimento islâmico.

Mesmo com uma liderança eficiente, essas ambições podem parecer inatingíveis, pelo menos nos próximos anos ou até mesmo em uma geração. E essa mesma liderança eficiente, infelizmente, é notável por sua ausência, o governo de coalizão que foi eleito há 14 meses nada mais é do que um agrupamento pós-revolucionário típico de ideais e métodos, dominado por políticos com uma rica experiência de oposição à tirania e nenhuma prática em exercer o poder. Além disso, tunisianos comuns querem resultados que esses homens e mulheres provavelmente não atenderão.

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Privação econômica e social, e não um desejo por uma democracia, foram as causas iniciais da revolta tunisiana. Cidadãos mais ricos e mais instruídos, porém, juntaram-se à causa para exigir liberdade, assim como empregos. A assembleia nacional provisória que emergiu das eleições de outubro de 2011 tinha como objetivo efetuar melhorias em todas as áreas: a nova ordem política também traria justiça social e reforma econômica. Os novos membros da assembleia estavam dispostos a cumprir essas expectativas. Eles acreditavam que finalmente cumpriam seu destino depois de anos de sacrifício e humilhação nas mãos do antigo regime.

O espírito de solidariedade era para ter sido incorporado em um governo de coalizão que reunia dois partidos de centro-esquerda, o Ettakol e o Congresso para a República, sob a liderança do movimento islâmico Ennahda ("Renascimento"). A figura mais importante do governo é o líder do Ennahda, Ghannouchi Rached, 71, um modernizador islâmico influente cuja promoção da democracia em uma sociedade muçulmana ganhou adeptos ao redor de todo o mundo. Depois de ter alcançado cerca de 40% dos votos, o Ennahda indicou como novo primeiro-ministro Hamadi Jebali, enquanto o fundador do Congresso para a República Moncef Marzouki foi indicado para o cargo em grande parte cerimonial da presidência.

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Mas as tensões aumentaram cada vez mais entre os três, também por causa das divisões entre islamistas e secularistas que eles deveriam remediar. Um ataque contra a Embaixada dos EUA na Tunísia após um filme americano supostamente depreciar o profeta Maomé causou quatro mortes e a prisão de dezenas de salafistas. E cada vez mais os secularistas e os conservadores religiosos são levados a lutar uma guerra cultural vigorosa, na qual um invoca os direitos humanos, e o outro a lei islâmica. Além disso, surgiram argumentos contra indivíduos que vestem trajes religiosos em espaços públicos, arte que deprecie o Islã ou revistas com um seio nu na capa. Manifestações foram realizadas, ameaças e contra-ameaças são constantes no Facebook, todos parecem ter ideias diferentes sobre o que realmente é ter liberdade.

Agindo como um júri neutro, desapegado da alegria revolucionária e do desespero pós-revolucionário, saí da Tunísia com uma visão mais otimista. O país deu passos importantes em direção a um sistema mais representativo e politicamente responsável. As instituições estão funcionando, embora imperfeitamente. A liberdade de expressão está sendo levada em consideração de uma maneira nunca vista antes na história moderna do país. Para ter certeza, os secularistas e islamistas se esforçam para garantir que a sua visão de mundo seja reconhecida no dia a dia, mas extremistas de ambos os lados dizem aceitar o fato de que, enquanto a maioria se opõe a eles, ceder é inevitável.

Sentei-me perto de Ghannouchi no meu voo de Londres para a Tunísia (ele havia ido receber um prêmio da British Chatham House) e, falando o Inglês que tinha aprendido durante longos anos de exílio no Reino Unido, disse-me que temia que o espírito inicial de solidariedade que a revolução havia engendrado parecia estar desaparecendo cada vez mais. Ele estava desanimado pela maneira pela qual o governo havia sido tratado por recém-habilitados (e principalmente seculares) meios de comunicação, e as expectativas irrealistas das pessoas. Mas sua visão, de um mundo diversificado, com espaço para visões divergentes, parecia não ter sido alterada. "Há mais de uma interpretação do Islã", disse, expondo uma opinião que os salafistas odeiam.

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Descobri que ele havia exigido pragmatismo por parte dos assistentes de voo da companhia aérea Tunis Air. Atrás de uma cortina no carrinho de bebidas, disse-me, estavam escondidos diferentes tipos de bebida alcoólica. Você só precisava pedir e seria servido. "Os comissários de bordo não estão contentes com isso ", Ghannouchi continuou.

"Eles me disseram que são bons muçulmanos e rezam, fazem jejum e mesmo assim aqui estão eles obrigados a servir álcool para os passageiros. E lhes disse que as coisas são assim mesmo. Vivemos em uma sociedade onde um monte de gente bebe álcool. E por isso temos de aceitar a lógica dessa realidade."

Por Christopher De Bellaigue

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