Caso extraconjugal de ex-diretor da CIA com biógrafa cria debate ético nos EUA

Autores de livros sobre personalidades vivas têm o desafio de se aproximar delas para conquistar sua confiança, mas sem perder a objetividade

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Quando Doris Kearns Goodwin ainda era jovem, pouco conhecida e escrevia a biografia do ex-presidente Lyndon B. Johnson, ela ficou hospedada em seu rancho no Texas. Às vezes, disse ela, mais tarde, quando ele não conseguia dormir, ia até seu quarto e contava seus problemas.

Walter Isaacson se sentou ao lado da cama de Steve Jobs quando ele sofria de câncer, uma experiência, que de acordo com Isaacson, fez com que se tornasse "profundamente emocionalmente envolvido" com o tema de seu livro.

Escrever uma biografia contemporânea sempre foi um ato de equilíbrio complicado, mesmo antes de Paula Broadwell ter demonstrado com seu livro sobre o ex-diretor da CIA David H. Petraeus que este tipo de relação pode certamente tomar um direcionamento errado. Petraeus teve de renunciar ao cargo após o FBI ter descoberto seu caso extraconjugal com a biógrafa.

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O então chefe das tropas americanas no Afeganistão, David Petraeus, e sua biógrafa, Paula Broadwell, com quem teve um caso extraconjugal (13/07/2011)

O desafio de escrever uma biografia sobre uma pessoa que ainda está viva é que um autor deve estabelecer confiança e um nível de conforto para ter acesso e um fluxo livre de informações. Mas, mesmo assim, ainda espera-se que o biógrafo avalie e exponha seu personagem de maneira neutra.

Não há roteiro a seguir, pois editoras costumam comprar todos os tipos de biografias - desde aquelas sobre figuras históricas até as de figuras públicas que estão em voga apenas durante um breve período - e não impõem limites claros para os autores sobre como deverão atingir seus objetivos.

"Qualquer biografia de uma figura viva e ativa que ainda está no auge de seus poderes vai ter que encontrar um equilíbrio delicado entre o acesso e a objetividade", disse Tim Duggan, editor executivo da HarperCollins. "Pode ser algo bastante complicado e requer um cuidado meticuloso".

Mesmo após a revelação de que Paula Broadwell estava tendo um caso com Petraeus, o tema de sua biografia "All In: A Educação do general David Petraeus", tanto editores quanto biógrafos relutaram em condenar o livro diretamente, pois as regras nesta área não são muito claras.

"Acredito que tudo depende do produto final", disse Stephen Rubin, presidente da Henry Holt. "Mas eu preferirira que eles não tivessem tido uma relação amorosa, pois perde-se o senso de objetividade quando você está romanticamente ligado a seu personagem."

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Os editores disseram que queriam "um livro sobre os rigores do comando contado a partir de um ponto de vista de alguém que estivesse infiltrado neste ambiente," escreveu Vernon Loeb, editor no The Washington Post e co-autor do livro de Broadwell, acrescentando: "Eu não tive muita influência sobre como lidaríamos com a biografia de Petraeus, que alguns acharam ser excessivamente elogiosa".

Embora o livro não seja oficialmente uma biografia "autorizada", na prática tem todas as características de uma, incluindo extensa entrevista com Petraeus no Afeganistão, muitas vezes durante corridas que ele praticava com Broadwell.

A pergunta que os editores estão se fazendo ultimamente é se eles têm a responsabilidade de examinar mais de perto os motivos por trás do acesso especial que Broadwell obteve. Os editores que tinham visto o manuscrito na época que estava sendo comprado disseram que certamente havia uma abundância de sinais de perigo.

Por um lado, disseram eles, Petraeus estava no auge de sua carreira militar e tinha tanto a perder quanto a ganhar por participar de uma biografia. Ainda mais estranho foi o fato de ele ter concordado em cooperar com alguém que queria escrever um livro sobre ele ao invés de contratar um escritor fantasma para que escrevesse sua própria biografia, controlando o processo de escrita e de sua própria imagem. Também um tanto quanto estranho, disseram eles, era o fato de que ele concordou em trabalhar com alguém que não era um escritor experiente - a ponto de um co-autor, Loeb, ter de ser contratado para fazer o trabalho pesado.

Autores que escreveram biografias de celebridades contemporâneas disseram que é altamente incomum que seus personagens demonstrem este tipo de confiança com escritores que não foram contratados por eles mesmos, e disseram que poderia até mesmo ser um dos motivos para não aceitarem. Acesso generoso tem suas armadilhas, incluindo o risco da credibilidade de um escritor.

"Existem grandes vantagens em ser um autor de uma biografia contemporânea - você pode ver seu personagem em tempo real", disse Douglas G. Brinkley, um professor de história da Universidade de Rice, que escreveu biografias do senador John Kerry, do ex-presidente Jimmy Carter e de Rosa Parks. "Mas o lado negativo é que você não pode escrever uma hagiografia, e caso o faça, com certeza irão chamar sua atenção."

Carol Felsenthal escreveu biografias de Katharine Graham, do Washington Post, Si Newhouse da Conde Nast e do ex-presidente Bill Clinton. Nenhum deles cooperou.

"Não existem tantos jornalistas assim que gostariam de estar envolvidos em uma biografia autorizada", disse ela em uma entrevista. "Se você chegar muito perto de seu personagem, você não é nada mais do que um transcritor, e os leitores deverão ficar sabendo disso."

Por Leslie Kaufman

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