Negociação entre EUA e Egito possibilitou cessar-fogo em Gaza

Acordo no Oriente Médio marca o início de uma aliança improvável entre o presidente americano, Barack Obama, e o egípcio, Mohammed Morsi

NYT |

NYT

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não comeu sua sobremesa depois de um longo jantar no Camboja no dia 19 de novembro para poder voltar rapidamente para a suíte de seu hotel. Era quase 23h30 e ele pensava na ofensiva israelense em Gaza , não na diplomacia asiática. Ele pegou o telefone para ligar para o líder egípcio, Mohammed Morsi, que é seu mais novo contato no Oriente Médio.

Durante os 25 minutos seguintes, ele e Morsi discutiram maneiras de acabar com a mais recente onda de violência, uma conversa que levaria Obama a enviar a secretária de Estado americana, Hillary Rodham Clinton, para a região. À medida que conversava com Morsi, Obama sentiu que eles estavam se entendendo. Três horas depois, 2h30 da madrugada, eles se falaram novamente.

Leia também:  Obama conquista vantagem sobre premiê de Israel

AP
O presidente do Egito, Mohammed Morsi, concede entrevista no Cairo (13/07/2012)

O acordo de cessar-fogo intermediado entre Israel e o Hamas em 21 de novembro foi a demonstração oficial desta nova e improvável parceria geopolítica, que tem um potencial estimulante mas também uma boa dose de risco para ambos os líderes. Depois de um começo difícil em sua relação, Obama decidiu investir fortemente no líder cuja eleição causou preocupação devido às suas ligações com a Irmandade Muçulmana, vendo nele um intermediário que poderia ajudar a fazer progressos no Oriente Médio que poderiam ir além da crise em Gaza .

Obama disse a assessores que ficou impressionado com a confiança pragmática do líder egípcio. Ele sentiu a precisão de um engenheiro com pouca ideologia. O mais importante, disse Obama, é que ele viu em Morsi alguém determinado e direto que entregou o que prometeu e não prometeu o que não podia cumprir.

“O apelo para o presidente foi o quão prática estas conversas foram - aqui está o ponto da situação, aqui estão as questões com as quais estamos preocupados", disse uma autoridade de alto escalão do governo que insistiu no anonimato para discutir conversas privadas. "Era alguém que estava focado em resolver problemas."

O lado egípcio também foi positivo em relação à colaboração. Essam el-Haddad, o conselheiro de política externa do presidente egípcio, descreveu uma parceria única se desenvolvendo entre Morsi, que é o mais importante aliado internacional do Hamas, e Obama, que desempenha essencialmente o mesmo papel para Israel.

"Sim, eles estavam de acordo com o ponto de vista do lado israelense, mas também estavam dispostos a compreender o outro lado da história, o lado palestino", disse Haddad no Cairo, à medida que o acordo de cessar-fogo estava sendo finalizado. "Sentimos que havia um alto nível de sinceridade na tentativa de encontrar uma solução. Essa sinceridade e compreensão foram muito úteis."

A parceria incipiente forjada durante o caos da semana passada pode ser efêmera, um momento único de cooperação proveniente da necessidade e movida por interesses nacionais que chegaram a coincidir em um determinado momento ao invés de um profundo encontro de mentes.

Durante seu telefonema na noite de segunda-feira, Obama teve a ideia de enviar Hillary para a região. Morsi concordou que iria ajudar. O presidente então ligou para o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para conversar sobre a ideia. No telefonema das 2h30 para Morsi, Obama confirmou a idea da secretária.

Depois de sua partida de Phnom Penh, no dia seguinte, a caminho de Washington, Obama pegou o telefone a bordo do Air Force One para ligar para Morsi e lhe dizer que Hillary estava a caminho. Na quarta-feira, ele estava no telefone novamente com Netanyahu pedindo para que ele aceitasse o acordo de cessar-fogo e, depois, com Morsi, parabenizando-o.

“Desde o começo tínhamos contatos com ambos os lados", disse Haddad, mas os Estados Unidos entrou em cena "sempre que havia um ponto em que havia a necessidade de mais incentivo e de um empurrão para chegar a uma decisão".

Haddad disse que os Estados Unidos desempenharam um papel importante de "tentar enviar sinais claros a Israel de que não deveriam continuar perdento tempo e que deveriam chegar a um acordo. Eles foram realmente muito úteis para incentivar o lado israelense ".

Ao incentivar o Hamas a aceitar o acordo, Morsi se deparou com uma certa oposição. De um lado, disseram analistas, ele sentiu a pressão de um forte apoio do eleitorado egípcio à causa palestina e antipatia em relação a Israel, assim como os de seus próprios laços pessoais e ideológicos em relação aos islamistas do Hamas. Mas, por outro lado, Morsi havia se comprometido com a causa da estabilidade regional, mesmo que isso significasse decepcionar seu público.

Analistas também observaram que Morsi precisa dos Estados Unidos à medida que ele assegura um empréstimo de US$ 4,8 bilhões do Fundo Monetário Internacional em um momento de dificuldade econômica.

"Não há como o Egito conseguir qualquer tipo de recuperação econômica sem a ajuda de Washington", disse Khaled Elgindy, um conselheiro para os negociadores palestinos durante a última década.

Quanto a Obama, seus assessores disseram que estavam dispostos a aceitar algumas das retóricas mais populistas de Morsi desde que ele se prove construtivo.

"A forma na qual temos sido capazes de trabalhar com Morsi", disse um oficial, "indica que ele poderia ser um parceiro em um conjunto mais amplo de questões que poderão ir além da crise de Gaza ."

Por Peter Baker e David D. Kirkpatrick

    Leia tudo sobre: egitomorsiobamamundo árabegazahamaspalestinosataquesagaza

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG