'Príncipes' da China usam seu poder para transformar política do país

Famílias não necessariamente vinculadas ao Partido Comunista emergem como classe aristocrática e se tornam força dominante na política e nos negócios chineses

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Enquanto os maoístas tentavam manter o controle da China na década de 1970, um poderoso general do sul veio ao auxílio dos moderados, ajudando a prender os radicais. As ações ousadas do general Ye Jianying abriram o caminho para direcionar o país a uma economia mais orientada para o mercado e criaram uma dinastia política despotista, capaz de influenciar a política nacional e proteger seu império de negócios em expansão no sul da China mesmo muito tempo depois de sua morte.

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O novo secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, no encerramento do congresso em Pequim (15/11)

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No decorrer do ano passado, de acordo com membros do partido familiarizados com a situação, os membros da família Ye ajudaram a organizar reuniões para criticar a atual direção que o país vem tomando e têm influenciado nomeações de militares de alto escalão ao mesmo tempo em que impediram a entrada de um reformador econômico no Comitê Permanente do Politburo, o pequeno e poderoso grupo no topo da hierarquia do partido, pois acharam que ele não estava de acordo com seus interesses.

O aumento dos chamados príncipes , como os da família Ye, atingiu um ponto crucial na semana passada, quando Xi Jinping , filho de um pioneiro do Partido Comunista, foi confirmado como líder máximo da China no final do 18º Congresso do Partido.

Estratégia: 'Príncipes' da China usam laços familiares para enriquecer

Apesar da controvérsia crescente sobre seu papel de destaque no governo e em empresas - com destaque para os casos de corrupção recentes, assim como a queda de Bo Xilai , cuja esposa foi considerada culpada de assassinato - os príncipes da China, que chegam a centenas, estão emergindo como uma classe aristocrática com cada vez mais influência no governo do país.

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Enquanto eles brigam e negociam entre si, muitos já deixaram sua marca na ordem estabelecida, desempenhando papéis importantes em empresas, especialmente nas estatais. Outros estão fortemente envolvidos em finanças ou em lobby, onde conexões pessoais são importantes.

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Bo Xilai e sua mulher, Gu Kaila, em foto de 2007

"Muitos países têm famílias poderosas, mas na China elas se tornam a força dominante na política e nos negócios", disse Lu Xiaobo, um professor de ciência política na Universidade de Columbia. "Nesse sistema, eles possuem linhagens favoráveis."

Os príncipes são diferentes dos atuais governantes de alto escalão da China, a maioria dos quais devem sua lealdade às instituições do Partido Comunista. O secretário-geral do partido Hu Jintao fez sua carreira por meio da Liga da Juventude Comunista, um dos órgãos centrais do partido. Da mesma forma, o primeiro-ministro Wen Jiabao, que deve se aposentar de seu cargo em 2013, é um empresário com poucas fontes externas de poder.

Príncipes estão longe de formarem um bloco uniforme. Muitos cresceram em Pequim em complexos residenciais dos ministérios e organizações do Partido Comunista que formavam a capital na década de 1950, 60 e 70. Filhos de líderes estudaram juntos e brincaram juntos e, durante a Revolução Cultural, lutavam entre si.

Muitas daquelas tensões ainda podem ser presenciadas hoje em dia. No ano passado, a família Ye ajudou a organizar uma reunião de príncipes cujos pais participaram da detenção da Gangue dos 4 em 1976, o grupo de maoístas que dominou a política nos últimos anos de vida de Mao Tsé-tung e ameaçou manter o controle após a morte do ditador. A família Ye e outros se reuniram para criticar a direção atual da China.

Mas a reunião ficou dividida sobre quão longe algumas mudanças políticas deveriam chegar. Aqueles mais próximos de Hu Deping, filho de Hu Yaobang, secretário-geral deposto por Deng Xiaoping (o último líder a desempenhar um papel crucial na Revolução Chinesa na década de 1980), têm solicitado uma diminuição na influência do partido sobre o governo e negócios. Outros, incluindo os da família Ye, refletiram sua crença patriarcal em relação ao controle do partido.

O comitê dominante da China, no entanto, será fortemente composto por parentes de líderes seniores.

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Yu Zhengsheng, atualmente o secretário do partido em Xangai, tem um currículo familiar impressionante que inclui antepassados que serviram os imperadores Qing e o governo de Kuomintang e líderes na República Popular da China.

"Há um certo número de príncipes que estão se beneficiando do sistema", disse Zhang Lifan, um historiador de Pequim e filho de um ministro de Alimentação sob Mao. "Portanto, há muitos deles que não querem que haja nenhuma mudança."

Os defensores da reforma política como Zhang enxergam com desconfiança a ascensão dos príncipes. Na época do império, o nepotismo era predominante. Quando o Partido Comunista assumiu, idealistas tinham esperança de que isso pararia de acontecer.

"Mas, por algum motivo, agora estamos de volta ao nepotismo", disse. "E o país é governado por algumas famílias."

Por Ian Johnson

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