Aventureiro cego se prepara para descer o Rio Colorado de caiaque

Erik Weihenmayer, 44, já escalou o Monte Everest e agora quer atravessar o Grand Canyon

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Erik Weihenmayer estava em pé em uma berma de concreto acima do que soava como águas jorrando e inclinou sua cabeça ligeiramente. "Parecem ferozes”, disse. Ele estava se referindo ao barulho que ouvia ao seu redor, o som de 1,892,705.892 milhões de litros de água que jorravam a cada segundo através de seis bombas industriais do Centro Nacional de Águas dos Estados Unidos em Charlotte, Carolina do Norte.

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Erik Weihe­nmaye­r durante treinamento em Charlotte, na Carolina do Norte

Weihenmayer, considerado um dos atletas com deficiência mais talentosos do mundo, talvez seja mais conhecido por ser a primeira pessoa cega de ter subido ao cume do Monte Everest. Mas suas realizações estendem-se a outros esportes radicais, incluindo escalada no gelo, paraquedismo e parapente. Agora ele quer adicionar caiaque a esta lista, e está consciente dos desafios.

"Eu acredito que a prática do caiaque para um cego é um esporte diferente do que para uma pessoa com visão pois você depende muito de sua visão", disse. "Eu preciso sentir o que está sob o meu caiaque e controlar meu remo, e usar meus ouvidos, e tudo acontece tão rapidamente. Sem poder enxergar é como se eu sofresse uma sobrecarga sensorial."

Weihenmayer, 44, chegou ao centro de águas para treinar com Robert Raker, um amigo e um treinador de remo, e dominar as técnicas necessárias para navegar em um pequeno barco de plástico em uma montanha de águas. Se tudo ocorrer bem, disse Weihenmayer, em 2013 ele irá tentar descer o rio Colorado através do Grand Canyon, um dos trechos mais difíceis da nação para se percorrer em um rio. Isso é algo que nenhuma pessoa cega antes dele tentou fazer.

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Skyle­r Willi­ams conduz Erik até a área de treinamento para a descida de caiaque no Colorado

Junto com Raker, Weihenmayer está sendo instruído por dois remadores olímpicos de Charlotte, Casey Eichfeld, um membro da equipe dos Estados Unidos, que competiu na categoria de caiaque slalom em de 2008 e nos Jogos Olímpicos de 2012, e Pablo McCandless, um membro da equipe chilena de canoagem Olímpica que competiu em Pequim, em 2008.

Ao contrário de muitos dos rios do país, onde existem ameaças abaixo da superfície da água, obstáculos como rochas e troncos que podem prender o pé e segurar o atleta embaixo d’água, o centro de águas oferece aos praticantes de caiaque um ambiente seguro para remar nas corredeiras de um rio artificial de circulação. As equipes de canoagem e caiaque treinam no centro.

O Grand Canyon não oferece tal luxo. Considerado um dos melhores lugares do mundo para se praticar canoagem, o trecho tem pedras do tamanho de carros pequenos que podem criar ondas de até 4 metros de altura. Embora Weihenmayer e sua equipe serão acompanhados por um barco, equipamento e um telefone de satélite que os liga diretamente aos guardas florestais do parque, a equipe ficará essencialmente sem contato com a civilização por quase três semanas, à medida que eles fazem a descida.

"Existem alguns lugares onde nem sequer é possível utilizar um telefone via satélite. A comunicação durante toda a viagem vai ser muito fraca", declarou. "Isso é 10 vezes mais assustador do que a coisa mais assustadora que eu já fiz, e eu já fiz algumas coisas muito assustadoras."

Weihenmayer começou a praticar o caiaque há quatro anos atrás aprendendo em um lago. Ele e Raker eventualmente migraram para um local seguro no Rio Colorado perto de Grand Lake, onde eles vivem. Com o tempo, os dois desenvolveram um sistema simples para se comunicarem que iria ajudar Weihenmayer navegar as corredeiras de um rio.

Raker, um canoísta experiente, rema atrás de Weihenmayer e diz qual a direção que ele quer que ele vire e a distância. "Tentamos manter a quantidade de informação a um mínimo, pois se falamos demais aí ele precisará processar muita informação", disse Raker.

Em uma viagem no ano passado, a equipe levou consigo rádios bidirecionais que foram projetados para funcionar debaixo d’água. Mas os rádios não funcionaram. Em um trecho particularmente traiçoeiro de Classe IV, que é uma classe de corredeiras para remadores mais avançados devido a intensidade de suas corredeiras, Weihenmayer se separou de Raker e o sinal do rádio diminuiu conforme se distanciaram. A voz de Raker ficou difícil de ser entendida.

"Parecia como se a professora do Charlie Brown estava gritando comigo", disse Weihenmayer.

Weihenmayer sobreviveu remando sem parar e fez uma propulsão circular quando uma onda gigante virou seu caiaque. Raker eventualmente chegou até ele e navegaram com segurança até a praia. Mas a experiência deixou Weihenmayer abalado.

"Meu cérebro estava sobrecarregado", disse ele. "Eu estava ofegante, e remando em qualquer direção dizendo para mim mesmo ‘eu tenho que sair deste caiaque’."

É impossível se preparar para situações como essa no centro de águas. Em uma descida recentemente, Weihenmayer se deparou com uma onda de 1,82 metros que o arremessou contra uma parede de água branca turva. A onda o derrubou e ele executou uma propulsão circular perfeita, corrigindo seu caiaque e remando em direção a praia, onde parou para recuperar o fôlego.

“Realmente são águas ferozes” disse ele.

Por Erik Olsen

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