Basquete ajuda jovem a lidar com morte do pai durante tsunami no Japão

Leia texto de Ryo Sato, estudante japonês que encontrou no esporte a força para superar o momento mais difícil de sua vida

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Quando o tsunami atingiu o nordeste do Japão no dia 11 de março de 2011, ele matou milhares de pessoas e destruiu vastas extensões de uma costa rochosa. À medida que os sobreviventes das regiões de Fukushima, Miyagi e Iwate começaram a retomar suas vidas novamente, eles passaram a depender uns dos outros mais do que nunca.

Ao contrário dos Estados Unidos, onde atletas costumam jogar um esporte diferente a cada estação, os estudantes japoneses se comprometem com um único esporte que praticam durante o ano inteiro. Como resultado, colegas de equipe e treinadores serviram como uma rede de apoio para muitos atletas afetados pela catástrofe. Esportes também ajudaram a conectar estudantes-atletas com seus familiares e vizinhos, muitos dos quais também praticavam esportes.

Um ano do tsunami do Japão: Veja antes e depois da reconstrução

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Flor é vista em meio aos destroços de terremoto seguido por tsunami de 11 de março na cidade devastada de Otsuchi, Província de Iwate, Japão (arquivo)

No ano passado, a Federação Escolar Atlética Japonesa realizou um concurso de redação para estudantes que foram afetados pelo desastre. Os alunos responsáveis pelas redações mais convincentes sobre o papel dos esportes em um momento de necessidade receberam bolsas de estudo.

Foram escolhidas três redações vencedoras que foram traduzidas para o Inglês. Elas incluíam a história de um menino que escreveu que ele se tornou um homem depois de ter perdido seu pai, e que ele ainda fica inseguro às vezes na quadra de basquete; uma participante de canoagem e sua amizade internacional; e uma neta que honrou a morte de sua avó através da natação.

Levando em consideração as dificuldades que abateram a região de Nova York e Nova Jersey, vítimas da tempestade Sandy , estas histórias podem proporcionar consolo e inspiração.

Uma das redações, cujo título era "Superar o desastre", foi escrita por Ryo Sato, um jogador de basquete que está na segundo colegial na escola Kurosawajiri Kita, na cidade Kitakami, na região de Iwate.

Leia a redação de Ryo Sato:

"Ittekimasu" (Eu estou indo para a escola). Depois que disse isso, saí do carro. No dia 11 de março, ainda tínhamos neve no chão em Kitakami. Eu normalmente vou de bicicleta para a escola, mas meu pai estava me levando de carro como um favor. Repeti esta saudação casual como de costume, mas quem teria pensado que iam ser as últimas palavras que eu diria para o meu pai?

Naquela tarde, um enorme terremoto atingiu o nordeste do Japão. Estávamos no meio da aula. Nos escondemos embaixo de nossas mesas. Depois de um tempo, com medo, saímos debaixo de nossas mesas e fomos evacuados do colégio. Meus colegas, companheiros do time de basquete e eu nos encontramos e nos alegramos que estávamos a salvo. Mas logo em seguida, comecei a me preocupar com a minha família. Eu verifiquei meu celular. Havia mensagens de texto de minha mãe e do meu pai. Fiquei aliviado. Escrevi de volta dizendo que eu também estava bem.

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Mas depois que cheguei em casa, vi que seu interior estava em uma condição indescritível. Quase tudo estava espalhado pelo chão. Fiquei muito chocado com o que vi. Mas quando eu vi uma foto do tsunami que atingiu a costa no meu celular, os quartos da minha casa pareciam um oásis em comparação ao desastre lá fora.

Eu e minha mãe começamos a tirar as coisas da casa. Meu pai não voltou. Ele foi para a costa a negócios. Mas eu havia recebido uma mensagem de texto do meu pai na noite após o terremoto e parecia que ele estava em um centro de evacuação. Não nos preocupamos muito com ele. Dois dias após o terremoto, a energia elétrica voltou. Voltamos a assistir televisão e por isso conseguimos coletar informações sobre os centros de evacuação. No entanto, não foi possível encontrar o nome do meu pai nas listas das pessoas que estavam lá.

Seis dias após o terremoto, encontramos um nome e uma idade que combinava com a de meu pai em uma lista de corpos não identificados que o Departamento de Polícia da província de Iwate publicou em um jornal. Minha mãe e eu dirigimos até Taro, na cidade de Miyako.

Mesmo tendo ido preparado para isso, foi impossível descrever como fiquei chocado. Minha mãe ficou devastada. Ela não conseguia nem escrever o nosso endereço de casa. A única coisa que consegui fazer por ela foi segurar sua mão. Um policial me disse: "A partir de agora, ao invés de seu pai, você deverá apoiar sua mãe." Não me lembro se eu concordei com ele ou se virei o rosto.”

Devido a uma carta de um professor da escola, ou o incentivo de vizinhos e amigos, consegui superar a pressão de ter que ser o homem da casa. Fiz uma promessa comigo mesmo."OK, eu consigo fazer isso."

Quando questionei o que eu poderia fazer, a resposta me veio rapidamente. O basquete, um jogo cujo meu pai assistia com entusiasmo. Ele sempre ia aos meus jogos, já joguei basquete quando era menor e ele sempre estava presente em meus torneios. Ter ele presente em meus jogos me dava grande satisfação. Acredito que o meu pai vai continuar me observando do céu, então reafirmei meu compromisso de continuar jogando basquete.

Meu sonho é ser professor. Acho que eles têm um papel muito importante de transmitir mensagens para os alunos. Experimentei tristeza e dor como resultado do desastre, e aprendi alguma coisa. Que a vida é preciosa, importante, e como é maravilhoso e encantador o fato de estarmos vivos.

Minha função na equipe de basquete é de arremessar da linha de três pontos. Eu arremesso a bola e ela nem sequer toca o aro e passa direto pela rede. Esse som é o meu som favorito. Tenho certeza de que irei escutar esse som quando eu falar com as crianças, quando as palavras que acredito entrarem na rede de seus corações.

Será também o som da minha apreciação pelo meu pai. Será o som das palavras que eu direi a mim mesmo, “apoie sua mãe". É o som que irá confirmar a natureza do meu trabalho.

Por Ken Belson

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