Americanos no exterior se mobilizam para ajudar vítimas de tempestade Sandy

Expatriados dos EUA tentam ajudar país natal após desastres impulsionados por saudade e por sentimento de desamparo

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Normalmente, é a mãe de Liz Cohen, em Staten Island, Nova York, quem costuma ligar para sua filha em Israel no meio da noite para verificar sobre segurança. Mas quando a tempestade Sandy inundou o antigo bairro de Liz, no mês passado, ela ligou urgentemente para sua mãe, Janet Meresman Cohen, em Nova York.

"É uma sensação estranha", disse. "Os papéis se inverteram."

The New York Times
Sopa é distribuída em área de Coney Island, em Nova York (03/11)

Meresman Cohen teve sorte, a tempestade não atingiu sua casa. Ela tampouco chegou a ficar sem energia elétrica. No entanto, o dilúvio de fotos que documentam a destruição – iates espalhados pelas ruas da cidade, carros amassados e casas destruídas – deixaram sua filha que mora em Tzur Hadassah, Israel, preocupada.

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"Uma vez que ficou claro que Staten Island havia sido atingida, fiquei muito ansiosa", disse Liz, 30, que escreveu sobre sua angústia em seu blog sobre a vida como uma expatriada. "Durante a semana passada, meu corpo estava em Israel, mas eu só conseguia pensar em Staten Island."

Quando americanos que vivem no exterior presenciam um desastre de longe, muitos passam por dificuldades por sentirem muita saudade de casa e um profundo sentimento de desamparo. Para alguns, contribuir com os esforços de auxílio muitas vezes alivia a tesão relacionada à ansiedade.

Charles R. Figley, um psicólogo da Universidade de Tulane, em Nova Orleans e editor da "Enciclopédia do Trauma: Um Guia Interdisciplinar", sugere que as calamidades estimulam alguns americanos a oferecer ajuda mesmo vivendo no exterior, pois eles sofrem um tipo de "culpa traumatizada".

Na análise de Figley, outros doam alguns dólares para a caridade para absolver-se de tomar outras medidas e pensam: "Oh, sinto-me tão mal pelo que está acontecendo lá. Pelo menos fiz algo positivo."'

Liz não chegou a tal ponto de autoanálise antes de se alistar nos esforços de auxílio ao Sandy. Ela doou dinheiro para o Fundo contra Desastres da Cruz Vermelha Americana e ao Fundo de Auxílio contra Furacão da Federação Judaica Americana, trocou informações sobre a devastação com "amigos da costa leste" em Israel e publicou uma lista de organizações sem fins lucrativos que disponibilizava auxílio emergencial em seu blog.

"Se estivesse lá estaria dirigindo por aí ajudando as pessoas", disse. "Realmente quase cheguei a pegar um voo e ir para lá!"

Isso é exatamente o que Stuart Katz fez. Katz, que se mudou para Israel de Long Island há quase três anos, retornou a Nova York após ter consultado rabinos locais para descobrir como poderia ajudar. Desde que chegou, no dia 3, ofereceu seus serviços a um abrigo no Queens, auxiliando pessoas que esperavam em filas longas de postos de gasolina, e deu carona aos eleitores até as urnas no dia da eleição .

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"Quando estávamos nos Estados Unidos, sempre ajudávamos Israel quando eles passavam por necessidades ", disse Katz. "Nós sabemos como ajudar."

As redes sociais, ligações essenciais para aqueles longe de casa, naturalmente se tornam ainda mais emocionalmente carregadas durante desastres. Stephanie O. Kleindorfer, uma psicóloga americana que vive em Paris, disse que uma súbita perda de comunicação com redes de apoio poderá agravar o estresse e o trauma que muitos enfrentam quando uma crise como essa acontece.

"Estar completamente fora de uma rede social significativa, que supostamente é confiável, certamente pode causar sentimentos de impotência, isolamento e, para alguns, raiva”, escreveu Kleindorfer em um e-mail.

Outro efeito da tempestade, de acordo com previsões feitas por Adam Galinsky, professor da Escola de Administração da Universidade de Columbia que estudou o comportamento dos expatriados, é um aumento no número daqueles que se veem como americanos. Expatriados se identificam com sua cultura de origem constantemente, disse Galinsky. Alguns se reconhecem na sua nova pátria, outros resistem completamente à assimilação, disse.

"Para aqueles que se identifiquem nem que seja um pouco com a cultura de seu país de origem, um desastre normalmente vai atenuar, realçar e intensificar esse sentimento", disse Galinsky.

Embora Rozanne Lofaso VanRie tenha se mudado para Antuérpia, na Bélgica, em 2006 e, anteriormente, morasse perto da capital Washington, ela ainda se descreve como uma garota do Brooklyn. A maioria das pessoas de sua família vive em Nova York, e elas sofreram durante a tempestade. Seu tio esteve "embaixo d’água em Staten Island na Rua Sanilac", e seu filho e nora foram retirados de seu apartamento no Brooklyn e não puderam voltar para casa durante três dias.

Embora a tempestade tenha aumentado seu desejo de confortar sua família pessoalmente, a tormenta ao mesmo tempo aprofundou seus vínculos com seus atuais vizinhos. Lofaso VanRie pertence ao Clube da Mulher Americana na Antuérpia, e muitos membros belgas perguntaram como poderiam ajudar os americanos.

"É realmente uma boa sensação saber que você não está sozinha nesse barco", disse Lofaso VanRie, cujo clube organizou uma venda de bolos para ajudar as vítimas do fenômeno climático. O objetivo do evento de arrecadação de fundos é modesto: talvez conseguir levantar algumas centenas de euros.

"Todos queremos fazer alguma coisa", disse. "Quando você não faz nada, aí sim é frustrante, e se todos fazem sua parte, aí isso pode se tornar bastante coisa."

*Por David Wallis

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