Reeleito, Obama tem oportunidade de fazer valer sua visão histórica

Novo mandato dá a Obama chance de entregar renovação que ele ainda promete, mas sem uma economia saudável ou parceiros republicanos

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Na primeira vez em que Barack Obama convidou os principais historiadores presidenciais do país para um jantar, eles viram que o tipo de discussão que ele queria seria diferente de suas negociações com os ocupantes anteriores do Salão Oval.

Não havia quase nenhuma conversa sendo jogada fora, porque aquele não era considerado apenas um evento qualquer. Embora Obama conhecesse a história de muitos de seus antecessores, ele não era um fã de história e mostrou pouca curiosidade sobre suas personalidades e quase nenhum interesse nos pais fundadores.

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O presidente dos EUA, Barack Obama, durante evento no Lincoln Memorial, em Washington (18/01/2009)


Seu objetivo, os historiadores perceberam, era mais estratégico. Ele queria aplicar as lições do passado, triunfos e fracassos presidenciais em seu próprio projeto para direcionar o país para um novo caminho.

Durante três encontros anuais particulares em seus primeiros anos de mandato, ele fez perguntas incisivas: Como Ronald Reagan conquistou sua reeleição em 1984, apesar de uma economia ruim? Como o Tea Party se encaixava na tradição de movimentos de protesto americanos? Theodore Roosevelt contornou o Congresso para lançar programas progressivos; será que ele conseguiria fazer o mesmo?

Na terça-feira, Obama escreveu seu mais novo capítulo de sucesso, ao entrar para o clube dos presidentes, que conquistaram um segundo mandato. No entanto, o homem que uma vez imaginou-se no panteão dos presidentes transcendentes entra em seu próximo mandato como um líder muito mais convencional e partidário do que ele pretende ser. Ele derrotou um adversário que cometeu muitos erros e tinha popularidade instável dentro de seu próprio partido em uma eleição na qual ele nunca chegou a explicar suficientemente como pretende cumprir promessas até então não cumpridas.

Agora Obama se depara com o que pode ser o maior desafio de sua carreira política: uma segunda oportunidade de cumprir sua promessa de renovação, mas sem uma economia saudável ou parceiros republicanos dispostos a lhe ajudar.

"Ele tem apenas uma coisa a fazer: conquistar um lugar na história", disse Robert Caro, historiador convidado a um dos jantares.

Em seus jantares juntos, os estudiosos foram capazes de enxergar a urgência e seriedade que Obama trouxe para o seu papel, bem como suas frustrações e prioridades - que muitos não veem. Ele parecia um líder cujo relógio interno nunca se igualou ao do sistema político, que preferiu pensar em termos de anos, ao invés de horas ou dias.

Obama expressou impaciência com a sua "incapacidade de fazer com que as pessoas pensassem a longo prazo", disse H.W Brands da Universidade do Texas, em Austin. "É difícil estabelecer soluções para problemas e soluções que você não poderá presenciar", lembrou de ouvir Obama dizer.

No primeiro jantar, em 2009, ele exalava otimismo, repetindo o seu desejo de exercer uma presidência que iria transformar a nação, e pediu um tutorial sobre como cronometrar uma agenda de primeiro ano – quase como se aprender mais sobre o passado pudesse compensar por sua inexperiência em Washington. Robert Dallek, um dos convidados, pediu o autógrafo de Obama para seus netos. O presidente concordou e escreveu também uma frase de esperança: "Sonhe grandes sonhos!".

Mas já no início do mandato, Obama admitiu que estava tendo problemas para comunicar a sua visão para o país - um problema que se tornaria tema recorrente das reuniões. À medida que eles discutiam como outros ex-presidentes haviam conquistado o apoio do público, Obama, às vezes, olhava para os redatores de seus discursos da Casa Branca que também eram convidados para os jantares com o intuito de que reforçassem tais pontos. Adam Frankel, ex-redator de discursos para Obama, lembrou que, algumas vezes, quando planejava um discurso, ele pedia que ligassem para Doris Kearns Goodwin, uma historiadora mais próxima de Obama, para pedir ajuda.

Um ano mais tarde, quando Obama convidou os estudiosos de volta para a Casa Branca, seu humor estava mais obscuro. Ele estava tendo dificuldades para entender o Tea Party e seu nível de oposição, disse ele, "não era normal" para os padrões históricos. Vários dos estudiosos lhes disseram que os membros do Tea Party eram como os populistas do século 19. "É a política do ressentimento", disse Dallek. O presidente pareceu concordar, Dallek recordou mais tarde, respondendo: "Há algo bastante antiquado sobre o que essas pessoas estão dizendo."

À medida que a popularidade de Obama caiu, os jantares assumiram um tom mutuamente benéfico: o presidente, que disse aos outros que a história iria justificá-lo, estava tentando moldar o que biografias irão dizer sobre ele, e os historiadores que aspiravam a narrar sua história estavam recebendo em primeira mão raro acesso a informações.

Mas eles haviam se tornado tanto conselheiros quanto observadores. Até o jantar de julho de 2011, enquanto ele estava passando por dificuldades com as negociações sobre a crise do teto da dívida privada e planejando atacar os republicanos assim que acabasse, os historiadores estavam sugerindo um novo modelo. "Nós lhe ensinamos tudo sobre Teddy Roosevelt", disse Douglas Brinkley, da Universidade Rice.

Se os historiadores jantarem com o presidente novamente, vários disseram que o tema será óbvio: como Obama poderia diminuir a distância entre suas ambições e seu histórico, especialmente dada a natureza do segundo mandato. "Todo mundo quer ser reeleito, mas quase nenhum segundo mandato acaba bem", disse Brands.

Se o presidente já se fez essa pergunta, seria difícil saber como responder, disseram os historiadores. Não há lições óbvias sobre como Obama pode conseguir apoio público ou do Congresso. A analogia a Theodore Roosevelt não o levará muito longe, disse Edmund Morris, pois ao contrário de Obama, Roosevelt conquistou uma grande vitória popular na reeleição.

Se hoje Caro pudesse dar ao presidente um conselho, disse ele, ele lhe diria que parasse de olhar para o passado e encontrasse seu próprio caminho. O que funcionou em um tempo diferente é improvável que ajude Obama hoje, disse ele, mas "há sempre um jeito de se lutar por algo."

Por Jodi Kantor

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