A questão do novo mandato de Obama: até onde ele irá?

Ao contrário de 2008, poucos eleitores esperam que presidente realmente mude Washington; a maioria só quer que ele faça o país funcionar

NYT |

NYT

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama , terá uma segunda oportunidade. Os eleitores consideram que o país está no caminho errado, mas nesta terça-feira o reelegeram , na esperança de que os próximos quatro anos sejam melhores que os que passaram.

Um presidente cansado, mas triunfante, subiu ao palco em Chicago na madrugada de quarta-feira, diante de uma multidão eufórica, claramente aliviado por ter sobrevivido a um desafio que ameaçou acabar com sua carreira política.

Embora falasse dos Estados Unidos, ele poderia estar falando também de si mesmo quando disse ao público: "Nós resolvemos nos reerguer. Conquistamos nosso espaço novamente. "

Leia também:  Reeleito presidente dos EUA, Obama diz que 'o melhor está por vir'

Saiba mais: Acompanhe todas as notícias sobre a eleição nos EUA

AP
O presidente dos EUA, Barack Obama, comemora vitória em Chicago (07/11)

Obama emerge de uma campanha dura e de quatro anos de intensivo aprendizado sobre a realidade de Washington como um homem muito diferente do que foi eleito em 2008 para governar o país. O que ele enfrenta nessa etapa seguinte de sua jornada não são expectativas de soluções partidárias, raciais e globais, mas sim negociações sobre cortes de gastos e aumentos de impostos, além da ameaça de um confronto com o Irã.

Poucos esperam que ele consega mudar Washington - a maioria dos eleitores parece apenas querer que ele faça a capital funcionar. Sua notável história pessoal e papel pioneiro não passam de um vago pano de fundo para uma campanha que muitas vezes pareceu não ter uma missão que não fosse impedir seu adversário de levar o país em outra direção.

Mais experiente e cheio de cicatrizes, menos propenso à grandiosidade e talvez até menos idealista, Obama retorna para um segundo mandato com um Congresso controlado por um partido de oposição que deverá reivindicar seu próprio mandato. Ele terá que escolher entre conciliação e confronto, ou encontrar uma maneira de transitar entre os dois.

Obama expressou esperança de que "a febre possa ceder" após a eleição e que ambos os partidos possam se unir, uma teoria incentivada por aliados como o senador John Kerry, de Massachusetts. "Já falei com colegas no Senado que durante meses têm dito estar muito ansiosos para ir além do impasse e de toda essa loucura", disse Kerry.

Se isso for excessivamente otimista, segundo os aliados, então a reeleição do presidente o coloca em uma posição mais forte do que no passado.

"Acredito que sua vitória lhe deu bastante vantagens", disse John D. Podesta, que liderou a equipe de transição de Obama há quatro anos. "Ele não pode ser derrubado por veto, portanto poderá criar um certo conjunto de exigências que os republicanos terão de aceitar."

Mas, mesmo à medida que os votos eram contados, os republicanos já deixavam claro que Obama terá de lidar com eles. "Nossos eleitores realmente estão contando com nosso posicionamento", disse o deputado republicano Joe Wilson, da Carolina do Sul.

Era de certa forma inevitável que Obama não conseguisse superar as expectativas de esperança e mudança que assumiu em 2008 sendo o primeiro presidente negro a ser eleito. Herdando uma economia em crise, ele aprovou rapidamente um pacote de estímulo, a reforma da saúde e medidas de regulamentação de Wall Street, e se deparou com outra depressão. Mas não conseguiu mudar a cultura de Washington ou reduzir o desemprego a níveis "saudáveis".

Em 2010, em meio a uma revolta do movimento Tea Party sobre o aumento da dívida nacional e a expansão do governo, seu partido perdeu a maioria no Senado. Ele passou os últimos dois anos tentando manter seu governo forte e preservar suas realizações.

Agora, a luta pela reeleição será substituída por uma luta pela alma política de Obama. Liberais que tiveram que esconder suas dúvidas durante a campanha disseram que irão retomar a pressão sobre o presidente para que lute por seus ideais. Outros democratas e alguns republicanos irão desafiá-lo para que seja mais aberto às opiniões daqueles que votaram contra ele.

"Ele precisa fazer algo dramático para redefinir a atmosfera e demonstrar que quer encontrar soluções bipartidárias", disse David Boren, um ex-senador que agora atua como reitor da Universidade de Oklahoma e co-presidente do Conselho de Inteligência do presidente. Boren sugeriu que Obama nomeie um "gabinete unido", que reúna republicanos e democratas.

Obama tem plena consciência de que o tempo é limitado para o progresso. "Os primeiros 14 meses de mandato são produtivos, os últimos 14 meses são produtivos, mas entre tudo isso existe um período bastante neutro", disse Rahm Emanuel, prefeito de Chicago e chefe de gabinete do primeiro mandato de Obama.

Levando em consideração essa dinâmica, os democratas disseram que Obama deve agir rapidamente para estabelecer o controle do processo político.

"Se você não definir nada para colocar em prática, irá enfraquecer mais rápido", disse Patrick Griffin, que foi a conexão do presidente Bill Clinton com o Congresso e agora é diretor do Centro de Estudos Presidenciais e Congresisstas na Universidade Americana. "Se você não tem credibilidade, se você não consegue estabelecer algum tipo de conquista, você vai ser marginalizado pelo seu próprio partido e pelo outro lado rapidamente."

Mas todas estas questões pareciam muito distantes na noite de terça-feira em Chicago. Depois de todos os debates, anúncios e comícios, chegou o momento para Obama e sua equipe saborearem a vitória.

Houve uma época, até mesmo antes de se tornar presidente, em que Obama se preocupava com a sua ascensão meteórica, dizendo aos seus assessores que não queria ser "como um cometa atravessando o céu", porque "os cometas eventualmente queimam e desaparecem."

Por enquanto, esse cometa continua atravessando o céu.

Por Peter Baker

    Leia tudo sobre: eleição nos euaeuaobamademocratas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG