Um rosto menos entusiasmado, um eleitorado menos esperançoso

Se na campanha de 2008 o democrata oferecia aos eleitores uma chance única de fazer história, em 2012 ele sente o peso de ser presidente

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Ao ver apoiadores sentados na primeira fila em um comício de Barack Obama dá para perceber que nada parece ser muito diferente de quatro anos atrás. A energia que o cercava ainda continua presente. Os democratas ainda acreditam nele e as multidões ainda ficam em pé embaixo de chuva para ouvir seus discursos.

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Mas, em geral, os eventos estão menores e a multidão menos diversificada. Caso continue observando além da primeira fila, perceberá que há menos pessoas com um olhar hipnotizado e mais com um olhar analítico. A campanha de 2008 ofereceu aos eleitores uma oportunidade única para entrar para a história, de fazer parte da memória coletiva da nação. Este ano a repercussão não será a mesma.

Doug Mills/The New York Times
Apoiadores escutam com menos entusiasmo o discurso de Obama em Madison, Wisconsin (5/11/12)


Desta vez, Obama é tanto candidato quanto presidente e com isso carrega em si o peso da instituição e quatro difíceis anos de governo. Ele não é mais aquela encarnação abstrata de noções interligadas de esperança e mudança. Ele é o presidente, com um histórico a defender. Ele não pode mais pedir que as pessoas tenham esperança por mais quatro anos. Agora ele tem que olhar para frente, como dizem seus cartazes de campanha.

Em fotografias de 2008, a campanha de Obama era visivelmente um trabalho em progresso, em constante evolução através de uma longa e amarga temporada de primárias. Os locais de seus discursos eram dos mais diversos, tanto quanto as multidões que os habitavam.

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Em um comício em Carrollton, Texas, Obama caminhava livremente pelo palco, sem se ligar muito ao teleprompter, com microfone na mão, iluminado de um lado por um holofote. Seu passeio ao redor do palco o trouxe a poucos centímetros da minha lente. Na reta final, durante o mês de outubro, seus eventos pareciam-se com shows de rock com ingressos esgotados. Dava para sentir a onda de energia e emoção que tomava conta do país à medida que o dia da eleição se aproximava.

Desta vez, muitos de seus comícios têm uma escala menor e não possuem a mesma sensação dos de 2008. Eles estão mais parecidos com a maioria dos eventos presidenciais. Em um comício em um campo de beisebol em Virgínia o presidente apareceu balançando, literalmente, um bastão de beisebol imaginário. Mas a multidão estava espremida em um canto do estádio para dar a ilusão de densidade. Há quatro anos atrás, ele teria falado no centro do estádio, já que seus apoiadores teriam enchido o local por completo.

Em 2008, eu pude presenciá-lo interagindo mais com as pessoas. Ele não era apenas uma figura solitária, de pé com um microfone ou indo de lugar a lugar. Hoje é bem mais complicado encontrar momentos que possam ser fotografados com o intuito de contar uma história. Cada dia está programado e roteirizado minuto a minuto, e cobri-lo muitas vezes é parecido como estar participando de uma dança coreografada.

Entre comícios, existem alguns momentos “descontraídos” para visitar empresas e restaurantes locais ou para deveres oficiais presidenciais, mas a maioria dos dias são preenchidos com uma série de ações repetitivas. Às vezes parece que estamos apenas realizando estas ações sem pensar, e muitas vezes eu me pergunto se ele se sente da mesma maneira.

Fazer campanha às vezes pode parecer como algo solitário para um homem que está quase sempre rodeado por pessoas. Na Feira Estadual de Iowa, em agosto, Obama fez uma parada para tomar uma cerveja e comer costelas de porco e se encontrou sozinho com um prato de comida na frente de uma multidão de repórteres, fotógrafos e frequentadores da feira, mas sem utensílios para que ele pudesse realmente comer sua comida. Ele não chamou muito a atenção de seus observadores.

Nos bastidores de um evento de outubro em Cleveland, após agitação dezenas de mãos, ele ficou sozinho na frente do cenário imediato da campanha presidencial, à espera de instruções sobre a sua obrigação ao lado e uma dose de desinfetante para as mãos.

Em uma parada na cidade de Colorado em agosto, Obama se sentou na beira de um tatame de luta e calçou seus sapatos depois de reunião com alguns candidatos Olímpicos. Foi um momento breve e raro, um lembrete de que o presidente dos Estados Unidos ainda se senta no chão quando ele coloca seus próprios sapatos, um pé de cada vez, assim como todos nós. Porém este momento não durou muito e tivemos que ir embora rapidamente.

Em 2012, Obama parece um pouco mais magro e seu cabelo um pouco mais grisalho. Em um evento em Miami, falando diante de uma grande bandeira dos Estados Unidos, ele finalmente colocou seu braço sobre o palanque, mudou o peso de seu corpo e, durante um breve instante, permitiu que seu cansaço ficasse aparente e fosse captado por minha lente.

Em Nova Hampshire, em um ginásio de uma escola, ele fechou seus olhos e se perdeu durante uma breve fração de um segundo, à medida que ele utilizava um lenço para enxugar o suor da testa no meio de seu discurso de campanha.

Enquanto eu estava viajando pelo Alabama e Carolina do Sul, em 2008, vários apoiadores de Obama afro-americanos me disseram que não iriam votar nele. Naquele momento eu não entendi o porque. Muitos desses eleitores, que tinham experimentado em primeira mão o movimento dos direitos civis, explicaram que não conseguiriam viver com a possibilidade de presenciar o assassinato do primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos.

Foi uma prova chocante e fascinante para aquele momento único no tempo e um lembrete de como as coisas hoje são diferentes. Hoje em dia, as preocupações dos eleitores são diferentes: impostos, saúde e, claro, a economia. Na campanha deste ano, eu fui lembrado algumas vezes de que você só consegue eleger o primeiro presidente afro-americano uma vez em sua vida.

por Damon Winter

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