Na presidência, Obama faz complexo cálculo entre raça e política

Desde que assumiu o poder, líder tenta equilibrar crença em política universal que não se baseia em questões raciais e os desafios de ser o primeiro presidente negro dos EUA

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Quando o presidente Barack Obama fala com negros que venceram obstáculos, ele quase sempre usa a mesma frase.

"Eu não estaria aqui se não fosse por você", disse a Ruby Bridges Hall, a primeira criança negra a frequentar uma escola primária no sul. O presidente repetiu a mensagem a um grupo de Tuskegee Airmen, os primeiros aviadores negros no Exército dos Estados Unidos, aos trabalhadores do saneamento de Memphis, que Martin Luther King Jr. incluiu em seu último discurso, e outros que vieram prestar homenagem a Obama mas acabaram sendo homenageados por ele.

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A frase é graciosa, apesar de breve. Obama raramente fala sobre raça com qualquer pessoa. Em entrevistas feitas pelo NYT com dezenas de conselheiros, amigos, doadores e aliados negros, poucos disseram já ter ouvido Obama falar sobre a experiência de ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos.

Mas sua aparente tranquilidade esconde as ansiedades e emoções que os assessores disseram acompanhar sua posição: orgulho do que conquistou, determinação para estar sempre se superando e intensa frustração. Obama é o equilíbrio entre dois mundos diferentes: o de acreditar em políticas universais sem se basear na raça e de viver um "estilo de vida negro" e todos os desafios que o acompanham.

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O presdidente dos EUA, Barack Obama, cumprimenta partidários em evento de campanha em Iowa (17/10)

Sempre atento para não atrair questionamentos sobre assuntos raciais, o presidente é cauteloso com o assunto. Amigos mais íntimos de Obama disseram que ele fica muito irritado quando é mal interpretado - não apenas quando adversários insinuam que ele dá mais atenção às necessidades dos negros, mas também com os legisladores e intelectuais negros que o culpam por não fazer de sua presidência uma ferramenta mais agressiva contra a disparidade racial.

"Infelizmente, parece que o presidente se sente preso por sua raça", escreveu o apresentador de rádio e de televisão Tavis Smiley. "Às vezes é doloroso presenciar como o presidente trata seu eleitorado mais fiel", continuou, acrescentando que os negros "poderiam ter conquistado muito mais coisas durante o governo Obama".

Esse tipo de crítica faz com que o presidente se sinta ressentido e traído, segundo assessores, por aqueles que acredita que deveriam ser seus aliados. As acusações são "um ataque a seu ser", disse David Axelrod, seu estrategista-chefe – sem mencionar o fato de que o número de eleitores negros que expressam lealdade ao presidente, mas também uma certa descrença, poderiam influenciar o resultado das eleições em novembro .

Mas, assim como um ator que interpreta um personagem na Broadway, Obama vem interpretando um papel que ninguém interpretou antes dele, e observadores próximos disseram que conseguem presenciar cada vez mais a melhoria na maneira como ele se posiciona sobre a questão racial em público. Em 2009, a declaração do presidente sobre a detenção de um professor negro da Universidade de Harvard por um policial branco foi motivo para dias de manchetes negativas a respeito do ocorrido. Em 2012, ele lamentou sutilmente , porém com confiança, o assassinato de um adolescente negro, Trayvon Martin, por um homem branco.

"À medida que ele se tornava mais confortável com o fato de ser o presidente, ficava mais seguro sendo ele mesmo", disse Brian Mathis, um arrecadador de fundos para Obama.

Tentando evitar estereótipos

Na Casa Branca, Obama tem adotado uma estratégia antiga para lidar com a questão de raça e política - e que vem aperfeiçoando ao longo de sua carreira.

Em 1995, ex-colegas da Universidade de Chicago lembram de vê-lo falar a respeito de querer se afastar da velha política de se queixar de sua raça e de focar em interesses econômicos comuns para fazer diversas coligações.

"Ele argumentou que, se os discursos e ações políticas fossem adaptados exclusivamente para plateias compostas por brancos, as minorias não iriam prestar atenção, assim como os brancos não iriam se interessar por um discurso ou ações políticas apenas direcionadas para públicos minoritários raciais", lembrou William Julius Wilson, hoje um sociólogo da Universidade de Harvard.

Divulgação / Casa Branca
Michelle e Barack Obama posam com as filhas Malia (de azul) e Sasha na Casa Branca (11/12/2011)

Obama governa uma Casa Branca que constantemente visa a unidade inter-racial. Ao discutir em entrevistas qual a imagem que os Obamas querem passar, os assessores costumam utilizar uma palavra : "inclusiva". Embora os trabalhadores de saneamento em Memphis tenham estado envolvidos em um momento devastador da luta pelos direitos civis - King foi assassinado depois de passar a apoiar a greve -, eles foram convidados para a Casa Branca para um evento relacionado a questões trabalhistas e não raciais.

Muitas das decisões mais críticas relacionadas à política interna favoreceram de maneira desproporcional os negros: dinheiro de estímulo que manteve trabalhadores do setor público empregados, subsídios de educação para ajudar escolas e uma reforma da saúde que irá cobrir dezenas de milhões de americanos sem seguro. Mas ele enxerga estas iniciativas como políticas destinadas a ajudar americanos de todas origens.

"Se você realmente quer fazer algo que faça a diferença, você não pode fazê-lo de uma maneira que não dê certo antes mesmo de ser feito", disse Obama em uma reunião, de acordo com o reverendo Al Sharpton. "Temos que lidar com os problemas específicos de diferentes grupos – negros, mulheres, homossexuais, imigrantes - de uma maneira que seja a mais abrangente possível", lembrou Sharpton.

Debra Lee, presidente e executiva-chefe da rede de televisão Black Entertainment, solicitou entrevistas com o casal Obama em 2009, mas assessores de imprensa disseram que não queriam que o casal fizesse uma aparição na BET nos primeiros seis meses de seu governo, disse ela. (Eles eventualmente compareceram ao canal para uma entrevista.)

"Foi necessário ter todo esse cuidado e preocupação porque estávamos no meio de uma grande experiência americana", disse um ex-assessor. Outro lembrou ter ficado um pouco aflito sobre a obra de arte que a família Obama escolheu para decorar seus aposentos privados na Casa Branca, incluindo alguns com mensagens raciais.

Em privado, assessores da Casa Branca frequentemente discutem a dinâmica racial da presidência, questionando se o deputado Joe Wilson, da Carolina do Sul, teria gritado "Você é mentiroso!" durante o discurso de um presidente branco para o Congresso ou o que o cartaz do movimento Tea Party que dizia "Vamos reconquistar nosso país" realmente significava. Michelle Obama , muitas vezes chamada de "cola" na relação de seu marido com seus eleitores negros, às vezes comenta publicamente ou em privado sobre as pressões de ser a primeira dama negra da história da nação.

Seu marido é mais prudente, especialmente sobre a questão de que um pouco de sua oposição é movida pela questão da raça. Assessores disseram que o presidente está ciente de que alguns eleitores disseram que nunca irão se sentir confortável com ele, assim como está ciente das ocasionais mensagens de racismo na campanha eleitoral, como as camisetas que diziam "Vamos colocar a cor branca de volta na Casa Branca" vistas em um recente comício de Mitt Romney . Mas eles também disseram que ele é disciplinado o suficiente para não reagir, pois isso poderia facilmente ser deturpado.

"O presidente sabe que algumas pessoas podem escolher permanecer divididas por diferenças - de gênero, raça ou religião -, mas seu foco está em unir as pessoas", escreveu Valerie Jarrett, consultora sênior, em um e-mail.

Mesmo quando Newt Gingrich o chamou de "presidente do vale-refeição", durante as primárias republicanas, o presidente apenas reagiu com um olhar significativo - "ele apenas deu um olhar e um sorriso e sua mensagem já estava subentendida”, disse um conselheiro de sua campanha.

Para os negros que o acusam de não ser agressivo em relação a questão racial, Obama tem uma resposta: "Não sou o presidente dos Estados Unidos dos negros", disse ele. "Sou o presidente dos Estados Unidos da América."

Essa declaração "me faz querer vomitar", disse Cornel West, ativista e professor da União do Seminário Teológico, em uma entrevista. "Você por acaso disse isso para a AIPAC?", referindo-se a um grupo de lobby pró-Israel.

Os membros do Comitê Afro-americano no Congresso, com quem o presidente tem uma relação controversa, ecoaram as acusações de que Obama não dá atenção suficiente para os negros, ameaçando até mesmo às vezes de atrapalhar sua agenda.

Mesmo alguns dos partidários negros de Obama expressam a mesma ansiedade, porém de uma maneira mais sutil. Na primeira reunião com seus principais doadores de campanha no ano passado, alguns negros ficaram decepcionados quando oficiais distribuíram cartões que ressaltavam as realizações do governo para vários grupos - mulheres, judeus e homossexuais - e não havia nada mencionando os negros .

A acusação de que Obama não se importa com os problemas dos negros parece ter pouca influência na opinião do público, mas mesmo assim é algo que incomoda o presidente, disseram assessores, amigos e simpatizantes.

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Depois de um discurso de 2010, na Liga Nacional Urbana, ele foi falar com West. "Ele veio falar comigo com uma postura agressiva", disse West. "Você anda dizendo que não sou um progressista?", perguntou o presidente, segundo West.

Mellody Hobson, uma arrecadadora de fundos para Obama, explicou o motivo de a acusação lhe incomodar.

"Você espera que sua família acredite em você ", disse ela.

Tentando mudar estereótipos

Pouco antes de sua posse em 2009, Obama levou sua família para visitar o Lincoln Memorial. "Ser o primeiro presidente negro vem com uma grande responsabilidade ", disse Malia Obama a seu pai, que contou essa história mais tarde, num raro reconhecimento de que a questão racial que faz parte de sua presidência.

Apesar de todas as medidas cautelosas adotadas por Obama, ele possui uma missão: a de mudar os estereótipos dos negros, disseram assessores e amigos. Há seis anos, ele contou para sua esposa e uma sala cheia de assessores que queria concorrer à presidência para mudar a percepção das crianças sobre o que era possível. Ele tinha outras ambições, é claro, mas também estava embarcando em um experimento no qual os Obama iriam estar na linha de frente para poder ajudar a apagar séculos de pontos de vista negativos relacionados aos negros.

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O presidente dos EUA, Barack Obama, e Ruby Bridges, primeira criança negra a frequentar escola primária no sul, veem quadro na Casa Branca na qual ela aparece (arquivo)

Embora Obama resista ao conceito de ser o presidente dos Estados Unidos dos negros, ele sem dúvida quer mudar a percepção sobre os negros, disseram assessores - para acabar com antigas crenças relacionadas a o que eles podem e não podem fazer. O presidente, que nomeou Lisa P. Jackson e Charles F. Bolden Jr. como os chefes da Agência de Proteção Ambiental e da NASA, quer incentivar a conquista dos negros em campos relacionados à ciência e engenharia, até mesmo pedindo para que reverendos negros preguem em suas respectivas congregações sobre a necessidade de estudar esses assuntos.

Obama está ciente de que o próximo candidato presidencial negro poderá ser comparado a seu próprio desempenho, acrescentou Charles J. Ogletree, professor de Direito de Harvard. E o desejo de Obama de conquistar a reeleição, em parte pelo fato de ele ser o primeiro presidente negro, está “claro, porém implícito", disse um conselheiro da Casa Branca.

Em raras ocasiões, Obama permite que outras pessoas tenham um vislumbre da história, expectativas e esperança que carrega com ele. No funeral da líder de direitos civis Dorothy Height, em 2010, ele chorou abertamente. Pessoas próximas a ele disseram que Obama às vezes fica emocionado com a maneira com que outros negros que superaram obstáculos de raça se comportaram.

Quando Ruby Bridges Hall apareceu para ver o famoso retrato que Norman Rockwell fez dela na escola, e que Obama havia pendurado do lado de fora do Salão Oval, o presidente se abriu um pouco. O retrato mostra Ruby com 6 anos de idade, em um vestido branco, andando calmamente para dentro da escola, e, ao mesmo tempo, um tomate e um insulto racial escrito na parede atrás dela.

O presidente perguntou a Ruby, que hoje tem 58 anos, como ela conseguiu ser tão corajosa tão nova, e disse que às vezes presencia suas filhas olhando para o retrato.

"Realmente acho que elas se veem em você", disse ele, de acordo com Ruby.

"Fazer o trabalho que fazemos pode ser algo bastante solitário", disse ela. "Senti que ele me entendeu porque, de certa maneira, pertencemos ao mesmo clube."

Por Jodi Kantor

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