Uma análise das declarações de Obama e Romney sobre política externa

Veja quais afirmações feitas pelos candidatos no terceiro e último debate presidencial são corretas, incorretas, exageradas ou incompletas

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Quem diria que a checagem dos fatos apresentados no único debate sobre política externa desta campanha eleitoral americana incluiria o ranking das escolas do Estado de Massachusetts e a melhor maneira de administrar o Medicaid? Repetidamente, os dois candidatos optaram por desviar seu foco para as questões econômicas que têm dominado grande parte da campanha.

Até mesmo a disputa sobre o ataque ao Consulado dos Estados Unidos em Benghazi , na Líbia, que esperava-se ser um tema central do debate sobre política externa, recebeu menos atenção do que a disputa sobre que tipo de falência Mitt Romney havia proposto para a indústria automobilística em épocas de dificuldades.

Leia também: Obama deixa Romney na defensiva em debate sobre política externa

AP
O democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney no terceiro e último debate da eleição presidencial americana (22/10)

Primeiro debate: Obama e Romney travam batalha sobre economia em debate

Segundo debate: Obama e Romney protagonizam debate agressivo nos EUA

Mas quando Bob Schieffer, o moderador do debate, levou os candidatos de volta para o tema de política externa, eles ofereceram visões de mundo completamente diferentes. O presidente Barack Obama descreveu um país realista e engajado, com aliados dispostos a acabar com a Al-Qaeda. Romney, que falou várias vezes de "paz" como seu objetivo, descreveu um mundo muito mais assustador, no qual o Irã está quatro anos mais perto de finalizar a construção de uma arma nuclear.

Em muitos casos, as revindicações contrastantes eram apenas uma questão de perspectiva, e em várias ocasiões Romney disse explicitamente que concordava com o presidente. Mas ambos também fizeram declarações incorretas, exageradas ou que contradiziam declarações anteriores.

Aqui estão alguns destaques:

Irã

A declaração de Romney de que quer utilizar "meios pacíficos e diplomáticos" para persuadir o Irã a não prosseguir com seu programa nuclear foi uma mudança marcante do tom mais agressivo que usou durante toda a campanha.

No ano passado, em um artigo no Wall Street Journal, ele pediu que fossem feitos preparativos para uma guerra contra o Irã. "Si vis pacem, para bellum", escreveu ele. "Essa é uma frase em latim, mas os aiatolás não terão problemas em entender seu significado vindo do governo de Romney: 'Se você quer paz, prepare-se para a guerra.'"

Romney também disse que seriam necessárias mais ações contra o Irã em um discurso no dia 8 de outubro no Instituto Militar da Virgínia. "Para o bem da paz, é preciso deixar claro para o Irã por meio de ações - e não apenas palavras - que sua busca nuclear não será tolerada", disse.

Romney tem desconsiderado as tentativas de Obama de usar a diplomacia para persuadir o Irã a abandonar seu programa de armas. "Em sua primeira entrevista à televisão como presidente, ele disse que deveríamos conversar com o Irã", disse Romney em seu discurso na Convenção Nacional Republicana no final de agosto. "Nós ainda estamos conversando, e as centrífugas do Irã continuam funcionando."

No ano passado, quando questionado em uma entrevista qual o tipo de ação militar que consideraria contra o Irã, Romney respondeu, "preciso de mais informações para saber que tipo de ataque militar seria adequado e eficaz."

"Você estaria preparado para fazê-lo unilateralmente se for necessário?", perguntou Bret Baier, da Fox News. "É claro", disse Romney.

Tropas no Iraque

Obama sugeriu que Romney estava errado em tentar manter 10 mil soldados americanos no Iraque. Mas seu governo inicialmente procurou fazer exatamente isso.

Obama procurou negociar um acordo que teria permitido que os soldados americanos permanecessem no Iraque depois de 2011. Inicialmente, o governo estava preparado para manter até 10 mil soldados no Iraque. Mais tarde, diminuiu o número para cerca de 5 mil.

O primeiro-ministro Nouri al-Maliki, indicou que poderia estar disposto em manter os soldados lá. Mas os iraquianos não concordaram com a demanda feita pelos Estados Unidos de que um acordo desse tipo fosse submetido ao seu Parlamento para aprovação, um procedimento no qual o governo de Obama insistiu, para garantir que quaisquer soldados americanos que permanecessem seriam imunes a processos sob a lei iraquiana.

Obama contou com a ajuda do vice-presidente, Joe Biden, assim como de autoridades americanas no Iraque para negociar o acordo. O presidente falou com Al-Maliki apenas duas vezes durante as negociações. Além disso, o governo não iniciou conversações formais com os iraquianos até o dia 2 de junho de 2011, deixando pouco tempo para que a negociação ocorresse.

Após negociações, o governo de Obama retirou as tropas restantes dos Estados Unidos em dezembro de 2011, prazo estabelecido sob o Acordo sobre o Estatuto das Forças.

O Irã se aproveitou da ausência de soldados americanos para transportar centenas de toneladas de equipamento militar através de espaço aéreo iraquiano para a Síria.

Primavera Árabe

Obama falou sobre o papel que os Estados Unidos têm desempenhado durante os levantes da Primavera Árabe , dizendo: "Estamos do lado da democracia." Mas isso não é completamente verdade.

Basta considerar o Bahrein, onde milhares de pessoas protestaram há mais de um ano para exigir liberdades políticas, igualdade social e o fim da corrupção. Sua monarquia sunita, vista pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita como um aliado estratégico e um baluarte contra o Irã, nunca foi deixada sozinha para lidar com a questão por conta própria.

Mais de mil soldados sauditas ajudaram a acabar com a revolta, e os Estados Unidos apelaram para a reforma política, mas reforçaram seu apoio ao governo.

Retirada do Afeganistão

Será que Romney mudou sua opinião sobre a retirada do Afeganistão? Cerca de uma hora antes do debate, ele parecia reajustar sua posição de longa data.

No passado, ele disse que, embora quisesse seguir o cronograma de retirada dos soldados em 2014 , como o governo Obama e os aliados da OTAN haviam concordado, ele iria procurar o conselho dos comandantes militares baseados no país antes de tomar uma decisão. Isso fez com que críticos sugerissem que Romney estava dando a si mesmo espaço de manobra para manter brigadas de combate regulares no Afeganistão depois de 2014. Tanto o governo de Obama quanto a campanha de Romney tem falado sobre como manter uma pequena força residual, presumivelmente de soldados de operações especiais e formadores militares, depois de 2014 - se o governo do Afeganistão permitir.

Mas, antes do debate, Romney parecia traçar uma linha muito clara de que ele tiraria todos os soldados regulares do Afeganistão até 2014 - sem a ressalva de primeiro perguntar aos comandantes militares se acreditavam que era uma boa ideia.

Em resposta a uma pergunta sobre se ele iria retirar os soldados mesmo que fosse óbvio que os afegãos não eram capazes de lidar com sua própria segurança, Romney disse: "Nosso objetivo é que a retirada seja concluída até 2014, e quando eu for presidente, vamos nos assegurar de que iremos retirar nossos soldados até o final de 2014. "

Ele nem sequer mencionou a possibilidade de primeiro ter um posicionamento dos comandantes militares, como o fez no passado. "Vamos ser capazes de fazer essa transição até o final de 2014, e nossos soldados voltarão para casa", disse Romney.

'Tour' para pedir desculpas

Obama respondeu à afirmação de Romney de que ele havia realizado um "tour para pedir desculpas", como sendo "provavelmente a maior mentira que foi contada durante todo o curso da campanha".

Verificadores de fatos têm repetidamente dito que a afirmação de Romney é imprecisa. Obama admitiu erro por parte dos Estados Unidos às vezes - e, como o presidente George W. Bush (2001-2009), pediu desculpas por atos específicos relacionados à postura do país no exterior - mas ele nunca explicitamente pediu desculpas pelos valores ou princípios americanos.

Republicanos costumam se referir ao discurso de Obama em 2009 na França, em que ele disse que "houve momentos em que os Estados Unidos mostraram arrogância e desprezo". Mas os críticos geralmente ignoram o que Obama disse em seguida: "Mas na Europa, há um antiamericanismo que é ao mesmo tempo casual, mas também pode ser traiçoeiro. Ao invés de reconhecer o bem que os Estados Unidos faz no mundo, houve épocas que os europeus optaram por culpar os Estados Unidos por muita coisa ruim que acontecia. "

Em outras palavras, Obama estava dizendo que os Estados Unidos e a Europa, por vezes, se trataram injustamente - ele nunca disse que estava arrependido dos valores americanos ou de sua diplomacia.

China e pneus baratos

Obama disse que a China estava inundando os Estados Unidos com pneus baratos e que ele colocou um fim a isso e salvou empregos. Na verdade, muitos economistas criticam esta ação do governo.

Em 2009, o governo de Obama impôs unilateralmente um imposto sobre as importações de pneus chineses - um movimento incentivado pelo Sindicato dos Metalúrgicos. Foi uma das nove ações comerciais tomadas pelos Estados Unidos contra a China no governo de Obama e, segundo economistas, a mais questionável. A tarifa protegeu no máximo 1,2 mil empregos nos Estados Unidos, de acordo com um estudo do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Mas o mesmo estudo constatou que a tarifa custou aos consumidores US$ 1,1 bilhão só no ano passado em pneus mais caros - ou cerca de US$ 900 mil dólares por trabalho. Além disso, a China reagiu ao impor tarifas sobre as importações de partes de frango que os produtores de aves dos Estados Unidos estimaram terem sofrido cerca de US $ 1 bilhão em vendas perdidas. No mês passado, o governo de Obama deixou a tarifa sobre pneus expirar.

Por Michael Cooper, Michael R. Gordon, Richard A. Oppel Jr, Sharon LaFraniere e Scott Shane

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