Região turística da Guatemala reforça combate à corrupção

Famosa por vulcão, cidade de Antigua tem prefeito e outras autoridades presas em batalha contra má conduta política

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Recentemente, um vulcão localizado na Guatemala sacudiu os turistas que visitavam a cidade de Antigua e os surpreendeu com sua nuvem de cinzas. 

No entanto, o que eles não viram acontecer foi um evento que ocorreu nesse mesmo dia no mês passado: na prefeitura, a polícia estava prendendo o prefeito e outras pessoas em um caso relacionado à corrupção, que muitos veem como um passo importante para atacar o tipo de má conduta política que vem atormentando a Guatemala há muito tempo.

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Vulcão em Antigua, na Guatemala (29/09)

Este país ainda está se recuperando de uma guerra civil que durou 36 anos e terminou em 1996. É um dos países mais violentos deste hemisfério. Também é um dos mais pobres, e a corrupção afeta todos os níveis de poder. Um ex-presidente está aguardando a extradição para os Estados Unidos devido a uma acusação de lavagem de dinheiro e outros encargos.

Mas nesta cidade localizada nas alturas, de arquitetura colonial, bons restaurantes, escolas de idiomas e luxuosos cafés, os moradores parecem estar alheios aos problemas do país.

"Estamos cientes de que estamos vivendo em uma bolha", disse Elizabeth Bell, uma historiadora local e guia turística que se mudou dos Estados Unidos para a Guatemala há quatro décadas, e tem ajudado no movimento para preservar o charme colonial que fez da cidade um destino de sucesso. 

Mas atrás de todo esse charme aconteciam coisas não tão prazerosas.O prefeito, Adolfo Vivar Marroquin, assim como seu cunhado, o diretor de finanças da cidade, foram presos junto a outras oito pessoas sob as acusações de fraude, lavagem de dinheiro e abuso de autoridade.

Vivar foi acusado de roubar milhões de dólares em fundos públicos - através de contratos supervalorizados, empregos falsos, nepotismo, manobras contábeis - e as acusações foram graves o suficiente para que uma equipe especial da ONU, que está no país desde 2007 para combater a impunidade e o crime organizado, assumisse o caso.

A procuradora-geral, Claudia Paz y Paz, disse que o caso era mais um passo em direção a fazer com que as autoridades públicas - políticos, polícia, militares - fossem responsáveis por seus atos de maneiras que nunca haviam sido antes.

Poucos acreditam que o caso irá sujar a imagem da cidade para os turistas. Em um fim de semana recente, as ruas estavam cheias de pessoas conversando em inglês, italiano, alemão e francês, passeando pelas ruínas espanholas dos séculos 17 e 18. Caminhavam tranquilamente sem saber do ocorrido na prefeitura, cujo prédio é considerado uma joia arquitetônica; caminhavam por feiras de artesanato indígena; comiam chocolates feitos localmente, e tiravam fotos.

Mas entre os moradores de Antigua, o caso fez com que reconsiderassem certos conceitos.

Alguns enxergam o caso como uma evolução natural das instituições quase 16 anos depois dos acordos de paz terem colocado fim a uma guerra entre os governos de direita e guerrilheiros esquerdistas que uma comissão da ONU disse ter deixado 200 mil mortos.

Na verdade, a corrupção é tão enraizada na cultura da Guatemala, que poucos questionam certas atividades irregulares. Mas os líderes cívicos ficaram cada vez mais incomodados com o prefeito.

Vivar cresceu em uma das aldeias pobres que cercam a cidade e que lhe fornece sua força de trabalho. Ele se tornou um médico e, como prefeito eleito duas vezes, parecia ter um espírito prático que conseguia o que queria mesmo através de toda burocracia e incômodos políticos.

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Os líderes cívicos a princípio o admiravam por ter criado parques e por ter respondido às necessidades das aldeias mais pobres. Mas, no ano passado, as perguntas começaram a aparecer.

Por que as ruas de paralelepípedos não estavam sendo reformadas apesar de o dinheiro que havia sido aprovado para que fossem? Como é que esse novo projeto para a construção de um condomínio há poucos quilômetros do centro conseguiu obter licenças sem o exigido estudo ambiental? Por que será que a prefeitura instalou camêras de segurança baratas ao redor da cidade a medida que o roubo e o crime aumentaram quando na verdade haviam prometido a instalação de um sistema de alta tecnologia?

Enquanto isso, a riqueza pessoal de Vivar parecia aumentar substancialmente.

Repórteres locais começaram a fazer perguntas e escrever artigos a respeito do prefeito. O Ministério Público iniciou uma investigação, tirando a imunidade de Vivar, que muitas vezes protege os líderes eleitos.

O prefeito, que permanece preso, não foi encontrado para que pudesse comentar para este artigo. Mas um membro do conselho adjunto, José Antonio Palomo, um amigo próximo, disse que ele duvidou das acusações, e se perguntou se os promotores estavam aproveitando o caso para atrair manchetes internacionais. "Naturalmente, é muito mais notório o fato dele ser o prefeito de Antígua, pois isso ressoa mais no nível internacional", disse Palomo.

Mas a visão que prevalece é que Antigua, e de fato todo país, estarão melhor quando tudo for resolvido.

Por Randal C. Archibold

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