Campo de futebol oferece refúgio para vítimas de violência no México

Copa do Mundo dos Sem-tetos, na capital mexicana, atrai jovens cujas vidas foram afetadas pelos cartéis de drogas do país

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Quando Ana Aguirre pisou no campo de futebol localizado na praça principal da Cidade do México vestindo seu uniforme verde e marcou gols contra equipes de países como Brasil e Estados Unidos, sua vida em Cidade Juárez parecia não existir.

Não existiam pais desempregados, viciados em drogas, amigos mortos e jovens homens armados. Havia apenas um ruído de comemoração: fãs, comentaristas, música e o barulho da bola sendo chutada ou de seus companheiros gritando. "Se estivesse em casa de novo, estaria bebendo em algum lugar", disse Aguirre, 23. "Estaria muito mais exposta a coisas ruins."

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Equipe do México marca contra a do Quirguistão durante campeonato entre moradores de rua na Cidade do México (11/10)

No campo pelo menos, era apenas futebol. Esse é o objetivo do torneio de uma semana conhecido como a Copa do Mundo dos Sem-teto, que reúne times de dezenas de países para competirem, com cada atleta sendo selecionado tanto de acordo com seu talento quanto de sua necessidade para o time.

Muitos, se não a maioria, dos envolvidos realmente eram pessoas sem-teto. E, em seu 10º ano, o evento parecia principalmente à vontade com seu espetáculo de marketing de massa - patrocinadores, outdoors e distribuição de brindes - sobre os jogadores que fumavam cigarros após cada jogo.

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Organizadores fizeram questão de ressaltar este tema e por isso, dos 16 jogadores das equipes masculinas e femininas, quase metade eram da Cidade Juárez, a cidade fronteiriça, onde mais de 10 mil pessoas foram mortas desde 2006. Muitos dos outros são como Alvaro Antonio, 22, um atacante que mora em uma cidade perto da fronteira com a Guatemala, que disse que seis dos seus amigos tinham sido mortos recentemente.

"São pessoas que vivem em um lugar onde acontecem tiroteios o tempo inteiro, são pessoas que perderam seus irmãos", disse Heriberto Espejel, 36, o treinador da equipe feminina. "Estes são mexicanos que foram afetados por tudo isso."

Os jovens foram escolhidos por meio de uma série de eliminatórias e entrevistas ao longo do ano passado. Não surpreendentemente, em um país que ama tanto o futebol e frequentemente sente a perda de seus mortos para a guerra contra as drogas, mais de 15 mil pessoas se inscreveram.

Os selecionados chegaram à Cidade do México há cerca de um mês. Durante as três primeiras semanas, os jogadores viveram juntos perto do Centro Olímpico do México. Além de praticar e participar de jogos amistosos, eles tiveram sessões de terapia de grupo, onde contaram suas histórias trágicas e estratégias de sobrevivência.

Aguirre disse que se sentiu bem melhor do que esperava. "Há um monte de gente aqui com os mesmos tipos de histórias", disse ela.

Futebol sempre foi uma fuga. Ela sempre jogou para evitar más influências. Agora, com os pais desempregados, ela apita jogos para ganhar dinheiro.

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Espejel, seu treinador, disse que ficou impressionado com sua concentração e sua felicidade, que ele descreveu como sendo um sinal de força.

De fato, no campo na semana passada como capitã da equipe, ela era uma líder rápida, sábia, natural e generosa. Em um jogo contra a Holanda, ela passou mais tempo passando a bola do que chutando a gol, embora também tenha marcado dois – e comemorado apontando seus dois polegares para o nome em sua camisa e mostrando a língua com orgulho.

No dia seguinte, a medida que Aguirre se aproximava do goleiro chileno, ela torceu o joelho e caiu dando gritos de agonia. O replay instantâneo mostrou que ela tinha pisado em falso no gramado. O torneio havia acabado para ela.

Seus companheiros de equipe aplaudiram sua saída do campo, assim como a multidão. E as mulheres mexicanas acabaram vencendo o torneio, vencendo o Brasil, por 6 a 2, na final de domingo.

Mas Aguirre, entristecida, teve que assistir tudo isso do lado de fora do campo. E eventualmente, ela teve que voltar para sua violenta cidade. Os participantes são permitidos a ter apenas uma participação na Copa do Mundo dos Sem-Teto, para que mais pessoas possam desfrutar da experiência.

A vitória de sua equipe logo desapareceu a medida que os participantes voltavam para suas respectivas casas. O momento em que o mundo parecia tão simples quanto fazer um gol havia acabado, e nem os aplausos finais, nem as novas amizades conseguiam esconder a tristeza acompanhava Aguirre conforme ela mancava de volta para o hotel por mais alguns momentos finais de paz.

Por Damien Cave

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