Americanos ricos exigem que babás tenham smartphone e falem mandarim

Após declínio motivado por crise, mercado ganha novo fôlego e demanda alta qualificação, acirrando a concorrência por vagas

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Delores Bethelmie parecia perfeita para trabalhar como babá para os ricos. Imigrante legal, ela estava disposta a viver em qualquer lugar em Nova York e não se importava em agregar a limpeza da casa em sua lista de tarefas. Ela se expressava muito bem em e-mails, possuía um certificado de enfermeira de bebês, tinha cartas de referência de seus antigos empregadores e havia cursado uma faculdade durante dois anos em Trinidade antes de ir para os Estados Unidos. Ela também era muito boa na cozinha - sua especialidade culinária era pelau, um prato picante do oeste indiano feito de frango, feijão e leite de coco.

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Infelizmente, a medida que a entrevista dela na Agência Pavillion se estendia, cada vez mais questões problemáticas surgiam. Por um lado, Bethelmie não possuía um smartphone. Ela também não tinha carteira de motorista. E ela só falava uma língua: inglês. Não falava mandarin, que atualmente é algo que muitos empregadores buscam em um candidato.

"Hmm, eu também vejo em seu currículo que você não sabe nadar", disse Jennifer Mallano, especialista da agência, enquanto franzia a testa um pouco ao ler o formulário que acompanhava seu currículo. "Bem, há algumas posições para as quais simplesmente não poderei considerá-la. Quando as famílias vão para os Hamptons, a natação é algo que eles normalmente solicitam que nossos aplicantes tenham. "

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Papéis em agência de recrutamento em Nova York (02/10)

Depois de um declínio acentuado por causa da crise financeira, o mercado do trabalho doméstico - nicho da indústria de elite que contrata babás, motoristas, mordomos, chefs e assistentes pessoais em nome de clientes ricos - está crescendo mais uma vez, desta vez em um mercado que favorece fortemente os empregadores. Na Agência Pavillion no centro de Manhattan, recentemente, cerca de 12 candidatos estavam aguardando no saguão, escrevendo em pranchetas, fazendo últimas preparações à espera de serem entrevistados para uma vaga.

Em uma era de pouco luxo para as massas, uma equipe doméstica que trabalha período integral é um símbolo de status, uma forma tangível de separar o rico do pobre. Proprietários de empresas de recursos humanos lembraram que muitos membros desta classe superior, de repente, descobriram no outono de 2008 que algo chamado Economia existia e que eventualmente ela poderia influenciar suas vidas.

Esta descoberta, de acordo com os proprietários das agências, despertou em seus clientes um desejo de controlar seus custos com empregados, ou até mesmo os próprios empregados. Ela também criou um desconforto social de parecer muito privilegiado em um momento que a nação está passando por dificuldades.

"As pessoas ficaram um pouco constrangidas", disse David Crimmins, gerente do Grupo Lindquist, outra agência de recursos humanos, em Manhattan. "Mesmo que tivessem dinheiro para gastar, elas sentiram que tinham que se segurar um pouco pois não era bem visto ter três ou quatro pessoas trabalhando em sua casa."

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Os candidatos claramente sentiram os efeitos desta ansiedade. A Agência Pavillion, por exemplo, recebe cerca de 300 ligações por semana de candidatos e mais 300 formulários por e-mail. Destes 600 aplicantes, disse Keith Greenhouse, que ajuda seu irmão administrar a agência, muitos, se não a maioria, são rejeitados de cara. Dos que permanecem, acrescentou, talvez 12 realmente conseguirão um emprego.

"O super-ricos nunca irão limpar suas próprias casas - eles ainda contratam pessoas para que façam isso por eles", disse Al Martino, que administra a agência Al Martino Domestic em Manhattan desde 1972. "Mas hoje eles tem mais demandas específicas sobre o que eles estão procurando".

Para evitar mal-entendidos com os clientes, empresas como a Pavillion realizam suas entrevistas altamente detalhadas dos candidatos em sessões de 30 ou 40 minutos. As perguntas feitas indicam as necessidades, desejos e, alguns até mesmo dizem, as neuroses dos empregadores.

Bethelmie participou deste processo na primeira semana de outubro, respondendo perguntas bastante específicas (sim, ela se importaria de trabalhar para uma família que frequentemente viaja para 27 países diferentes) e também solicitaram uma foto dela de preferência em algum lugar aberto e saudável como um parque. No meio do mês, suas referências foram verificadas – e eram excelentes - e seu currículo foi enviado para três famílias.

Ela estava esperando conseguir um emprego com um salário anual de pelo menos US$ 75 mil – um dos menores salários disponíveis neste mercado de nicho.

"Mas a competição é acirrada", disse Mallano. "Não é fácil. A maioria dessas famílias acabam considerando entre dez a 15 candidatos antes de tomarem uma decisão. "

E por isso, Bethelmie ainda está aguardando por uma resposta.

Por Alan Feuer

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