Mulheres fazem campanha por votos palestinos na Cisjordânia

Maysoun Wawasmi lidera grupo de candidatas que concorre nas primeiras eleições da conservadora cidade de Hebron desde 1976

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Os rostos de cinco homens de terno e uma mulher com um lenço branco na cabeça sob o slogan "Hebron Moderna" estão expostos pelas ruas desta cidade na Cisjordânia, famosa por seu conservadorismo. As eleições locais estão marcadas para sábado, dia 20 de outubro. Outros cartazes dos "Independentes de Hebron" mostram 12 fotos menos formais, incluindo as de três mulheres com um aspecto um pouco mais descontraído.

Mas os cartazes de cor roxa com o slogan "Participando, Nós Podemos" não mostram rostos, apenas o desenho de uma figura vagamente feminina, braços ao ar, à frente da bandeira palestina e do Túmulo dos Patriarcas. O desenho representa as fotos das primeiras 11 mulheres candidatas a cargos políticos nos territórios palestinos, e possivelmente no mundo árabe.

AP
Maysoun Qawasmi faz campanha em Hebron, na Cisjordânia (10/10)


"Tenho certeza que se eu colocar minha foto em meus panfletos, as pessoas vão dizer, 'Maysoun está vindo aqui para ensinar as mulheres de Hebron a irem contra os costumes'", explicou Maysoun Qawasmi, 43, a líder do Partido Participação.

A campanha de baixo orçamento de Qawasmi é uma das centenas que tomaram conta da Cisjordânia neste mês, quando ocorrem as primeiras eleições palestinas em seis anos, descritas por analistas como um importante acontecimento para a democracia em um lugar onde a política vive à deriva.

As negociações de paz com Israel estão paradas. Os esforços de reconciliação entre o Partido Fatah, que controla a Autoridade Palestina na Cisjordânia, e a facção Hamas, que governa a Faixa de Gaza, também parecem estar perpetuamente estagnadas. Protestos de rua no mês passado foram amplamente reprimidos e não existe nenhum desafiante interno para o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.

O ato de poder eleger conselhos municipais é visto como uma oportunidade muito necessária para a expressão política, e 4.696 candidatos, incluindo 1.146 mulheres, estão concorrendo em 94 cidades e vilas.

"As pessoas estão cansadas, não acredito que elas devem ser mantidas reféns até que alguma reconciliação aconteça", disse Hisham Kuhail, executivo-chefe da comissão eleitoral palestina. "Existem coisas que podem ser feitas enquanto isso."

Uma pesquisa realizada pelo Centro Palestino de Pesquisa Política revelou que 50% dos eleitores da Cisjordânia não pretendem votar, e 43% disseram que as eleições não seriam justas. Quase metade não acreditava que a votação sequer acontecerá.

Na rua, o cinismo é grande. Ayub Sharawi tem um cartaz da “Hebron Moderna” pendurado em sua loja de roupas pois é amigo de dois dos candidatos, mas disse que provavelmente não irá votar.

Pela primeira vez este ano, existem cotas que exigem que uma em cada cinco cadeiras do conselho sejam destinadas a uma mulher, e em nove cidades, há lugares destinados para os cristãos também. Nour Odeh, um porta-voz da Autoridade Palestina, disse que 17% dos atuais membros do conselho municipal são mulheres, e notou que um grupo de mulheres foi o primeiro a fazer lobby pela independência palestina em 1920.

Hebron, que abriga cerca de 200 mil palestinos, 50 mil dos quais vivem em uma área controlada por Israel, terá sua primeira eleição municipal desde 1976, quando o sogro de Qawasmi foi eleito prefeito. Khalil Shikaki, que administra o Centro Palestino de Pesquisa Política e Pesquisa, disse que a "candidatura composta apenas por mulheres é uma ideia muito inovadora, mas Hebron é o pior lugar para testar sua viabilidade."

Este é um lugar tribal e religioso, onde é raro vislumbrar o cabelo das mulheres - há uma década atrás era raro vê-las dirigindo. Poucas mulheres trabalham fora de casa e um clube esportivo para mulheres foi fechado em 2005 e as mulheres impedidas de jogar futebol ou basquete em público ou praticar corrida na rua.

"Se você é uma enfermeira ou você é um professor, tudo bem, mas para ser líder, alguém que precise tomar decisões - eles acham que a mulher tem uma mente pequena", disse Qawasmi de seus vizinhos. "A mulher precisa de ajuda, mas ela não pode fazer nada, porque ela tem medo de levantar a voz. Eu vou gritar."

Recentemente, em um dia de sua campanha, ela voltou para casa para uma pia cheia de louça suja. Mais tarde, sua filha mais nova, Lilah, reclamou: "Você parece se esquecer de nós". E pediu que ela lhe contasse uma história para ninar.

"Eu disse, 'Estou cansada", recordou Qawasmi. "Então lhe contei uma história sobre mim, sobre a minha campanha. Eu disse: 'Dê-me uma chance: em 10 anos, você vai ter orgulho de mim.'"

A menina disse: 'Eu tenho orgulho de você hoje."'

E então Qawasmi adormeceu na cama de sua filha.

Por Jodi Rudoren

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