Para norte-coreanos, mudança de líder não trouxe melhores condições de vida

Entrevistas com quatro cidadãos sugerem que chegada de Kim Jong-un ao poder não alterou o cotidiano da população pobre

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Em suas viagens ao centro de Pyongyang, capital da Coreia do Norte, onde faz suas compras semanais, uma criadora de porcos de 52 anos de idade, que se identificou como Sra. Kim, tenta ignorar a prosperidade que começou a transformar a cidade nos últimos anos: os apartamentos recém-construídos, o número crescente de Mercedes-Benz que transitam por avenidas antes vazias, as jovens mulheres bem vestidas que falam em seus celulares recém-comprados. Ela nunca foi ao novo parque de diversões onde as crianças da elite brincam durante o verão.

"Por que será que eu deveria me importar com a roupa nova dos oficiais do governo e de seus filhos quando não consigo sequer alimentar minha família", ela perguntou com sarcasmo, torcendo as mãos enquanto contava sobre a desnutrição crônica que tem adoecido seus dois filhos e que tirou a vida de seus vizinhos menos afortunados.

Entenda: Saiba mais sobre Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte

Nos dez meses desde que Kim Jong-un tomou as rédeas de seu país desesperadamente pobre após a morte de seu autocrático pai, a Coreia do Norte - ou pelo menos sua capital - adquiriu mais características de uma sociedade em funcionamento, segundo diplomatas, grupos de ajuda e acadêmicos que visitaram o local nos últimos meses.

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Líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un (D), é visto com vice-presidente da Comissão Militar Central, Choe Ryong Hae (C) e o chefe de gabinete militar, Ri Yong Ho

Mas quatro coreanos do norte na cidade de Dandong, fronteira com a China, disseram, em raras entrevistas, que pelo menos até agora não sentiram qualquer melhoria em suas vidas desde que Kim Jong-un assumiu a liderança, em dezembro de 2011 - uma opinião que assistentes sociais e analistas disseram também ter ouvido de outros cidadãos.

Na verdade, os norte-coreanos disseram que suas vidas se tornaram mais difíceis, apesar de pronunciamentos feitos por Kim sobre aumentar os meios de subsistência das pessoas tenham alimentado esperanças de que a nação poderia diminuir sua obsessão economicamente fracassada por equipamentos militares e adotar reformas de mercado iguais as que foram feitas na China.

Os preços dos alimentos aumentaram, como resultado da seca e de um lançamento de um foguete da Coreia do Norte em abril, que fechou as novas ofertas de ajuda alimentar feitas pelos Estados Unidos. As organizações de desenvolvimento também culpam os especuladores que apostaram nos preços dos alimentos antes mesmo das reformas de mercado terem se materializado. O preço do arroz dobrou desde o início do verão, e a escassez crônica de combustível, eletricidade e matérias-primas continuam na maioria das fábricas, deixando milhões de cidadãos desempregados.

"As pessoas estavam esperançosas de que Kim Jong-un pudesse tornar nossa vida melhor, mas até o momento elas não viram nada acontecer", disse um homem de 50 anos que se identificou como sendo o Sr. Park, que assim como a Sra. Kim falou sob a condição de que apenas seu sobrenome fosse usado, temendo represálias quando voltasse para casa.

O que ficou claro nos últimos meses é a tentativa de Kim em adotar um novo estilo de liderança – ao permitir que mulheres vestissem roupas ocidentais, o que antigamente era considerado um ato capitalista, e de romper com a tradição de admitir publicamente uma falha quando o lançamento de foguetes não deu certo . O que está menos claro é se ele irá permitir que a reforma econômica seja realizada mais rapidamente..

Em entrevistas com os quatro norte-coreanos, não foi possível notar qualquer tipo de otimismo. De acordo com eles, mendigos se alojaram em estações de trem, enquanto empresários bem-sucedidos continuam enriquecendo com o comércio com a China e os oficiais do governo enriquecem através da cobrança de multas e subornos.

Daniel Pinkston, um especialista em Coreia do Norte do Grupo de Crise Internacional, disse que grande parte da discussão sobre a mudança foi motivada por declarações de Kim sobre como melhorar o padrão de vida do país. Ele também é impulsionado por parecer ser mais amável do que seu pai, Kim Jong-il , cuja desastrosa política econômica ajudou a produzir uma crise de fome na década de 1990 que custou cerca de 2 milhões de vidas.

Embora os coreanos do norte não sejam ingênuos o suficiente para questionar abertamente seus líderes, suas reações pessoais em relação a morte de seu ex-líder em dezembro do ano passado eram fáceis de se interpretar.

Escapar da fome através da travessia ilegal para a China parece ser menos viável, desde que Kim assumiu o poder. De acordo com autoridades sul-coreanas, o número de desertores que chegaram lá depois de viajarem através da China caiu para 751 durante os primeiros seis meses de 2012, um declínio de 42% em relação ao mesmo período em 2011.

O governo da Coreia do Norte recentemente ergueu quilômetros de cercas eletrificadas na fronteira e enviou cerca de 20 mil guardas adicionais, de acordo com a rede Rádio Aberto para a Coreia do Norte, que fica baseada na Coreia do Sul.

Nos últimos meses, o governo chinês também começou a reprimir os desertores que vivem nas três províncias que fazem fronteira com a Coreia do Norte. Defensores de direitos humanos disseram que aqueles que são pegos são deportados e muitas vezes enfrentam a possibilidade de serem presos.

Os poucos sortudos que conseguem chegar até Dandong ficam surpresos com o que encontram lá: ruas congestionadas de carros, chuveiros quentes e a capacidade de poder falar o que pensam sem medo. Mas, principalmente, ficam surpresos com a abundância de alimento barato.

Embora seus compatriotas tenham dito que comeram muita carne e arroz, a Sra. Kim comeu apenas maçãs durante seus primeiros cinco dias na cidade. Ela disse que não as havia comido desde que era criança.

"Pensava que o nosso país tinha uma boa qualidade de vida", disse ela, "mas estava enganada."

Por Andrew Jacobs

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