Fotógrafo e colecionador se aventura no Museu de História Natural de NY

Hiroshi Sugimoto é um especialista em dioramas, representações artísticas tridimensionais de cenas históricas e paisagens naturais

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Em um canto de seu estúdio arejado com vista para o High Line no bairro de Chelsea, Nova York, Hiroshi Sugimoto mantém uma espécie de museu particular de história natural, artefatos que provém da imensa coleção que acumulou desde que se tornou um dos fotógrafos mais bem-sucedidos do mundo da arte.

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Hiroshi Sugimoto se prepara para fotografar no Museu de História Natural de Nova York (19/09)

Há um fragmento de rocha lunar. Há um pedaço de meteorito de ferro do tamanho de uma bola de futebol que caiu na Namíbia. Há ovos de dinossauros fossilizados que parecem tirados do filme “Alien”. E há um pequeno objeto que Sugimoto tirou de um armário em uma tarde recente: um sarcófago de um gato egípcio de cerca de 200 aC, com a forma do felino situada no alto da caixa retangular de bronze selada.

Ele a deu para um visitante e lhe pediu para que a balançasse. Algo seco sacudiu dentro dela, emitindo um som parecido ao de uma maraca. "Ele está aí, mas nunca vamos poder vê-lo", disse ele, sorrindo.

Como muitos fotógrafos contemporâneos, o trabalho de Sugimoto lida com questões de percepção e revindicações da fotografia com a verdade. Mas seus interesses sempre foram um pouco além, a ponto de chegar a uma preocupação quase científica sobre o tempo e a mortalidade.

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Entre as primeiras fotos que fizeram com que o fotógrafo nascido no Japão fosse aclamado estavam aquelas que ele fez há mais de 30 anos de dioramas (representações artísticas de cenas históricas e paisagens natuais nas quais se criam efeitos tridimensionais e de movimento) do Museu Americano de História Natural. As fotografias eram, em certo sentido, a natureza removida duas vezes - uma vez pelo rifle do naturalista e o taxidermista, e pela segunda vez pela câmera de Sugimoto e o que ele produziu dentro de seu quarto escuro.

Ele compara seu trabalho a fases sucessivas de fossilização. E em um dia moderadamente movimentado há pouco tempo atrás, Sugimoto estava fossilizando novamente, na seção das Florestas da América do Norte do Museu de História Natural. Foi a primeira vez em mais de duas décadas que ele tinha voltado para os dioramas para continuar a trabalhar com uma ideia que ele simplesmente não consegue deixar de lado. Ele fez suas últimas fotos no museu em 1994, antes disso havia feito em 1982 e, inicialmente, no final dos anos 70.

Sua série de fotografias tem muitas vezes focado em cenas de animais - ursos polares, bois almiscarados, antílopes, avestruzes africanos - que parecem, através de suas traduções fotográficas em preto e branco, tão surreal, enganando o olho muito mais do que os próprios dioramas que parecem imagens da natureza tiradas no Serengeti ou no Ártico, perfeita demais para parecer montada.

Mas desta vez, Sugimoto, 64, dirigiu sua atenção para questões mais obscuras, para dioramas de plantas e árvores que apresentam o que ele vê como uma visão da terra após o desaparecimento da humanidade e da vida animal, um interlúdio relativamente breve no calendário do planeta de 4,5 bilhões de anos.

"Talvez seja a minha idade", disse ele durante uma entrevista em seu estúdio. "Estou começando a ter uma visão a longo prazo". Ele apontou para fora da janela para o horizonte de Manhattan. "Em 100 anos, se não estivermos aqui, toda a cidade irá se tornar uma floresta novamente."

Elisabeth Sussman, uma especialista em fotografia e curadora do Museu Whitney de Arte Americana, que inclui obras de Sugimoto em sua coleção, disse que suas fotos sempre lidaram com "extremos entre este tipo de reflexão budista e um incrível controle formal."

"E eles também têm essa qualidade maravilhosa simultânea de conceitualismo e de fotografar o que está bem na nossa frente, ou o que achamos que está na nossa frente", disse ela.

Sugimoto disse que ele continuou visitando o Museu de História Natural - e outros museus de história natural ao redor do mundo - em parte porque ele enxerga algo neles, que vai além da realidade, que ele é capaz de capturar um pouco melhor cada vez que retorna . "Estou tentando me aproximar o máximo possível da minha visão ", disse ele.

De volta ao estúdio, alguns dias antes, após ter exibido sua coleção de artefatos, ele mostrou um catálogo de leilão de novos itens em sua lista de desejos, aqueles que também falam com eloqüência da natureza e de sua estranheza, mas de uma forma muito diferente do que um meteorito. O leilão era para antigos dispositivos de tortura, incluindo um anel cravado no pescoço que parecia algo que Duchamp teria alegremente declarado como um “readymade”.

Sugimoto encolheu os ombros. "Coleciono coisas estranhas", disse ele. "E acabo produzindo coisas estranhas."

Por Randy Kennedy

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