Fãs usam roupas de época para celebrar Jane Austen em Nova York

Evento anual reúne centenas de convidados que discutem obra da autora vestidos como seus personagens

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Em 1979, cerca de cem pessoas se reuniram no Hotel Gramercy Park, em Nova York, para o encontro inaugural da Sociedade Americana de Jane Austen, vestidas de acordo com um estilo que a revista The New Yorker descreveu como "lindos vestidos, joias discretas e trajes que aparentavam ser confortáveis".

Quando a sociedade levou sua reunião anual ao Marriott no centro de Brooklyn no fim de semana do dia 5 de outubro, as coisas eram bem diferentes. O número de pessoas que compareceram chegou a mais de 700, o evento durou três dias e o código de vestimenta do dia para muitos era mais baseado no traje dos personagens e que se encaixasse no período no qual as histórias se passavam.

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Fãs dançam na convenção anual da Sociedade Jane Austen em Nova York (06/10)

"Este é um lugar onde as pessoas podem curtir Jane Austen a vontade", disse Julia Matson de Minneapolis, a criadora de uma linha de chá temático da Jane Austen (Mr. Darcy: "um começo um tanto quanto forte mas com um acabamento suave"), que estava em sua terceira reunião.

Foi também um lugar para se concentrarem em seus livros, e neste ano a JASNA, como a sociedade é conhecida, convidou alguns pesos pesados para dar palestras sobre o tema de poder, dinheiro e sexo.

Cornel West, um autointitulado fanático por Jane Austen, foi bastante popular ao dar uma palestra bastante polêmica na manhã de sábado sobre a compreensão de Austen do sofrimento humano que chegou a citar nomes como Sófocles, Shakespeare, Chekhov e Leo Strauss. Sandy Lerner, co-fundadora da Cisco Systems e fundadora da Biblioteca Chawton House (perto da casa na região de Hampshire, Inglaterra, onde Austen escreveu alguns de seus romances), deu uma palestra sobre a compreensão vaga que Austen tinha a respeito do dinheiro.

Mas foi a romancista Anna Quindlen que estabeleceu o ritmo para o fim de semana com um discurso empolgante lamentando dois séculos de condescendência masculina que reduziram os livros de Austen a pequenos romances domésticos.

"Fico enlouquecida em saber que haviam apenas homens no funeral", disse Quindlen, observando que a lápide de Austen na Catedral de Winchester não fez nenhuma menção de seus livros. Ela lembrou também o professor Barnard na década de 60 que rejeitou Austen como sendo "uma romancista de segunda linha" - algo que hoje ele não repetiria, disse Quindlen, mesmo se estivesse, provavelmente, ainda o pensando.

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Em seu novo livro, "Jane Austen’s Cults and Cultures" ou (“Os Cultos e Culturas de Jane Austen” em tradução literal), da estudiosa da Universidade de Princeton Claudia L. Johnson, traça a diferença entre acadêmicos e fãs de Austen até o Ensaio de DW Harding de 1940, "Ódio regulamentado", que sugere que Austen teria desprezado os leitores que não conseguiram reconhecer que seus romances falavam sobre a "erupção do medo e ódio nas relações da vida social cotidiana."

Certamente não havia ódio no Brooklyn, onde a ênfase era diretamente sobre a celebração da mulher que Henry James chamou de "Jane, a querida de todos".

Mary Ann O'Farrell, professora de Inglês na Universidade A&M do Texas, que estava dando sua primeira palestra para a sociedade, disse que estava surpresa com o fato de uma referência ao seu recente artigo "'Bin Laden um enorme fã de Jane Austen: Jane Austen no discurso político contemporâneo" ter arrancado risos da plateia.

"As pessoas desta convenção são muito mais sofisticadas leitoras de Austen do que o mundo pensa", disse. "Elas estão dispostas a pensar criticamente, em ambos os sentidos da palavra."

O conhecimento dos participantes muitas vezes vai além dos seis romances de Austen. Durante uma palestra sobre os motivos mercenários na ficção de Austen, Marilyn Francus, professora associada da Universidade de West Virginia, perguntou em voz alta como era possível saber no início de "Orgulho e Preconceito "que o Sr. Darcy ganhava 10.000 libras por ano".

O mundo moderno certamente parecia distante do baile Regency que ocorreu no sábado, dia 6 de outubro, que começou com um brinde saudável para "nossa divina deusa Jane Austen" e incluiu várias horas de danças típicas inglesas, como os Sete xelins e dinheiro em ambos os bolsos, com música tocada por uma banda chamada Persuasão.

Não havia um zumbi à vista. Haviam também alguns preciosos parceiros do sexo masculino, apesar dos esforços dos intrépidos travestis como Baronda Bradley, um consultor de logística da cadeia de suprimentos de Fort Worth, Texas, e bem conhecido por frequentar a Sociedade de Austen, que estava vestindo um terno de lã e colete sobre um espartilho de 1940 virado para trás para que pudesse parecer mais com um homem.

"Todo ano as pessoas esperam para ver o que eu estarei vestindo", disse Bradley, que trouxe oito roupas diferentes para a reunião, incluindo a boina e seu vestido diurno que ela usou no avião. "Eu realmente quis surpreender todo mundo quando decidi vir vestido como um homem hoje."

Por Jennifer Schuessler

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