Vitória de cantor negro no Ídolos reflete situação racial da África do Sul

Khaya Mthethwa foi o primeiro negro a vencer edição sul-africana de programa americano

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Quando Khaya Mthethwa cantou as últimas notas da canção "Super Bass", de Nicki Minaj, música que tinha ouvido pela primeira vez naquele mesmo dia, os juízes do "Ídolos SA", a versão sul-Africana do programa de televisão "American Idol", ficaram boquiabertos.

"Cara, você é sensacional", disse Gareth Cliff, um dos juízes.

"Esta competição é praticamente sua", disse Unathi Msengana, uma juíza.

Além do habitual nervosismo de um participante de um programa de televisão, que canta com a alma e espera por sua grande oportunidade, o peso da história da cultura pop estava sobre os ombros de Mthethwa: será que ele finalmente iria se tornar o primeiro competidor negro a vencer o programa "Ídolos" em seu próprio país?

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Khaya Mthethwa (esq.) com Melissa Alison durante o programa Ídolos

À primeira vista, pode parecer estranho que em um país onde 80% da população é negra um concurso de cantor decidido pelo voto popular nunca tenha sido vencido por um negro. Mas na África do Sul, que durante décadas separou as raças sob o brutal sistema do apartheid que colocou os negros na base da pirâmide social e os brancos no topo, nem mesmo uma competição de canto consegue escapar de uma análise de um ponto de vista racial.

E assim, na semana passada, quando Mthethwa foi coroado vencedor da oitava temporada do programa "Ídolos", foi possível ter uma ideia do quão longe esta nação evoluiu em relação a suas divisões raciais.

"Já estava na hora que uma pessoa negra ser reconhecida", disse Portia Moloi, de 23 anos de idade, vendedora em uma loja de varejo no shopping de luxo de Rosebank."Por que será que demorou tanto tempo para isso acontecer?"

A versão da África do Sul do programa Ídolos começou a ser exibida no M-Net em 2002, um canal de satélite disponível apenas para assinantes da DStv. Naquela época, a base de assinantes era em grande parte composta por brancos, disse Yolisa Phahle, uma executiva da M-Net, porque os negros não tinham tantas condições para pagar a assinatura. Os votos são em grande parte realizados através de SMS, o que também custa dinheiro.

Questões sobre raça têm perseguido o programa desde o início. A África do Sul produz muito talento musical negro. De superstars internacionais, como Miriam Makeba e Hugh Masakela a Ladysmith Black Mambazo, que foi catapultada para a fama quando gravou com Paul Simon em seu álbum de sucesso "Graceland". Para a maioria dos ouvintes internacionais a música sul-africana é sinônimo de música negra.

Eusébio McKaiser, um analista político cujo novo livro, "A Bantu In My Bathroom" (“Um Bantu em meu Banheiro” em tradução literal) aborda questões raciais remanescentes na África do Sul, disse que não tinha dúvidas de que se o programa "Ídolos" tivesse sido exibido em uma emissora nacional, cujos canais são grátis, um vencedor negro certamente teria emergido mais cedo. "Nós estaríamos na verdade nos perguntando quando que o Ídolos teria seu primeiro vencedor branco", disse McKaiser, que também é um fã do programa.

Mas a África do Sul está mudando. O público da M-Net já foi em grande parte composto por brancos, disse Phahle, mas agora cada vez mais reflete o equilíbrio demográfico do país. A pobreza ainda é um grande problema social - e cada vez mais uma questão política - mas também existem mais negros capazes de pagar por certos luxos como a assinatura de uma TV por satélite.

"Cada vez mais pessoas negras se inscrevem para participar do 'Ídolos', e essas mesmas pessoas chegaram cada vez mais longe dentro da competição e, finalmente, este ano tivemos um vencedor negro", disse Phahle. "O vencedor deste ano recebeu a maioria dos votos porque ele era o melhor. Mas também é um reflexo do tecido social em mutação da África do Sul".

Muitos potenciais espectadores negros, especialmente os jovens, têm pouco interesse em versões de canções da Celine Dion e hinos do rock americano (até mesmo a interpretação de Mthethwa da canção de Minaj transformou sua canção pop em uma balada de R'n'B) . Para eles, os ritmos borbulhantes do kwaito, as batidas pulsantes da música house e as canções sentimentais de Afro Pop são muito mais atraentes.

"Toda vez que eu ouço estas pessoas cantando uma canção de Mariah Carey perco o interesse", disse Victor Dlamini, um escritor e fotógrafo Sul Africano. "É realmente uma catástrofe cultural e não estamos tirando proveito dos estilos musicais com os quais temos mais afinidade."

No shopping Maponya, em Soweto, o templo de consumo da classe média negra, muitos clientes estavam felizes que um artista negro finalmente ganhou a competição.

"Eu fiquei muito contente", disse Mpho Dubazana, uma gerente de uma loja de roupas de 29 anos de idade. "Eu até atualizei meu status no Facebook", ela exclamou, mostrando seu smartphone.

Mas outros demonstraram uma postura indiferente.

"Não é a nossa música", disse Phindile Maseko, um trabalhador social de 35 anos de idade. "Nós já temos o nosso próprio R & B cantado em nossas próprias línguas.Por que então cantar em Inglês? "

Por Lydia Polgreen

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