Cinemas da capital do Líbano exibem imagens de tolerância

Salas antigas de Beirute refletem conflitantes versões de uma cidade marcada por divisões políticas e milícias que lutam por poder

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IAs cortinas de veludo vermelho se abriram e uma fantasia do Líbano surgiu, desprovida das disputas sobre seita, política ou nacionalidade.

Um cantor mexicano-libanês cantou algumas canções em espanhol. Artistas árabe-cubanos vieram na sequência, depois uma mulher cantando uma canção da cantora pop Adele, um guitarrista cigano de cabelos compridos, um egípcio cantando em francês e um homem militar cantando músicas patrióticas sobre o Líbano. Em algum lugar no meio disso tudo, a banda também tocou um pouco da música "Stairway to Heaven".

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Cantora se apresenta em ex-sala de cinema que se tornou centro de entretenimento em Beirute (21/08)


"É como uma boate, mas a música está acontecendo ao vivo", disse Michel Elefteriades, o dono da Music Hall. "Este é um país onde não temos um monte de coisas, não temos parques ou um zoológico para as crianças. O que temos são cinemas, restaurantes e boate. "

O Music Hall é um pouco dos três, um cinema restaurado cujo passado pode ser visto no piso inclinado e tetos altos, onde a comida é boa e dançar é inevitável. É um exemplo do Líbano que muitos na cidade de Beirute querem projetar para o mundo: aberto, tolerante e divertido, tudo isso no coração do Oriente Médio muçulmano.

Cinemas antigos da cidade, ao que parece, não são apenas estruturas envelhecidas que evocam uma época anterior. Eles também refletem as versões conflitantes de Beirute que sempre estão competindo por destaque, como os partidos políticos e as milícias que lutam pelo poder.

Mohammed Soueid, um diretor de cinema libanês e autor de um livro sobre a história do cinema no Líbano, vê os cinemas antigos como um exemplo do que ele chama de "a grande mentira " do país: a ideia de que a diversidade em si (a mulher de minissaia ao lado de uma com véu ) significa sucesso.

Os cinemas já desempenharam um papel mais unificador. O Líbano viveu sob o controle francês entre 1920 a 1943 e a persistente influência da França, junto ao magnetismo de Hollywood, levaram Beirute para o que muitos ainda consideram uma época de ouro para o cinema.

Mesmo durante seus primórdios, no entanto, os cinemas eram entrelaçados com a política. O Partido Comunista se reuniam em um cinema de Beirute em 1920. Em 1974, um novo cinema no Holiday Inn teve como objetivo abrir com "A Semente de Tamarindo", no qual Omar Sharif interpreta um agente russo, mas a Embaixada da Rússia protestou.

Agora, a maioria dos cinemas no Líbano está localizada dentro de shoppings, e a maioria dos filmes que exibem são blockbusters americanos.

Ainda assim, muitos dos cinemas antigos permanecem, embora diferentes. O centro Virgin Megastore costumava ser um dos palácios de cinema. Várias lojas de roupa em Hamra são cinemas antigos também, e um punhado de casas noturnas - após o sucesso do Music Hall, que abriu em 2003 - também têm encontrado uma maneira de atualizar os antigos cinemas, mantendo os projetores que fazem alusão a origem dos clubes .

Mas, é claro, o que faz o Líbano um país sempre foi um tema para debate. Ele é em grande parte um Estado sem Estado, com seitas que administram suas próprias asas de governo.

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Projecionista trabalha no Cinema Plaza, em Beirute (21/08)

Em tal ambiente, muitos dizem que a evitar provocação é a maior virtude. No cinema que foi invadido no dia 28 de julho, depois que uma estação de televisão local produziu um segmento que o identificava como sendo um ponto de encontro homossexual, os frequentadores não queriam falar sobre o que tinha acontecido. Um homem de pé no saguão deixou isso claro: "Você já tem todas informações de que precisa", disse ele em inglês.

No andar de cima, na sala de projeção, o Líbano revela suas contradições. Em uma parede perto de um antigo projetor italiano estava uma pintura da mesquita de Meca e um santuário para a Virgem Maria. Do outro lado estavam pendurados pôsteres de filmes do mundo todo.

No andar de baixo, o teatro estava completamente escuro - exceto para o lampejo de um filme antigo mostrando dois homens observando uma dançarina do ventre.

Por Damien Cave

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