Com 226 km² e pouco mais de 3 mil moradores, Lanai se vê diante de conflito sobre identidade e futuro após ter sido vendida para bilionário de empresa de software

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Lanai deveria representar uma típica imagem de tranquilidade tropical de uma ilha do Pacífico. Apenas 3.135 pessoas vivem em seus 226 quilômetros quadrados. Não há semáforos, cinemas ou padarias. Há apenas um posto de gasolina e três estradas principais. Ela é cercada por vastas praias desertas, acessíveis apenas por trilhas e carros. Um visitante pode percorrer suas colinas durante horas sem se deparar com alguém.

Turistas em praia no remoto oeste da ilha de Lanai
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Turistas em praia no remoto oeste da ilha de Lanai

Apesar de toda sua serenidade, Lanai - uma ilha de propriedade privada, à vista do litoral oeste de Maui - está diante de um conflito econômico e cultural recente, uma luta entre sua identidade e um futuro incerto depois que seus moradores ficaram sabendo que a ilha havia sido vendida ao proprietário bilionário recluso de uma empresa de software.

Desde que James Drummond Dole comprou Lanai de um fazendeiro há 90 anos, a ilha sofreu uma série de difíceis transformações econômicas.

Sob a administração de Dole, a ilha abrigou a maior plantação de abacaxi do mundo, e ficou conhecida como ilha do abacaxi, com grandes campos e uma colônia de trabalhadores. Quando Dole transferiu suas operações para o exterior no fim de 1980, Lanai começou a contar com o turismo como fonte de sua renda, abrindo dois resorts de alto padrão onde as diárias chegam a cerca de US$ 1,1 mil por noite, proporcionando uma nova fonte de empregos para a comunidade.

Mas quando os resorts tiveram problemas com a recente crise econômica e com o desafio de trazer turistas para uma ilha remota com um único avião disponível para transporte, o proprietário da ilha propôs a construção de um campo de moinhos de vento, através das praias que cobrem quase um terço da ilha, para produzir energia para vender para Oahu.

O plano dividiu os moradores, entre aqueles que viam as turbinas como a salvação econômica para sua ilha e aqueles que queriam que a ilha continuasse com sua paisagem inalterada e pouco desenvolvida.

"É uma situação simplesmente terrível", disse Robin Kaye, um morador que se posicionou contra a instalação dos moinhos. "Há famílias que não falam mais umas com as outras. Isso realmente nos dividiu de uma maneira que não imaginávamos."

Vista aérea de Lanai, no Havaí, que pertence ao bilionário Larry Ellison
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Vista aérea de Lanai, no Havaí, que pertence ao bilionário Larry Ellison

O novo proprietário de Lanai é Larry Ellison, cofundador da Oracle. Ele comprou 98 % da ilha - o restante é propriedade do governo e casas de propriedade privada. O valor pago pela ilha não foi divulgado.

Agora, Ellison é dono do posto de gasolina, da agência de aluguel de automóveis e do supermercado. Ele é dono do Lanai City Grille, do Hotel Lanai, os dois resorts Four Seasons, dos dois campos de golfe, de cerca de 500 bangalôse casas de luxo, de uma fazenda de energia solar e de quase todas pequenas lojas e cafés que existem na Cidade de Lanai. Ele é dono de 35 mil hectares de campos de abacaxi, de montes com vegetação árida, assim como 80 quilômetros de praias.

Diate de todas as especulações sobre as intenções de Ellison - a mais prevalente sendo que o novo proprietário, cuja equipe de iates venceu a Copa América em 2010, transformaria Lanai em um hub para velejadores - ele ainda precisa fazer uma aparição em público, falar com os oficiais eleitos ou contar para as pessoas quais são seus planos. Ele não respondeu a um pedido de comentário.

"Ninguém sabe realmente o que vai acontecer", disse Mary Charles, que administra o Hotel Lanai. "Os últimos cinco anos têm sido bastante difíceis para esta ilha."

Os associados de Ellison os descreveram como tendo um grande interesse pelo mistério romântico que uma ilha isolada pode ter e disse que era improvável que ele embarcaria em qualquer projeto que alterasse esses fatores. Seus assistentes disseram para os moradores da região que ele pretende fazer uma grande renovação nos dois resorts, o que sugere que ele vê o futuro da ilha, no turismo, e descreveu a compra como sendo algo mais voltado para uma paixão sua do que apenas interesse econômico.

Robin Kaye, 65 anos, tem vivido dentro e fora de Lanai desde 1974 e celebra uma existência onde o abastecimento da ilha chega uma vez por semana, através de barcos, e as pessoas costumam pegar uma balsa até Maui para fazer compras.

"A melhor maneira para manter a ilha do jeito que está é promover o turismo", disse ele. "Mas de uma maneira que respeite o que somos: uma comunidade bonita, pequena e peculiaramente havaiana. Nós não somos Waikiki. "

Turistas no Resort Four Seasons na Baía de Manele, em Lanai
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Turistas no Resort Four Seasons na Baía de Manele, em Lanai

Charles disse que o isolamento da ilha faz com que seja mais difícil administrar um negócio, e que as pessoas da região "gostariam de receber mais desenvolvimento - mas da maneira correta".

"Ellison na verdade salvou a nossa comunidade", disse ele. "Nós estávamos morrendo. A situação estava à beira de uma crise. Algumas das pessoas locais não querem acreditar nisso.

*Por Adam Nagourney

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