Dor marca dura luta de filhos por reparação após acidente de trem na China

Depois de perder pais em acidente que abalou confiança dos chineses no sistema ferroviário de alta velocidade, irmãos enfrentam burocracia por indenização de ministério onipotente

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Henry Cao tem lembranças sombrias do momento em que o trem de alta velocidade no qual se encontrava em julho do ano passado colidiu com outro: o balanço agradável deu espaço para um sacudida que ele compara a um terremoto, seguido de escuridão e da sensação de queda quando o vagão despencou 30 metros de cima de um viaduto.

Acidente:  Ponte inaugurada há nove meses desaba e mata três na China

"Nós voamos como bonecas de pano", contou.

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Com foto de seus pais, Henry (D) e Leo Cao andam em um trem de alta velocidade na China pela primeira vez desde acidente que matou seus pais (12/8)

O acidente matou 40 passageiros, feriu 191 e abalou a confiança da nação em seu sistema ferroviário de alta velocidade. Cao, 33 anos, um importador chinês-americano do Colorado, quase não sobreviveu - ele perdeu um rim e o baço, e teve ferimentos na cabeça que o deixaram prejudicado para sempre, incapaz de ficar acordado por mais de uma ou duas horas. Seus pais, naturalizados cidadãos americanos, que estavam visitando sua terra natal, morreram no acidente.

Enquanto Cao lutava para se recuperar ao longo do ano passado, ele se deparou com uma batalha diferente: conseguir compensação do Ministério das Ferrovias, uma instituição governamental desacostumada a lidar com estrangeiros determinados.

Neste mês Cao voltou para a China pela primeira vez desde o acidente. Ele e seu irmão Leo vieram para pegar os restos de seus pais e para pressionar as negociações com o ministério.

"Eles sabem como negociar", disse Leo Cao, 30 anos. "Primeiro, eles permitem que você reclame sem parar, depois eles te enrolam, e, finalmente, lhes respondem com palavras vagas e vazias. Hoje eles dizem: 'Você tem sorte de estar sequer recebendo alguma coisa'."

Peso

Sua odisseia dolorosa e politicamente carregada destacou o funcionamento de um ministério onipotente que emprega mais de 2 milhões de pessoas e se equivale ao Exército chinês em tamanho e influência. A experiência foi desorientadora para os irmãos Cao, que deixaram a China quando adolescentes duas décadas atrás.

"Esse lugar não está nada parecido com minhas lembranças dele", disse Henry Cao, falando em voz baixa. "Todo mundo está lutando para ganhar dinheiro. A vida aqui é barata. "

Em um relatório divulgado em dezembro, investigadores do governo colocaram a culpa do acidente de Wenzhou em falhas no equipamento de sinalização. Os investigadores disseram que o ministério violou normas de segurança na sua pressa para criar a maior rede de ferrovia de alta velocidade do mundo.

Na linguagem de eufemismos do Partido Comunista, o dia 23 de julho tornou-se um "aniversário sensível" - um dia para os editores de jornais e colunistas ignorarem. Depois de inúmeras reportagens nos dias após o acidente - que incluíram relatos de um resgate fracassado e esforços para enterrar um dos vagões do trem - os censores bloquearam quaisquer discussões sobre o tema nos microblogs. No mês passado, as famílias das vítimas receberam um aviso sobre a proibição de realizar memoriais públicos.

Mas os irmãos Cao, ao ignorarem tais avisos, tornaram-se obstáculos no caminho do governo, ao pedirem auxílio financeiro.

Em uma série de reuniões, oficiais do ministério lhes ofereceram US$ 280 mil pela morte de seus pais e US $ 85 mil pelos ferimentos de Henry Cao, disseram os irmãos. Os irmãos Cao solicitaram um total de US$ 5 milhões, com base no que eles disseram que o três teriam ganho por mais de 20 anos de trabalho nos EUA.

Oficiais do governo não responderam a um pedido enviado por fax para comentar para este artigo, e inúmeros telefonemas feitos ao escritório do ministério da informação pública na semana passada não foram atendidos.

Durante o decorrer do ano passado, os irmãos Cao irritaram as autoridades por se recusarem a retirar os corpos de seus pais do necrotério. Leo Cao, que estava completando um doutorado em ciências da informação no momento do acidente, disse que teve de se responsabilizar financeiramente pelas necessidades médicas de seu irmão.

Funeral

Ainda assim, os irmãos realizaram um serviço memorial improvisado na casa funerária e depois visitaram o local do acidente. Na semana passada, eles tomaram providências para que os corpos fossem enviados para Nova York. O funeral, marcado para sábado de 1º de setembro, no Queens, deve atrair centenas de imigrantes da região de Fujian.

Entre as centenas de fotografias recuperadas do iPhone de seu pai, de sua primeira e última férias na China, uma imagem se destacou: uma foto do monitor de televisão dentro do trem mostrando que estavam viajando a uma velocidade de 303 quilômetros por hora.

"Meu pai estava muito orgulhoso do progresso da China", disse Leo Cao."Infelizmente, foi o progresso da China que matou meus pais."

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Avó dos irmãos Cao, Chen Baifang chora sobre foto de filho e nora que morreram em acidente de trem de alta velocidade, em Wenzhou

*Por Andrew Jacobs

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