Com capacetes, voluntários de direitos humanos monitoram protestos no Chile

Armados com notebooks, câmeras, gravadores e máscaras de gás, observadores vigiam ação da polícia e lutam pelos direitos dos detidos

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Eles aparecem nas manifestações estudantis que tomam conta das ruas e ocupam as escolas de Santiago do Chile e também em hospitais e delegacias de polícia para onde vão as vítimas: pequenas tropas de observadores que usam capacetes azuis ou brancos, armados com notebooks, câmeras, gravadores de voz e máscaras de gás.

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Eles não estão lá para participar dos protestos ou interferir, apenas para monitorar e gravar o que acontece quando a polícia reprime os protestos - com mais violência este ano - e para ajudar pessoas que tenham sido feridas ou sofrido algum tipo de abuso. Neste mês, eles estão mais ocupados do que nunca.

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Catalina Gallargo, voluntária de direitos humanos, observa ação da polícia durante protesto em Santiago do Chile (23/8)

Os observadores voluntários, conhecidos como "capacetes", são cidadãos de todas as idades e estilos de vida, profissionais e operários, estudantes universitários e aposentados, alguns com quase 70 anos de idade, que veem seu trabalho como algo essencial.

"Temos de registrar a evidência do que estamos vendo", disse Marta Cisterna, 45 anos, a porta-voz do Observadores dos Direitos Humanos, um dos grupos dos capacetes. "Ninguém mais está monitorando as ações da polícia."

As marchas de protestos normalmente acabam em batalhas de rua com a polícia, que usa gás lacrimogêneo e canhões de água com químicos para dispersar a multidão e seus cacetetes para prender manifestantes. Alguns estudantes sofreram lesões na cabeça, tiveram seus narizes quebrados, sofreram convulsões e problemas respiratórios, outros foram pisoteados por policiais a cavalo. Além disso, cada vez mais, de acordo com os grupos de observadores, os detidos estão relatando atos de humilhação sexual pela polícia.

É por isso que os capacetes estão presentes. Antes de cada protesto, eles ligam uns para os outros para distribuir tarefas e locais. Nas ruas, eles usam capacetes marcados DDHH - abreviação de "derechos humanos" (direitos humanos, em espanhol) - assim como grandes credenciais penduradas em seus pescoços para deixar o mais claro possível quem são. Eles recebem treinamento nos fundamentos legais, e possuem regras rígidas a serem seguidas: não interferir nos acontecimentos, não xingar a polícia e trabalhar sempre em pares.

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Estudante joga pedras contra veículo da polícia durante protesto em Santiago do Chile (23/8)

"A primeira coisa que fazemos é nos aproximar do oficial responsável", disse Cisterna, um terapeuta da fala. "Nós dizemos a ele que estamos ali para observar os procedimentos policiais. Nós não intervimos em nada, não tentamos tirar os presos deles, mas os deixamos cientes quando estão fazendo algo ilegal ou irregular. Eles sabem que não podem bater nas pessoas, e que estamos assistindo e anotando seus nomes e registros. Eles acabam prestando atenção em nós."

Agosto

O mês de agosto os manteve bastante ocupados. Estudantes ocuparam mais de 25 escolas de ensino médio em Santiago e outras cidades, além de terem tomado conta do edifício principal da Universidade do Chile e possuírem planos para tomar conta de pelo menos outras oito universidades. Na semana passada, um grupo de estudantes do ensino médio fez uma greve de fome e outros se acorrentaram aos edifícios do governo e ocuparam os escritórios da Unesco em Santiago. Na quinta-feira de 23 de agosto, 10 mil estudantes marcharam saindo de 14 pontos diferentes da capital, e quase 140 foram presos.

Oficiais da polícia se recusaram a comentar o trabalho dos grupos de observadores.

Os organizadores dos protestos agora têm o costume de chamar os capacetes antes de qualquer evento. "Eles se sentem mais protegidos se nós estamos lá, apesar de entenderem que há limites para o que podemos fazer", disse German Chau, 66 anos, um monitor de educação de adultos que faz parte do grupo Observadores dos Direitos Humanos.

Os capacetes fotografam o que veem e registram relatos orais de manifestantes e testemunhas. Eles anotam as placas dos veículos da polícia e os nomes dos comandantes, e possuem registros de todos que são detidos. Muitas de suas informações são imediatamente publicadas na internet, em contas no Twitter. Eles continuam trabalhando até o último detido ser liberado pela polícia.

"Às vezes passamos a noite toda em uma delegacia ou trabalhando - nós não dormimos ou comemos e nós gastamos o nosso próprio dinheiro, mas nós temos de estar lá", disse Luis Parra, 56 anos, um advogado voluntário do Observadores dos Direitos Humanos.
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Tudo começou um ano atrás, quando uma rede de organizações de direitos humanos preocupada com as táticas da polícia, enviou dois membros para observar um protesto de panelaço em uma praça, usando credenciais com os logotipos de cada organização.

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Polícia se protege em meio a protesto estudantil em Santiago (23/8)

"Alguma coisa aconteceu naquele dia", disse Cisterna. "As pessoas estavam curiosas e se aproximaram de nós, verificaram nossas credenciais, perguntaram o que estávamos fazendo. Nós distribuídos panfletos sobre os direitos dos detidos".

Encorajados, os grupos então enviou uma dúzia de observadores para uma greve nacional que ocorreu no mês de março, desta vez usando capacetes de segurança brancos. A ideia ganhou visibilidade e atraiu mais voluntários.

"É gratificante", disse Parra. "As pessoas apreciam o nosso trabalho, porque ninguém mais está fazendo isso."

*Por Pascale Bonnefoy

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