Músicos tentam preservar tradição folclórica na Índia

Onde energia elétrica e água são escassas, membros da casta manganiyar que tocam sindhi sarangi lutam para manter viva melodia estridente de instrumento que lembra violino

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Na pequena aldeia de Raneri, quase 643 quilômetros ao sudoeste de Nova Délhi, onde as mulheres lavam pratos sujos na areia para economizar água e energia elétrica tão escassas, Lakha Khan se sentou no chão de uma cabana de pedra, com as pernas cruzadas e um turbante branco em sua cabeça. Foi aí que ele emitiu uma brilhante, estridente melodia, tocada rapidamente em seu sarangi, um instrumento um pouco parecido com o violino.

Khan, 66 anos, que é conhecido como Lakha ou Lakhaji (ji no final de um nome é um sinal de respeito na Índia), é um dos poucos tocadores de sindhi sarangi entre os manganiyars, uma casta hereditária de músicos muçulmanos que vivem neste Estado deserto do Rajastão.

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O manganiyar Sakar Khan (C) toca kamancha com seu filho, Firoze (D), no vilarejo de Hamira, Índia

Ele toca por horas - até que os besouros pretos que caem do teto indicam a chegada da noite - normalmente sozinho com apenas a companhia de algumas cabras. Mas em uma tarde recentemente, ele teve a oportunidade de tocar para duas pessoas: Ashutosh Sharma e Ankur Malhotra, que estavam agachados no meio de seus equipamentos, que incluía um mixer de cinco canais e dois gravadores analógicos. Eles colocaram alguns de seus sete microfones em toalhas para absorver o ruído do moinho de farinha localizado no outro lado da rua.

"Há uma exuberância ou apenas uma falta de inibição quando eles estão tocando em casa", disse Malhotra a respeito dos manganiyars, cuja música é uma mistura de melodias tradicionais e voz. "Aqui essas performances são genuínas, verdadeiras e repletas de emoção."

Sharma e Malhotra, ambos com 37 anos de idade, disseram que querem preservar a música dos manganiyars, cujas canções - devocionais, mas outras que contam histórias de nascimentos, mortes e amor, muitas vezes, sobre as famílias hindus - não têm nenhum registro escrito.Os dois homens disseram que foram inspirados por Alan Lomax, o musicólogo que há mais de meio século, viajou pelo Sul dos Estados Unidos gravando músicos de blues que até então eram desconhecidos para o público em geral.

Popularização

E assim como Lomax eles esperam preservar a música e trazê-la para um público mais amplo através de uma pequena gravadora independente, que começou com dois amigos, chamada de Amarrass Records. No entanto, eles percebem que a tentativa de popularizar a música manganiyar é uma tarefa difícil na Índia, onde a maioria dos jovens preferem fazer download de canções de Bollywood a escutar a uma música folclore antiga.

Diversas autoridades nos manganiyars, como Shubha Chaudhuri, um musicólogo étnico do Instituto Americano de Estudos da Índia em Gurgaon, na Índia, são céticos sobre a meta de tornar os músicos mais conhecidos porque a sua música indiana não é feita para ser comercial. "Existe apenas um nicho para esse tipo de coisa", disse Chaudhuri.

No ano passado, a gravadora Amarrass fez seu primeiro Festival de Música do Deserto, em Nova Delhi, transportando os músicos do Rajastão e trazendo também o músico Farka Toure, guitarrista de Mali. Mas os artistas tocaram para um auditório com metade da capacidade, e Amarrass perdeu cerca de um quarto dos cerca de 4 milhões de rúpias (US$ 70 mil) que haviam gastado para realizar o festival.

O selo lançou duas compilações de gravações de campo, que, juntamente com o disco "Manganiyar Seduction", já vendeu cerca de 3 mil cópias, cerca de três quartos do que imaginavam que teriam de vender para cobrir os gastos. Seu objetivo é lucrar, e disseram que irão dividir seus lucros com os músicos.

Roysten Abel, o diretor do projeto "Manganiyar Seduction", que foi apresentado no Lincoln Center, há dois anos atrás, disse que Sharma e Malhotra terão de atualizar o formato do estilo que procuram divulgar, assim como ele tem feito com seu show, se eles querem popularizá-lo. "Essa é a única maneira que a Índia irá apelar para o âmbito internacional", disse ele.

Sharma reparou que os papéis tradicionais estão mudando conforme a Índia passa por uma rápida modernização, e ele disse que se preocupa com a forma como essas mudanças poderão afetar a música. "A preservação é definitivamente a parte mais importante", disse ele.

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Atam Khan (E) e seu irmão Lakha escutam música folclórica em casa, em Raneri, Índia

Ele apontou para Lakhaji como sendo um exemplo disso. Seus filhos não aprenderam a tocar o sindhi sarangi, que é mais amplamente tocado pelos langas, outro grupo de músicos folclores no Rajastão - um abandonou o dholak, um tambor de duas faces, para trabalhar como motorista. Lakhaji disse que eles foram desencorajados pelos rigores do comércio da família, e por isso saíram à procura de outras oportunidades."Eles sentem que não irão fazer jus à música", disse ele."Desistiram facilmente."

Sharma e Malhotra disseram que não importa quanto tempo eles eles passem nas aldeias desertas ouvindo os mestres desse estilo de música, uma parte dessa valiosa tradição de séculos será inevitavelmente perdida. "Eles são guardiões da tradição oral, juntamente com sua própria história", Malhotra disse. "Está tudo guardado em suas cabeças. E 20 % disso se perde durante uma geração."

*Por Nida Najar

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