Apesar de sucesso que o aproxima da elite do futebol europeu, clube criado por ex-agente da KGB em região independente da Moldávia é envolto em segredos por seus diretores

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Trata-se de um clube de futebol do qual poucos ouviram falar, que fica em uma região do antigo império soviético ainda mais desconhecida. O Sheriff Tiraspol F. C., também conhecido como os campeões da Transnístria, foi criado por um ex-agente da KGB e joga em um lugar onde o contrabando ainda é bastante presente e estátuas de Lênin ainda são reverenciadas.

Imagens da União Soviética do lado de fora do clube do time Sheriff Tiraspol
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Imagens da União Soviética do lado de fora do clube do time Sheriff Tiraspol

Seus fãs costumam ser um pouco violentos e mal educados. Seus oficiais tratam detalhes básicos das operações do clube - até mesmo seu sucesso recente, que quase os fez se unir à elite do futebol da Europa - como algo confidencial.

"Na Transnístria, sempre há segredos", disse Mihai Sitnic, um jornalista esportivo da Fotbal.md, um site da Moldávia. "Eles não querem que ninguém saiba nada a respeito desse clube. Tudo é feito em segredo."

Na época que a União Soviética entrou em colapso, a Transnístria, uma pequena, sigilosa e autodeclarada república de 24 quilômetros de extensão, participou de uma guerra de independência com a Moldávia, uma antiga parte do Estado soviético, entre a Ucrânia ao seu leste e a Romênia a oeste. A Transnístria, que tinha mais coisas em comum com a Rússia, não queria fazer parte da nova nação da Moldávia.

Mas mesmo diante de todos esses impasses, o futebol conseguiu sobreviver. Apesar de a Transnístria não ser reconhecida por praticamente ninguém, incluindo o órgão do futebol europeu, o Sheriff Tiraspol F. C. joga na liga da Moldávia, apesar de toda a inimizade. E para o azar da Moldávia, ele continua ganhando. O Sheriff Tiraspol F. C. venceu 11 dos últimos 12 títulos do campeonato da Moldávia.

Disputa

Nas últimas semanas, o clube participou de um grupo de jogos de qualificação, na esperança de chegar à fase de grupos da Liga dos Campeões, onde estaria lado a lado com times peso pesados europeus, como Barcelona, Real Madrid e Chelsea. O Sheriff Tiraspol F. C. não conseguiu conquistar esse título, perdendo para o Dínamo Zagreb da Croácia. Mas ainda está competindo na Liga da Europa, uma competição de segunda linha, mas ainda de prestígio, onde jogará na quinta-feira contra a notável equipe francesa do Olympique de Marselha.

O Sheriff Tiraspol F. C. foi formado em 1997 por Viktor Gushan, um oficial da KGB, e faz praticamente parte da economia privada da Transnístria. As cores de seu uniforme preto e amarelo podem ser encontradas em quase tudo, desde supermercados até postos de gasolina e camisetas.

O dinheiro ajudou o Sheriff Tiraspol F. C. a se tornar o clube de futebol mais rico do campeonato moldavo, permitindo que contratasse talentosos jovens jogadores da África e da Sérvia. Seu estádio é considerado um dos melhores do Leste Europeu, uma construção altamente tecnológica, com um estádio de treinamento ao lado e um hotel com acomodações que não deixa nada a desejar às melhores equipes da Europa.

Marcel Metoua, jogador do Sheriff Tiraspol F. C., antes de entrar para jogar em Ghidighici, na Moldávia
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Marcel Metoua, jogador do Sheriff Tiraspol F. C., antes de entrar para jogar em Ghidighici, na Moldávia

"Cada clube da Europa quer promover o seu produto para o mundo, mas quando ligamos para o Sheriff Tiraspol F. C., eles não nos dizem nada", disse Sitnic, o jornalista da Moldávia.

A paranoia e comportamento suspeito da era Soviética ainda persistem na capital da Transnístria, onde ninguém - nem os fãs, jogadores, ou qualquer um na rua - fala a respeito do time. Até mesmo a mulher idosa que tocava acordeão perto da estátua de Lênin não queria falar sobre a vida na região. Em vez disso, ela guardou seu instrumento e sentou-se olhando para o outro lado.

*Por James Montague

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