Força excessiva e racismo marcam ação da polícia em regiões de Nova York

Levantamento mostra uso de violência durante abordagem de suspeitos; mais de 80% dos alvos de paradas em 2011 eram negros ou latinos

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Os bairros do oeste do Bronx, em Nova York, ganham vida à noite. Moradores, jovens e velhos saem para as ruas. Adolescentes vão para as quadras de basquete nos parques. Policiais das delegacias do distrito 44 e 46 patrulham as ruas e, de vez em quando, param para revistar os jovens, principalmente os negros e os latinos. E quando o fazem, de acordo com estatísticas, eles utilizam da força física com muito mais frequência do que em qualquer outro lugar da cidade.

O Departamento de Polícia da cidade de Nova York tem sido alvo de investigação nos últimos anos a respeito das disparidades raciais e da grande quantidades de revistas que fazem sob sua política de questionar e revistar, uma técnica de combate ao crime que permite que os oficiais parem pessoas que acreditam estar cometendo ou prestes a cometer um crime. No ano passado, a polícia parou um recorde de 680 mil pessoas, mais de 80% dos quais eram negros ou latinos. Um juiz federal aprovou este ano um processo de ação coletiva acusando o departamento de usar a etnia como base para as paradas.

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Policiais prendem homem por ouvir música muito alto no Bronx, em Nova York (04/08)

Mas o que muitas vezes passa despercebido é a frequência com que os policiais usam algum tipo de força física nesses encontros. Pessoas que foram paradas disseram que se demonstrassem sequer um pouco de resistência, mesmo verbalmente, eram jogadas contra a parede, forçadas a deitar no chão e, em ocasiões mais raras, até mesmo ter armas apontadas para suas cabeças.

A polícia usou algum nível de força física em mais de uma em cada cinco paradas em toda a cidade no ano passado, de acordo com uma análise de The New York Times. No oeste do Bronx, essa taxa mais que dobrou. No entanto, o alto nível de força raramente resultava em prisões, levantando dúvidas entre os líderes negros e latinos sobre os oficiais estarem tendo discernimento suficiente antes de fazer as paradas e até antes de recorrer à força.

Os quatro distritos que tiveram o maior uso da força - 32 em Upper Manhattan, 44 e 46 no Bronx e 115 em Jackson Heights, no Queens - incluem ou incluíram o que a polícia chama de "zonas de impacto", bolsões de violência para onde a polícia normalmente envia um grande número de oficiais, muitas vezes em sua primeira missão fora da academia, como um esforço para reprimir o crime. Segundo os moradores, essa combinação de colocar oficiais inexperientes nos piores bairros pode ser um dos motivos pelo qual o uso da força é tão excessivo. E os encontros, eles acrescentaram, embora aparentemente não resultem em lesões físicas, criam sentimentos duradouros de ressentimento e desconfiança em relação aos policiais.

"Acredito que às vezes muitos dos novatos que saem para as ruas não têm a formação adequada e por isso agem dessa maneira", disse Felipe Carrion, 42, que administra uma barbearia no Grand Concourse na Delegacia do distrito 44. "Eles na verdade estão é com medo de se machucar."

Os oficiais da polícia defendem as paradas como um fator eficiente para o combate ao crime. Eles minimizaram as conclusões do Times sobre o uso da força, dizendo que a única razão pela qual as quatro delegacias tiveram níveis tão elevados é porque os policiais preencheram um dos itens de um questionário que diz "mãos no suspeito" mais frequentemente do que eles são obrigados a preencher quando realizam paradas. Outras opções incluem "suspeito na parede" e "suspeito no chão."

Paul J. Browne, porta-voz chefe do departamento, disse que a opção de "mãos no suspeito" era uma categoria subjetiva que "pode ser preenchida em qualquer momento que a mão do policial entra em contato físico com o sujeito".

As autoridades policiais também apontaram para o fato de que as queixas apresentadas no ano passado para o Conselho de Revisão de Queixas Civis, um painel independente que investiga denúncias de força excessiva, atingiram seu nível mais baixo desde 2003, e apenas uma pequena fração daquelas queixas tinham algum tipo de argumento sólido. Mas muitas pessoas entrevistadas pelo Times disseram nunca ter ouvido falar do Conselho, ou não acreditar que reclamar iria resolver alguma coisa. Os entrevistados disseram que o uso da força raramente levou a lesões físicas.

O Times entrevistou dezenas de pessoas dos distritos 32, 44, 46 e 113 que contaram ter se deparado com contato físico por parte da polícia. Muitas das pessoas entrevistadas disseram ter sido paradas várias vezes sem nenhum tipo de força ter sido utilizada. Mas se eles apresentassem qualquer resistência, mesmo verbalmente, como perguntar por que eles estavam sendo parados, a polícia às vezes acabava se tornando mais violenta. Comprovar tais argumentos é difícil, pois a polícia não tem registros dos nomes das pessoas que foram paradas ou dos policiais que participaram.

A presença de esquadrões de impacto em áreas de alta criminalidade não é suficiente para explicar por que a força é usada tantas vezes em algumas delegacias. A Delegacia do distrito 73 em Brownsville, Brooklyn, tem a taxa mais alta da cidade de crimes violentos, e os moradores são parados pela polícia em quase três vezes mais que a taxa nos distritos 44 e 46. No entanto, a polícia usou força em apenas 14 % dos pontos em Brownsville no ano passado, bem abaixo da média da cidade.

O senador do Estado de Nova York, José R. Peralta, cujo distrito inclui a delegacia do 115, disse que estava preocupado com o elevado número de paradas que ocorrem na área. Mas ele disse que ficou surpreso ao saber, a partir de um repórter do Times, que muitos dessas paradas envolveram força física.

"Estas estatísticas são muito preocupantes", disse ele. A comunidade tem alguns bolsões de criminalidade, acrescentou, mas o montante global não corresponde "à quantidade de força que está sendo usada".

Por Ray Rivera

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