Fixação chinesa por medalhas de ouro nas Olimpíadas prejudica atletas

Competitividade que marca erá pós-promoção da amizade nos Jogos encabeçada por Mao Tsé-tung faz medalhistas se envergonharem quando levam prata ou bronze

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Quando Liu Xiang, astro chinês do atletismo, caiu no chão nos Jogos Olímpicos de Londres na terça-feira de 7 de agosto, após tropeçar na corrida de 110 metros com obstáculos, um locutor na emissora estatal chorou abertamente e os passageiros do metrô que se amontoavam em volta das telas de televisão localizadas nas plataformas ficaram horrorizados.

Lesão: Após drama em Pequim, Liu Xiang é eliminado ao cair em barreira

Mas em vez de a reação de raiva que Liu teve de enfrentar quatro anos atrás, quando uma lesão semelhante em seu tendão de Aquiles o obrigou a ir embora do Estádio Olímpico de Pequim pouco antes de a corrida ter começado, a maioria daqueles que utilizam o microblog mais popular do país reagiram com magnanimidade e bondade. "Eu acredito firmemente que Liu Xiang é o nosso herói", escreveu um usuário na Sina Weibo. "Ele foi, é e sempre o será."

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Queda de Liu Xiang em corrida com obstáculos é exibida em telão no centro de Pequim (7/8)

Dentro de uma hora após a queda dramática de Liu, milhões haviam publicados mensagens, a maioria delas de apoio e elogios. Se houve comentários de desagrado, esses foram direcionados ao governo chinês, com seu rígido sistema esportivo ao estilo soviético e uma fixação em ganhar medalhas de ouro.

"Com esse sistema esportivo opressivo, ele só tinha uma escolha: ganhar o respeito de todos e se machucar", um fã escreveu. Outro escritor chamou o tombo de uma "tragédia de toda uma geração."

De qualquer maneira, essa deveria ser uma época de celebração para a China. O país está à frente dos EUA na batalha por medalhas, e os jogos criaram um novo herói nacional, Sun Yang, o primeiro homem chinês a ganhar um ouro olímpico na modalidade de natação.

Comoção nacional:  Locutores da TV chinesa choram após queda de Liu Xiang

Mas, recentemente, uma onda de insegurança e introspecção sobre os custos humanos da proeza olímpica da China surgiu em meio a preocupações de que o sistema nacional de esportes draconiano às vezes produz bens danificados. Atletas machucados muitas vezes podem até mesmo serem eventualmente descartados - um fato que aconteceu no ano passado depois que um ex-ginasta vencedor de uma medalha de ouro foi encontrado mendigando nas ruas de Pequim. Segundo a mídia estatal, 240 mil atletas aposentados são vítimas de lesões, pobreza e desemprego.

História

A obsessão com a glória olímpica é compreensível, dada a história recente do país. Na primeira metade do século 20, intelectuais chineses chamavam seu país de "o homem doente da Ásia", lamentando sua incapacidade de produzir atletas dignos de competir em uma Olimpíadas. Pouco depois de fundar a República Popular da China, Mao Tsé-tung enviou uma delegação de 40 homens e mulheres para os Jogos de Verão de 1952 em Helsinki, Finlândia; todos com a exceção de um deles chegaram tarde demais para competir.

Dong-Jhy Hwang, um historiador do Instituto Superior de Educação Física da Universidade Nacional Esportiva de Taiwan, observou que durante muitos anos o espírito competitivo da China foi reprimido por Mao, que proclamou que, durante eventos esportivos internacionais, a amizade era mais importante do que a competição em si.

A mudança foi talvez melhor personificada pelo acontecimento na última semana com Wu Jingbiao, que chorou diante de uma equipe de filmagem chinesa e pediu desculpas por ter "envergonhando a pátria" depois de ganhar uma medalha de prata na modalidade de levantamento de peso masculina. Uma levantadora de peso feminina, Zhou Jun, 17 anos, foi taxada como sendo uma "desgraça nacional" por um jornal local depois de ter terminado em último lugar. (O jornal pediu desculpas depois de uma tempestade de indignação ter sido expressada por toda a internet.)

Tais episódios convenceram um número crescente de jornalistas esportivos, atletas e outros chineses de que há de haver outra maneira.

"Devemos tratar todos os medalhistas como iguais", disse Tan Jianxiang, um professor de esportes na Universidade do Sul da China. "Seja qual for a medalha, ganhar uma é sinônimo de grande honra."

David Yang, um escritor da revista Sports Illustrated da China, queixou-se que a maioria dos jovens chineses são focados em seus estudos e recebem poucas oportunidades para participar de esportes na escola. Ele pediu para que o governo abandonasse sua abordagem elitista na hora de fabricar atletas e abraçasse um sistema universal de atividade física que permitisse que as pessoas mais jovens pudessem experimentar as alegrias e benefícios de saúde gerados pelas atividades físicas.

"Ao reformar o sistema, podemos desencadear o potencial de 1,3 bilhão de chineses ganharem medalhas de ouro para o Estado ao mesmo tempo que estão fazendo algo para o seu bem-estar físico", ele concluiu.

*Por Andrew Jacobs

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