Moradores do sul dos EUA se dividem entre política e comida

Rede de restaurantes provoca polêmica ao fazer campanha contra casamento gay, mas tradição faz com que boicote seja decisão difícil para sulistas

iG São Paulo |

Alimentação sempre foi uma questão complexa no sul dos Estados Unidos, região que tem a culinária mais peculiar do país e muitas vezes envolve raça e religião em suas refeições.

E é por isso que para um sulista como Justin Breen o ato de comer ou não no restaurante Chick-fil-A não é simples. Para muitos se trata de escolher lados em uma guerra cultural que tem colocado as pessoas que apoiam a posição bíblica desta rede sobre a homossexualidade contra aquelas que não o fazem.

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NYT
Justin Breen come em restaurante da rede Chick-fil-A em Atlanta, nos EUA (02/08)

Para Breen, um jovem designer gráfico com muitas tatuagens, que usa um boné de beisebol e tem um melhor amigo na indústria da pornografia homossexual, os sanduíches de frango e as batatas fritas da cadeia transcendem todos os protestos e simbolismos políticos que foram levantados esta semana, após a divulgação de que a empresa doou dinheiro para o lobby contra o casamento homossexual.

"O Chick-fil-A faz parte de toda uma tradição", disse ele após a sua parada para tomar o café da manhã na lanchonete.

Tradição, seja em questões alimentares ou sociais, é algo que está profundamente interligada no dia a dia da vida do sul do país.

Restaurantes em cidades pequenas muitas vezes fecham mais cedo nas noites de quarta-feira para que os cristãos possam ir para suas aulas de coral e de estudo da Bíblia. Nesta região a exibição da bandeira confederada cria problemas que contrapõem ódio e patrimônio histórico, e igrejas ainda são racialmente segregadas, simplesmente porque é assim que as comunidades se dividem.

E os sulistas também tendem a ser emotivos quando se trata de sua comida, que é um dos grandes fatores que definem a região.

"Uma das histórias mais polêmicas que já escrevi foi sobre os sanduíches de tomate", disse Kathleen Purvis, a editora de comida do jornal The Charlotte Observer.

As pessoas desta região têm bastante orgulho e protegem marcas caseiras. A rede Chick-fil-A hoje possui 1,6 mil lojas e estendeu seu negócio para além das fronteiras do sul. Então, quando estranhos começam a criticar uma instituição de alimentos do sul, as coisas complicam.

"Somos os únicos americanos derrotados, pelo menos até o Vietnã", disse Purvis. "Os sulistas sempre tiveram a sensação de que todo mundo vive nos menosprezando, por isso precisamos defender o que é nosso."

Redes como a Chick-fil-A e a Waffle House, ambas fundadas na área de Atlanta em meados do século passado, têm fortes significados para os sulistas, pois fizeram parte de uma nova fase desta região do país, disse Marcie Cohen Ferris, que coordena o currículo acadêmico de estudos locais da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill e que está escrevendo um livro sobre a história social da comida no sul.

Recentemente, mais mudanças nos hábitos sociais tiveram seu efeito nas cadeias do sul. A Waffle House tem enfrentado disputas públicas sobre a maneira como tem tratado os clientes das minorias, e a Cracker Barrel tem sido alvo por suas práticas em relação aos negros, mulheres e empregados homossexuais.

Mesmo assim, existe um limite para quanta política um sulista consegue encarar quando se trata de seu almoço.

Shawn Morrison, 34, é um agente imobiliário em Atlanta e um amante de todo tipo de comida que vem do sul, seja um simples waffle da Waffle House ou um prato de truta da Geórgia com nhoque de amendoim em um dos restaurantes mais finos da cidade.

Ele não é particularmente religioso ou politizado, mas acompanhou os comentários feitos pelo presidente da Chick-fil-A, Dan T. Cathy, denunciando o casamento homossexual, que levaram a uma reação do público - centenas de manifestações foram planejadas ao redor de todo o país, com casais do mesmo sexo trocando beijos em frente a restaurantes da cadeia.

AP
Americanos observam beijo de Thear Grabiec e Sarah Shovan em frente à loja do Chick-fill-A em shopping de Toledo, Ohio (03/08)

Como muitos em Atlanta, ele respeita a família Cathy, que fundou o restaurante em um subúrbio de Atlanta, em 1946. Além dos milhões que doaram para combater o casamento homossexual, a família e a empresa sempre foram muito generosos com suas doações para caridade. As pessoas falam dos Cathys como se fossem realeza local, e o logotipo da empresa é uma parte da paisagem urbana de Atlanta comparável apenas ao logo da Coca-Cola.

Mas no final das contas, se trata de comida, disse.

É por isso que, depois de verificar com um amigo homossexual para ter certeza de que não o estava ofendendo, Morrison decidiu continuar comendo no Chick-fil-A. Claro, é fast food, mas segundo ele é um dos melhores sanduíches com gosto caseiro de restaurantes do tipo.

E acima de tudo, é do sul.

"Há algo sobre culinária do sul", disse ele, "que é incrível."

Por Kim Severson

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