Mulheres lutam contra assédio sexual em jogos online

Usuários e empresas dos EUA discutem formas de combater constrangimentos e agressões às participantes de comunidade de jogos virtuais

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Quando Miranda Pakozdi entrou no torneio do videogame "Cross Assault" este ano, ela sabia que não tinha muita chance de ganhar o prêmio de US$ 25 mil. Mas ela estava pronta para competir e prometeu a seus fãs que treinaria tanto quanto qualquer outro concorrente. No meio da competição, no entanto, o treinador de sua equipe, Aris Bakhtanians, perguntou na frente de sua webcam sobre o tamanho de seu sutiã, disse para ela tirar a blusa e colocou a webcam da equipe sobre seu peito, pés e pernas. Ele se inclinou sobre seu ombro e cheirou seu cabelo.

Miranda, 25, uma jogadora experiente, disse que sempre tem de lidar com algum tipo de flerte. Mas para a única mulher da equipe, isso foi longe demais, especialmente vindo de seu treinador. Foi depois que ela ouviu Bakhtanians defendendo o assédio sexual como parte da "comunidade dos jogos online" que ela desistiu de competir.

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Krystal Herring (centro) joga na internet em hotel de San Diego (14/07)

Machismo, racismo, homofobia e xingamentos em geral fazem parte do dia a dia do mundo dos jogos online. Mas o episódio do "Cross Assault" foi o primeiro de uma série este ano que expuseram a gravidade do assédio que muitas mulheres enfrentam nas comunidades de jogos virtuais.

Executivos desta indústria de US$ 25 bilhões por ano estão prestando atenção nestes acontecimentos. Um designer de jogos online solicitou uma reunião com executivos da Microsoft para discutir a melhor maneira de policiar os jogos online do Xbox Live. Em fevereiro, logo após o torneio do "Cross Assault", LevelUp, uma emissora de eventos de jogos através da internet, baniu dois comentadores que fizeram menções consideradas de assédio sexual em frente à câmera e emitiu um pedido formal de desculpas, incluindo declarações dos comentaristas.

Mesmo assim, Tom Cannon, cofundador do maior torneio de jogo de luta, o EVO, tirou o patrocínio de sua empresa da série semanal da LevelUp, dizendo que "não podemos continuar a permitir que este tipo de comentário ignorante e desrespeitoso continue sem punição". "Este tipo de coisa não é uma piada ou algo momentâneo", disse ele. "É algo que precisamos corrigir."

Bakhtanians, cujas ações durante o torneio de "Cross Assault" foram capturadas em vídeo, mais tarde emitiu uma declaração na qual pedia desculpas caso tivesse ofendido alguém. Ele também culpou "minha incapacidade de, no calor do momento, defender a mim e a comunidade que eu tenho amado há mais de 15 anos."

Mas as questões levantadas pelo episódio do "Cross Assault" receberam mais atenção com a campanha realizada por Anita Sarkeesian em maio. O objetivo era arrecadar US$ 6 mil na plataforma de criação de projetos Kickstarter para documentar como as mulheres são retratadas no mundo dos videogames. Suas páginas no YouTube e Facebook foram imediatamente inundadas com comentários abusivos. As pessoas tentaram invadir suas contas online. Ela recebeu ameaças pessoais.

Anita reagiu documentando todo o assédio que sofreu, publicando todas as falsas imagens pornográficas que seus detratores haviam criado dela. Os defensores de seus esforços, horrorizados, doaram mais de US$ 150 mil, deixando seus críticos ainda mais furiosos. Um homem de Ontário criou um jogo online onde os jogadores podiam dar socos, ferindo sua imagem até que a tela ficasse vermelha com sangue.

"A indústria dos videogames realmente está num processo de mudança", disse Sarkeesian. "Isso é uma coisa realmente positiva, mas acho que há um pequeno grupo de jogadores do sexo masculino que sente que os jogos pertencem apenas a eles e que tem medo de ter de enfrentar essa mudança."

As mulheres relatam maiores níveis de assédio em jogos mais competitivos que envolvem estranhos. Algumas abandonam o jogo anônimo para participar de comunidades mais seguras ou "clãs" onde o bom comportamento é a norma.

Em comunidades de outros jogos, no entanto, ameaças sexuais, insultos e flertes são comuns, assim como a crítica de que a presença das mulheres é "perturbadora" ou que elas estão simplesmente tentando atrair atenção para si mesmas. Alguns jogadores até mesmo chegaram a oferecer dinheiro ou "ouro" virtual para fazer sexo online. Algumas foram perseguidas tanto online quanto pessoalmente.

James Portnow, um designer de jogos que já trabalhou em títulos como "Call of Duty" e "Farmville", escreveu um episódio sobre assédio sexual para sua série transmitida pela internet chamada "Extra Credits” (Créditos Extra, em tradução literal). Nele, o narrador disse: "Hoje, é como se tivéssemos dado aos valentões da escola acesso a um microfone para que todo mundo escute o que eles têm a dizer. Está na hora de tirar o microfone deles."

No final do vídeo, os espectadores são incentivados a enviar emails à equipe do Xbox Live da Microsoft, pedindo mudanças nas ferramentas de comunicação e melhorias nos sistemas de cadastros e informações.

Depois de ouvir os jogadores, a Microsoft chamou Portnow e o convidou para uma reunião em sua sede. Ele se reuniu com uma equipe de executivos, incluindo um vice-presidente, durante quatro horas, e discutiram como a Microsoft estava desenvolvendo algoritmos melhores para coisas como o bloqueio automático dos infratores. A Microsoft confirmou que está trabalhando para melhorar suas ferramentas disponíveis para a comunidade online.

"Durante muito tempo, as pessoas viram o mundo dos videogames como um passatempo infantil e nós, como uma indústria, também apoiávamos esta ideia", disse Portnow, que irá falar em um painel numa convenção de jogos no final deste mês chamado de "O fim do assédio nos jogos".

"Mas isso já não se aplica ao mundo atual", acrescentou. "Somos um meio de massa real e acabamos exercendo um efeito sobre a cultura. Temos que dar um passo além dessa ideia de que nada do que podemos fazer pode ter um efeito negativo ou até mesmo machucar as pessoas.”

Por Amy O'Leary

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