Moradores de prédios em torno do High Line, em NY, se adaptam à vida na vitrine

Em determinados trechos da atração, uma passarela elevada transformada em parque, visitantes conseguem 'espiar' dia a dia dos 'vizinhos'

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Os visitantes do High Line, uma passarela elevada transformada em parque em Nova York, muitas vezes ficam maravilhados com a vista que o local proporciona: panorâmicas do rio Hudson e um horizonte que vai até a Décima Avenida. Mas nos últimos meses, em uma de suas seções perto da rua 23, uma paisagem urbana doméstica um pouco mais intimista foi notada.

Numa seção do parque com bancos e um gramado aconchegante, vários prédios residenciais cercam o local de cada lado. Três deles são recém-construídas torres de vidro e aço que apenas começaram a ser habitadas - o mais importante deles, o elegante HL23 do arquiteto Neil M. Denari, está tão perto da passarela que é como se os visitantes do parque estivessem dentro de um dos apartamentos que custaram milhões de dólares.

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Visitantes do High Line, em NY, conseguem espiar dia a dia de moradores de prédios vizinhos (28/07)

Pierre Salamon, que mora no Marais, um outro edifício que fica ao lado desta seção do parque, disse que se trata de "uma nova cidade secreta esperando para ser descoberta". Isso o faz sentir, disse ele, "como se estivesse enxergando uma outra dimensão do bairro de Chelsea". "Faço questão de absorver cada minuto dessa sensação", afirmou.

Annik La Farge, que escreveu um livro sobre o parque chamado "On the High Line", tem vista para esta seção do parque de seu escritório e das janelas de sua sala no Edifício Spears. O espaço torna-se mais impressionante, segundo ela, através do caminho estreito e arborizado que o precede, conhecido como o Chelsea Thicket. "A área vai de mato denso e sombrio a um gramado, aberto e ensolarado", disse La Farge. "E, em termos mais humanos, vai de um espaço muito particular para um bastante público."

Embora o voyeurismo ocasional ao longo da High Line (já apelidade de “Pry Line", ou Linha dos Curiosos) venha acontecendo desde que o parque foi inaugurado há três anos. Os moradores de novos edifícios como o HL23, o Ten23 e o 245 Tenth são diferentes dos outros da High Line em pelo menos um aspecto: eles se mudaram para este local sabendo que estariam sendo observados.

Milhares de pessoas passam por ali todos os dias e, sem dúvida, se perguntam quem vive nestes apartamentos. Mas o que os residentes veem? Como é a vida do outro lado do vidro?

Conversamos com pessoas que vivem no HL23, no Ten23 e no 245 Tenth e em dois outros prédios, os edifícios Spears e Marais, que antecedem o High Line, mas são essenciais na paisagem desta seção do parque.

Propper, 37, um executivo de um pequeno banco de investimentos e ativista de direitos humanos, disse que comprou a unidade de 250 metros quadrados depois de uma longa caçada, pois não parecia estar acima da High Line e sim praticamente nela. "Você está vendo aquela grama lá fora?", perguntou. "Parece que estou praticamente andando nela."

Valevich, 25, que trabalha para o site Artinfo.com, disse que esteve consciente disso mesmo durante a fase de decoração. Na sala de estar, por exemplo, ela pendurou um lustre elegante branco e dourado acima da mesa de jantar de madeira de olmo, disse, sabendo que seria visível para qualquer pessoa na High Line.

"Se as pessoas quiserem, elas com certeza conseguem nos ver", disse. "Por que então não tentar dar ao nosso apartamento um pouco de estilo?"

Alguns moradores dos apartamentos do Ten23, um prédio de 12 andares que abriu em janeiro, estão tão perto da High Line que os inquilinos conseguem praticamente “tocar os visitantes”, brincou Faryd Marin, consultor sênior do edifício. Mas até mesmo as unidades um pouco mais afastadas do parque são fáceis de se enxergar. Os moradores desses apartamentos com face oeste tiveram diferentes reações à vida em um aquário.

David Farhi, 25, dono de uma galeria que aluga uma unidade no 10º andar, disse que fez um teste antes de se mudar. "Percebi que a High Line estava realmente próxima", disse ele. "Então desci, andei por lá várias vezes durante o dia enquanto olhava para o meu apartamento." Ele ficou aliviado de não ter conseguido enxergar muita coisa da passarela.

Já no Marais, a história é um pouco diferente. Às vezes, Patrick Proctor parece ser o Homem Invisível. O apartamento de Proctor tem uma varanda virada para a face sul, que está suspensa sobre os trilhos da High Line, a uma curta distância do parque.

Proctor é uma testemunha da vida na High Line. De sua varanda, ele assistiu a um filme de surfe projetado em uma parede do outro lado dos bancos do parque e também acompanhou adolescentes entrando no parque após seu horário de funcionamento. Na primavera passada, ele até mesmo pode presenciar um casal tendo relações sexuais no local.

Poucos andares acima, Salamon testemunhou uma linda demonstração de afeto de sua varanda do oitavo andar: uma proposta de casamento. "O noivo tirou uma aliança de dentro de um vidro, daqueles que só se vê em museus", disse Salamon. "Foi tudo muito bem preparado."

Salamon, 42, comprou seu apartamento com sua parceira há dois anos atrás, antes de esta seção da passarela ser concluída. Um ex-planejador urbano que virou gerente de marca para uma empresa, ele observava com interesse à medida que trabalhadores colocavam tubos de irrigação e terra no local. Mais recentemente, viu a instalação da escultura feita pelo artista Charlie Hewitt, intitulada "Urban Rattle ", que também atrai muitos visitantes ao local. "Quando trabalho de casa, me sento na varanda e adoro ficar olhando as pessoas passarem", disse.

Embora ele não se comunique com seus vizinhos dos prédios ao redor, Salamon acredita que eles compartilham um vínculo em comum. "Somos moradores dos prédios da High Line", disse. "Isso sem dúvida faz com que tenhamos algo em comum."

Por Steven Kurutz

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