Nova Orleans refina seus bares

Elementos da cultura crioula se misturam à modernidade na arte de fazer drinks e atraem clientes e bartenders de outros lugares dos EUA, como Nova York

NYT |

NYT

Fique na frente do Hotel Modern, na região de Nova Orleans conhecida como Lee Circle, e você irá se deparar com diversas opções de bares. Caminhando para a direita, você encontrará uma seleção de coquetéis contemporâneos com sabores asiáticos para complementar a cozinha do restaurante franco-vietnamita Tamarindo. Vire à esquerda para o Bellocq e você poderá experimentar um coquetel com bolo e sorvete que foi muito popular em meados dos anos 1800 e que hoje é o cartão de visita desse novo bar.

Pós-Katrina:  Nova Orleans ganha obras de infraestrutura contra tempestades

O Modern, que reabriu no ano passado depois de uma reforma, consegue capturar o súbito avanço na cultura de coquetéis de Nova Orleans, cidade que sempre encontrou novas e criativas maneiras para se beber, mas sem perder sua tradição. No processo, a cidade se tornou um destino imperdível para os bartenders e seus fãs, especialmente aqueles que moram na cidade de Nova York.

NYT
Abigail Gullo serve clientes no bar SoBou, em Nova Orleans

Durante as décadas de 70 e 80, quando a vodca invadiu os bares americanos e os drinques se tornaram mais desleixados, Nova Orleans se manteve fiel à tradição. Muitos donos de bares da cidade garantiram que não desistiriam de continuar fazendo coquetéis clássicos como o Sazerac e o Ramos gin fizz.

Mas à medida que o movimento dos coquetéis artesanais começava a invadir centros urbanos como Nova York e São Francisco, Nova Orleans parecia continuar com sua tradição de viver no passado, sua cultura de beber continuou sendo comparada pelo padrão de bares como o Casa de Napoleão e o Tujague, além da libertinagem que tomava conta da Rua Bourbon.

Modernidade

Então, em 2003, nasceu o bar Swizzle Stick, um local que visava um estilo de mixologia mais moderno, anexo ao Café Adelaide. O bar Cure, que abriu em 2009, elevou o patamar ainda mais, dando aos moradores do bairro de Freret criativos coquetéis à base de bitters italianos, sal e outros ingredientes improváveis. Hoje, a cidade está vivenciando um boom de bares locais para se tomar coquetéis, como o Sobou e o Maurepas Foods, dois restaurantes onde o menu do bar é tão importante quanto a comida.

Alguns desses menus são feitos por bartenders que se mudaram para Nova Orleans após terem construído uma carreira de sucesso em Nova York, atraídos pela atmosfera descontraída, sua rica história e uma cena de coquetéis que oferece mais oportunidades para se destacar .

Abigail Gullo, que foi embora do bar Fort Defiance, no Brooklyn para colaborar com Lu Brow no Swizzle acredita que a tendência "diz muito sobre Nova Orleans, mas mais sobre Nova York."

"Nova Orleans é um lugar muito emocionante para se estar no momento", disse ela enquanto atendia aos participantes da Tales of the Cocktail, uma convenção anual de entusiastas e profissionais do mundo da bebida que acontece na cidade. "Eu enxergo isso como se tivesse voltado às raízes ao encontrar outra cidade como Nova York, que adora comer, beber e nunca perdeu a vontade de encontrar aquele lugar mágico entre a casa e o trabalho, onde as pessoas possam socializar."

Os mixologistas de Nova York são conhecidos por levar seu trabalho muito a sério. Isso não é um problema em Nova Orleans. No Maurepas Foods - o restaurante onde Brad Smith, de Minneapolis, criou um menu de coquetéis que faz uso abundante de produtos sazonais - uma das bebidas tem um nome semiprofano que parece indicar uma variação do Cosmopolitan. Na verdade, ele possui uma dose do bourbon Old Grand-Dad.

Interação

No Six Mile-Limit - um bar no bairro de Mid-City, que foi assumido pelo barman T. Cole Newton em 2010 e recebeu uma renovação impressionante em sua carta de coquetéis - os clientes são convidados regularmente a "escolher o nome dos coquetéis". Os ingredientes de uma nova criação são escritos em uma lousa e ficam lá até que alguém crie um nome adequado para a mistura.

Às vezes, a nova criação ganha um lugar permanente no menu, como com o Mantis, uma combinação de rum, bitter italiano Branca Menta, calda de amêndoa e suco de limão que tem gosto de um delicioso enxague bucal. (Os coquetéis do Six Mile-Limit não são apenas bons, eles são também baratos, variam de US$ 6 a US$ 8.)

O Sobou e o Bellocq, que abriram respectivamente em julho e dezembro, fazem o melhor para honrar a cultura de bebida de Nova Orleans. "Somos um salão moderno da cultura crioula", disse Abigail. "Nós queríamos unir diversão, bebidas acessíveis e coquetéis com um contexto histórico".

NYT
Bartender, ou mixologista, Kirk Estopinal, responsável pela nova lista de drinks do Bellocq

A prova disso foi a criação do coquetel chamado de Taylor Bird Sazerac, que utiliza duas das bebidas prediletas de Nova Orleans - uísque de centeio e conhaque - juntamente com Steen, um xarope de cana local.

A longa lista dos drinks do Bellocq (que foram criados por Kirk Estopinal e Neal Bodenheimer) tem como principal atração o clássico xerez. Mas também estão disponíveis os Chartreuse Amarelo (temperado com pimenta jalapeño), Madeira, o aperitivo françes feito com Bonal (realçado por um toque de toranja) ou Sauternes, quase todas eles servidos em copos de prata indiana resfriados. Na verdade, os garçons conseguem misturar qualquer bebida disponível no bar e utilizá-las na receita de seus drinks.

"Hoje quando eu olho para qualquer bebida, logo penso em utilizá-la para fazer um drink", disse Nick Detrich, o gerente do bar.

Um drink com o destilado alemão Jagermeister? Talvez seja possível. Na cultura de bebida de Nova Orleans, tudo é sagrado, e ao mesmo tempo não é.

*Por Robert Simonson

    Leia tudo sobre: nova orleanseuadrinkbarbebermixologistabarmanbartender

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG