Exposição em NY mostra diferentes visões sobre infância ao longo do século

Mostra no MoMA traz  móveis, brinquedos, jogos, cartazes e livros para relembrar tratamentos e valores atribuídos às crianças, que já foram consideradas pequenos adultos

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Dizem que a infância é uma invenção recente. As crianças costumavam ser tratadas como pequenos adultos. Educação significava disciplina e punição.

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Depois veio o século 20 e a ideia de que as crianças são fundamentalmente diferentes dos adultos, e que deveriam ser tratadas como tal. A criança ideal, uma criatura de potencial fantástico, tornou-se um símbolo inspirador para o futuro, e o cuidado e educação das crianças mexeu com as mentes dos grandes pensadores, incluindo muitos nos campos da arte e design.

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Exposição traz o programa de televisão 'Pee-Wee's Playhouse', que foi exibido de 1986 a 1991

“Century of the Child: Growing by Design, 1900-2000" (Século da Criança: um Crescimento Através do Design, 1900-2000, em tradução livre), é uma exposição maravilhosa que tomou o Museu de Arte Moderna de Nova York. Ela examina a intersecção entre o design modernista e o pensamento moderno sobre as crianças.

Um estudo rico e instigante sobre um grande tema, ela é repleta de coisas interessantes de ver: cerca de 500 itens que incluem móveis, brinquedos, jogos, cartazes, livros e muito mais.

Juliet Kinchin, curadora do departamento de arquitetura e design do MoMa, que organizou a exposição juntamente com Aidan O'Connor, um assistente curatorial, observa em sua introdução no catálogo da exposição que nenhum período da história humana demonstrou tanta preocupação com as crianças como o século 20.

Mas contradições aparecem: "elástica e poderosa, a figura simbólica da criança tem mascarado aspectos paradoxais da condição humana no mundo moderno", escreveu Kinchin. "Quanta liberdade é positiva e quanto controle é necessário são questões que falam não apenas sobre as crianças, mas também sobre pessoas em qualquer lugar do mundo que experimentam um momento de declínio dos valores tradicionais e amplia as possibilidades para novas formas de ser.”

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Brinquedo projetado por Vit Grus na exposição do MoMA, em Nova York

O que é necessário para que as crianças se desenvolvam para se tornar membros adequados à sociedade? A maneira como essas questões podem ser respondidas depende do que um indivíduo pensa sobre qual é a natureza essencial de ser uma criança. Implicitamente, se não abertamente, uma imagem diferente da criança preside em cada uma das sete seções cronologicamente dispostas na exposição.

Disposição

No início da exposição, nos deparamos com o que pode ser chamado de criança racional-criativa, que, dado o direito material para brincar e algumas orientações lógicas, se transformará em uma pequena arquiteta. Nesta seção, encontram-se kits para a criação de projetos de duas e três dimensões desenvolvidos por Friedrich Froebel, o fundador do movimento do jardim de infância no início do século 19. Um kit de ferramentas de ensino com objetos não-representacionais de diversas formas criados por Maria Montessori são mais coloridos e convidativos, mas também se baseiam no entendimento de que as coisas enormes e complicadas são normalmente feitas de pequenas coisas que seguem regras simples.

Passando para a era pós-Primeira Guerra Mundial, uma outra visão da infância entra em vigor sob o título "Avant-Garde Playtime” (Hora de Brincar de Vanguarda, em tradução livre). Nesta seção, um dos objetos mais reveladores é uma pintura chamada "A Criança Má" (feita em torno de 1924), um painel decorativo para o quarto de uma criança feito pelo ilustrador e designer Antonio Rubino. Feito em um estilo retro-vitoriano que retrata um menino em um momento de raiva cercado por um elenco ameaçador de personagens de contos de fadas.

A moral desse painel pode ser que a criança atormentada por essas criaturas fictícias pode acabar se tornando um monstro. Com sua natureza irrepreensivelmente energética e lúdica, as crianças precisam de espaço para expressar seus impulsos e sua imaginação, que é algo que nem sempre se alinha com as críticas burguesas de comportamento dos adultos.

Essa versão da criança pode ser vista como um reflexo do próprio desejo do artista de vanguarda de lançar pesadas convenções estéticas e morais. (E para celebrar seus próprios poderes. Essa era uma época em que a ideia da criança como um gênio criativo puro cativou artistas como Klee, Miró e Picasso).

Por isso, pode não ser tão surpreendente saber que o pintor futurista Giacomo Balla criou peças de mobiliário infantil como um simples guarda-roupa de madeira, de pé fincado no chão por um par crianças feitas de recortes de papelão. Nesta seção também pode-se encontrar cadeiras e mesas infantis por artistas do movimento De Stijl, incluindo um carrinho de mão em miniatura feito por Gerrit Rietveld.

Outra visão

Uma abordagem oposta à infância entra em cena na década de 1930 à medida que engenheiros sociais fascistas na Alemanha e no Japão começaram a enxergar as crianças como matéria-prima para ser moldada em engrenagens para máquinas industriais e militares. Uma seção um tanto sinistra sobre esses desenvolvimentos, refletido em fotografias, cartazes e livros infantis, é destacada por quimonos surpreendentes feito para as crianças japonesas estampados com imagens de aviões, bombas e canhões.

A consciêntização das necessidades das crianças e a melhor maneira de atender a elas expandiu em todas as direções após a Segunda Guerra Mundial. A saúde e a higiene tornaram-se preocupações, e os designers foram chamados para criar não apenas brinquedos mais construtivos e mobília funcional, mas edifícios escolares que pudessem fornecer luz, ar e espaço que os jovens precisavam para crescer com corpos e mentes sãs. A criança racional-criativa, a criança, a brincalhona rebelde, todas essas foram substituídas pela criança saudável, que seria um conceito mais receptivo para uma nova era de conformidade nos anos 50.

Então veio o consumismo e o advento da criança carente, impulsionados pelo ato de querer e desejar que ela não sabia que tinha, até que foram acionados pelos meios de comunicação de massa. Desde trajes de astronautas e de armas de laser de plástico nos anos 60 ao Game Boy da Nintendo de 1989, os designers e fabricantes alimentaram as vontades juvenis com desenvoltura predatória.

As contradições da infância contemporânea são vistas com mais ênfase em uma exposição de adereços criados pelo artista Gary Panter para o programa de televisão "Pee-Wee’s Playhouse" (1986-1991), dispostos em torno de uma projeção de vídeo de um episódio do programa. Rodeado por simpáticos personagens como Globey, um globo do mundo animado, e Chairy, uma cadeira de pano com um olho grande, o homem-criança Pee-wee, interpretado pelo ator Paul Reubens, assemelha-se a uma versão mais feliz do vilão de Rubino.

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Personagens do programa de TV ‘Pee-wee’s Playhouse’ ajudam a falar sobre infância no MoMA

Ele vive em um mundo artificial sem supervisão de adultos, onde quase todas suas fantasias se tornam realidade. No entanto, ele está constantemente atormentado por seus próprios desejos e frustrações. Ele é por excelência o consumidor infantilizado e, em seu desempenho maliciosamente inteligente como apresentador de um programa infantil, ele é também uma espécie de artista pop pós-moderno, brincando subversivamente com a semiótica do entretenimento de massa.

A exposição termina com uma nota triste, com uma breve seção sobre playgrounds, que inclui um modelo para um playground rústico idealizado pelo escultor Isamu Noguchi, em 1961. Projetistas de parques infantis nos últimos anos têm sido frustrados pelas exigências cada vez mais rigorosas para a segurança das crianças. Mas como é possível dar às crianças a liberdade para explorar e testar suas capacidades e ao mesmo tempo minimizar seus riscos e ações judiciais? A imagem de uma criança vulnerável, assombra a consciência das pessoas hoje mais do que nunca, à medida que as crianças brincam cada vez mais com jogos online, em realidades virtuais muitas vezes desagradáveis, onde estranhos com más intenções são facilmente encontrados. E o tema da criança que é perigosa para os outros?

Essas questões estão apenas começando a se tornar mais complicadas, e os desafios para os designers do século 21, cada vez mais assustadores.

*Por Ken Johnson

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