Estudo sugere que mãe de Obama tem raízes africanas

Empresa de genealogia acredita que presidente dos EUA é descendente de um dos primeiros escravos africanos registrados no país

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A biografia do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, filho de um negro do Quênia e uma branca do Kansas, sempre sugeriu que seus antepassados não tinham sido escravos, ao contrário da maioria dos afro-americanos.

Agora, uma equipe de genealogistas está mudando essa concepção, dizendo que a mãe de Obama teve, além de seus antepassados europeus, pelo menos um ancestral africano, e que é bem provável que o presidente seja descendente de um dos primeiros escravos africanos documentados nos Estados Unidos.

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Mark Bunch, cuja família pode estar ligada à do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama (16/07)

Os dados são do site Ancestry.com, de uma empresa de genealogia com sede em Provo, Utah. Embora a equipe não tenha evidências definitivas, disse ter provas que "sugerem fortemente" que a árvore da família materna de Obama possui raízes que vão até quase quatro séculos chegando a um escravo da Virgínia colonial chamado John Punch.

Em 1640, Punch, um trabalhador escravo, escapou da Virgínia e foi para Maryland. Lá foi capturado e, junto com dois servos brancos que também haviam escapado, foi levado a julgamento. Sua punição - servidão por toda a vida - foi mais rígida do que a punição dada aos servos brancos, e levou alguns historiadores a considerá-lo o primeiro afro-americano a ser legalmente sancionado como escravo, anos antes de a Virgínia ter aprovado leis que permitiam a escravidão.

Segundo historiadores, havia um comércio de trabalho humano tanto de negros quanto de brancos na região durante este período da história americana. Havia também alguns negros livres.

Por volta de 1617, empregados contratados eram comprados e vendidos, assim como os devedores, na região da baía de Chesapeake, segundo Ira Berlin, professor e especialista em história da escravidão da Universidade de Maryland. Mas embora essas pessoas estivessem vivendo em uma condição de vida “não livre", os historiadores não conseguem definir exatamente qual foi a data do início do comércio de escravos.

"O que torna o caso de John Punch interessante é que ele certamente foi um escravo", disse Berlin, que não participou da análise dos ancestrais do presidente.

A equipe do Ancestry.com utilizou uma análise de DNA para fazer a conexão, além de vasculhar certidões de casamento e de propriedade para rastrear os ancestrais maternos de Obama até a época e o lugar em que Punch viveu. A empresa disse que os dados sugeriram que Punch teve filhos com uma mulher branca, que passou sua condição de pessoa livre para seus filhos, dando origem a um nome de família ligeiramente diferente, os Bunches, que finalmente deram origem à mãe de Obama, Stanley Ann Dunham.

Estes resultados coincidiram com um período em que cada vez mais americanos estão descobrindo sua própria herança mestiça. Elizabeth Shown Mills, ex-presidente da Sociedade Americana de Genealogistas, disse que a internet e a facilidade de se fazer testes de DNA aumentaram o interesse de amadores e profissionais e estão ajudando a revelar a extensão da miscigenação racial ao longo dos séculos.

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A equipe do Ancestry.com passou dois anos examinando o passado da mãe de Obama, com foco na linhagem mestiça da família Bunch. Os pesquisadores disseram que ao longo do tempo, à medida que os Bunches iam se casando, eles eventualmente se tornaram proprietários de destaque na Virgínia colonial, uma família de tradições e posição tradicionalmente caucasianas.

Não há evidências de que Dunham tivesse qualquer suspeita de que ela poderia ter ascendência afro-americana, disse Janny Scott, sua biógrafa. Em meados de 1800, de acordo com um artigo de 2007 do jornal The Chicago Sun-Times, um dos antepassados da família Bunch de Dunham teve um filho que lutou pela Confederação na Guerra Civil.

Mas a pesquisa deixou em aberto uma questão: Será que John Punch foi de fato um ancestral da família Bunch? Por causa da destruição de registros históricos pertinentes, não há nenhuma evidência definitiva.

Ainda assim, alguns fatores convenceram a equipe de que o primeiro presidente negro da nação é descendente de Punch: os sobrenomes são semelhantes, há evidências de DNA mostrando que os Bunches tiveram descendência africana subsaariana e um número muito pequeno de africanos vivia na Virgínia em meados dos anos 1600.

A equipe compartilhou suas descobertas com o The New York Times, que consultou dois genealogistas independentes - Mills, especialista em genealogia da região sul do país, e Johni Cerny, especialista ancestralidade negra - sobre as descobertas. Ambos disseram que não é possível ter certeza da conexão de Punch com a família Bunch. Mas ambos também disseram que a equipe do Ancestry.com tinha em suas mãos um caso consistente.

"A pesquisa em si é muito boa", disse Mills, que também analisou os resultados a pedido da equipe do Ancestry.com. "As letras P e B não têm sentido nenhum dentro de um contexto histórico. O que importa é a evidência histórica que pode ser reunida para colocar as mesmas pessoas na mesma região. "

Cerny foi um pouco mais cético, mas disse que a formulação cuidadosa da pesquisa foi adequada.

Um dos motivos pelo qual a equipe do Ancestry.com conseguiu fazer a ligação foi o fato de a família Bunch manter um banco de dados online que traça sua árvore genealógica.

Ele é complementado por testes de DNA que mostram que os homens da família têm marcadores genéticos consistentes com ascendência africana subsaarianas. O relatório do site Ancestry.com disse que o perfil de DNA dos Bunches era comum no Camarões.

"Me considero branco, mas acabei descobrindo que as minhas raízes mestiças existem devido a meus antepassados", disse Mark Bunch, que administra o projeto da família.

Bunch, 53, diretor financeiro de um hospital comunitário na cidade agrícola de Otelo, no leste do Estado de Washington, soube do projeto há vários anos a partir de um primo. Ele comprou um kit caseiro de teste de DNA, limpou o interior de sua bochecha três vezes e enviou-o para análise. A resposta – um mapa genético que inclui raízes subsaarianas africanas – o pegou de surpresa. Depois veio outra surpresa: Obama era seu primo distante.

“A maior surpresa foi meu cromossomo Y africano”, disse. “A relação com o presidente Obama é a cereja no topo do bolo. "

Por Sheryl Gay Stolberg

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