Combatentes sírios tomam conta de região turística da Turquia

Rebeldes que lutam contra Assad buscam abrigo e cuidados médicos na pitoresca cidade turca de Antakya, prejudicando turismo

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As pessoas costumavam chamar a região sudeste da Turquia de "Toscana com minaretes". A área ao longo da fronteira com a Síria é uma de suas regiões mais pitorescas, onde é possível encontrar oliveiras e as montanhas são repletas de riachos com água cristalina. Durante a manhã, mulheres idosas descem as colinas para comprar damascos no mercado. À noite, os turistas passeiam ao longo das ruas de paralelepípedos em busca de simit, um pão parecido com um bagel, ou de uma bola de sorvete de limão.

Mas há uma onda de novos visitantes: combatentes sírios. Não é raro ver rebeldes mancando pela cidade de Antakya apoiados em muletas, e inúmeros apartamentos em toda esta área foram transformados em clínicas improvisadas para jovens homens cuidando de seus ferimentos.

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Baleado, o sírio Mulham al-Masri recebe tratamento em clínica improvisada em Antakya, na Turquia (25/07)


Os serviços de segurança turcos insistem que estão patrulhando com cautela a fronteira de 885 quilômetros. Mas cada vez mais suprimentos médicos, material e combatentes penetram a fronteira todas as noites, tornando esta encantadora e pitoresca região da Turquia na base mais importante para a rebelião síria.

A guerra civil da Síria está se tornando um problema de segurança nacional para a Turquia. Além da tensão de estar hospedando mais de 40 mil refugiados – que as autoridades turcas disseram inicialmente ser um número administrável, mas que agora está "criando problemas" – um posto na fronteira com a Síria recentemente caiu nas mãos de um grupo ligado a Al-Qaeda, e cerca de uma dúzia de lutadores líbios com barbas cerradas e mochilas pretas foram recentemente vistos rondando o principal hospital de Antakya, aguardando por seus "irmãos” feridos.

Parece que Antakya está se tornando um ímã para jihadistas estrangeiros, que estão migrando para a Turquia para se recuperar e lutar uma guerra santa na Síria.

Quando questionado há poucos dias sobre se a Turquia iria atacar a Síria caso militantes curdos utilizassem a Síria como base, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse: "Caso isso aconteça, com certeza."

A Turquia quer ser uma integrante ativa no cenário global. Sua economia está crescendo, evidenciada pelos intermináveis novos blocos de apartamentos com antenas parabólicas que estão sendo construídos na região. Os turcos até mesmo se aventuraram recentemente na Somália, onde tentaram estabelecer uma base de influência turca e negócios em toda a África.

Mas o conflito com seu país vizinho não oferece respostas fáceis. O governo turco tentou ser amigável com Assad, pedindo para que ele fizesse uma reforma. Quando se recusou, a Turquia abriu as portas para o Exército de Libertação da Síria, o grupo rebelde obstinado, mas incipiente, cujos líderes operam a partir de um acampamento fortemente vigiado dentro da Turquia, perto da fronteira. Os turcos têm sutilmente tentado administrar eventos na Síria, levando a oposição a se unir, sediando várias reuniões com líderes rebeldes e ajudando-os a obter armas. Mas eles estão com medo de se envolver cada vez mais na questão.

Em Antakya, a comoção está aumentando cada vez mais - em ambos os lados. Esta é uma cidade turística, conhecida por suas ruínas, suas antigas igrejas e um museu que abriga uma das melhores coleções de mosaicos romanos e bizantinos do mundo. A terra desta região é bastante fértil e produz azeitonas, cerejas, enormes melões doces e possui uma culinária reconhecida em todo o país por ser especialmente inovadora e fresca.

Abdulmecit Ercin, um corretor de seguros e nativo de Antakya, lembra-se de todos os ônibus de turistas que costumavam chegar na cidade. Mas desde o início do conflito na Síria, e do fato de a fronteira ter sido parcialmente fechada, os ônibus desapareceram.

Muitos dos rebeldes sírios, quando perguntados sobre o motivo de terem desertado, responderam com a mesma palavra: "atfal", árabe para crianças. "O governo está matando crianças", disse Mulham al-Masri, um ex-capitão do Exército sírio que desertou há alguns meses.

Ele disse que havia planejado sua fuga durante semanas, comunicando-se com um primo no Exército de Libertação da Síria via celular e, em seguida, saindo de seu quartel em uma manhã, de uniforme completo, e entrando em um Hyundai preto com outros rebeldes.

Um de seus camaradas, Nabil al-Amouri, também um ex-oficial do Exército sírio, disse que muitos outros oficiais queriam desertar, mas que estavam preocupados com uma possível retaliação. "Esses caras mataram civis e hoje temem por suas famílias", disse Al-Amouri.

Cada vez mais a fronteira é invadida em pontos ilegais de passagem. Medicamentos e suprimentos entram na Síria, enquanto homens feridos escapam do país.

Antakya costumava ser um destino de fim de semana para sírios que cruzavam a fronteira para fazer compras. Um agente turístico disse que costumava receber cerca de 2 mil clientes por dia, mas hoje não recebe quase ninguém. O operador, que não quis ser identificado porque estava envergonhado de estar indo a falência, disse que tinha acabado de demitir três de suas últimas secretárias.

"Esse conflito não apenas nos afetou", disse. "Ele acabou com a gente."

Por Jeffrey Gettleman

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