Onda de refugiados sírios desperta temores na Jordânia

Dependente de ajuda militar e financeira externa, país vizinho teme que sua política seja sufocada com piora da guerra na Síria, enquanto vê seus recursos serem explorados

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De acordo com ativistas em Amã, oficiais jordanianos recentemente decidiram agir com mais rigidez para conter os opositores do governo sírio que fugiram para a Jordânia, temendo as consequências e a disseminação da revolta na Síria.

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Um líder da oposição da Síria em Daraa afirmou que agentes de inteligência da Jordânia tentaram dissuadi-lo de voltar ao país depois de uma recente viagem. Funcionários de companhias aéreas da Jordânia exigiram que ele comprasse uma passagem de retorno a Damasco antes de embarcar.

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Refugiados sírios jogam vôlei em campo de refugiados em Ramtha, na Jordânia

Em um outro caso, um artista que já havia sido preso na Síria, disse que desde que chegou à Jordânia em março foi interrogado quatro vezes por agentes da inteligência que alertavam que ele seria enviado de volta para ao país vizinho caso participasse de qualquer tipo de ativismo notável contra o governo sírio.

Esses episódios refletem um estado de ansiedade notado na Jordânia, país abalado por ciclos de crises na região, que teme seus vizinhos mais fortes e é dependente dos outros para apoio financeiro e militar. Nas últimas semanas, oficiais e comentaristas locais fizeram previsões sombrias de que os refugiados poderiam subjugar o país à medida que a guerra piora, sufocando a frágil economia da Jordânia e explorando seus limitados recursos.

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Mas os oficiais estão especialmente preocupados que a revolta possa desestabilizar a política já turbulenta do país. Pequenas, porém persistentes, manifestações foram realizadas ao longo do ano passado contra a corrupção no governo e resultaram em expressões cada vez mais ousadas contra o monarca do país, o rei Abdullah 2º.

O rei tentou responder ao pedido de mudança com um programa de reforma limitado que seus críticos disseram que dificilmente irá diminuir sua capacidade de demonstrar seu poder.

Diferenças internas

O conflito sírio pode agravar uma das maiores divisões internas da Jordânia, entre os cidadãos de origem palestina e aqueles que são conhecidos como os jordanianos do leste do rio. O governo parece determinado em não deixar mais palestinos entrarem no país. Oficiais jordanianos negam que não aceitem refugiados palestinos. Em um relatório divulgado neste mês, um oficial do Ministério do Interior disse ao grupo Human Rights Watch que a Jordânia não havia "mandado nenhum palestino de volta e ponto final."

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Refugiados pegam água em Ramtha, Jordânia

Porém, perto da fronteira, os refugiados disseram ter visto isso acontecer.

A violência já atravessou a fronteira. Moradores da região da fronteira com a Síria disseram ter visto pelo menos um confronto entre tropas do Exército da Síria e oficiais da patrulha de fronteira da Jordânia que estavam tentando ajudar os refugiados. Na segunda-feira passada, oficiais da polícia jordaniana dispararam gás lacrimogêneo para dispersar uma briga entre refugiados da Síria e moradores locais diante de um campo de refugiados perto da fronteira.

Os sinais do difícil relacionamento da Jordânia com os exilados são evidentes. Na cidade fronteiriça de Ramtha, atualmente cheia de refugiados da Síria, não há nenhum sinal das bandeiras que os oponentes de Assad levantam para demonstrar sua discordância. Existem apenas retratos de Abdullah e seu filho mais velho pendurados em todos lugares.

O governo parece também estar bastante incomodado com os ativistas sírios. Na semana retrasada, houve relatos de que um deles, Omar al-Hariri, foi deportado para a Síria após ter desembarcado em Amã.

Figuras da oposição em Amã disseram não ter certeza do que havia acontecido com Al-Hariri, afirmando que era possível que ele houvesse voltado voluntariamente para a Síria.

Um porta-voz do governo, Sameeh al-Maitah, não respondeu diretamente a uma pergunta sobre os detalhes do caso, mas disse em um e-mail que "existem alguns casos onde as autoridades responsáveis decidem que eles devem evitar a entrada de certas pessoas na Jordânia."

Relato

Nizar al-Hrakiy, um ativista da oposição de Daraa, disse ter recebido ameaças de pessoas que ele acreditava representar o governo sírio desde que chegou à Jordânia, fazendo com que ele se mudasse de casa duas vezes. Ao mesmo tempo, ele teve de lidar com os avisos das autoridades jordanianas.

"Eles nos pressionam. Eles não querem que a gente fale com a imprensa ou que estejamos envolvidos em qualquer tipo de questão militar", contou. "Estão tentando garantir sua segurança", disse ele. "Eles não querem que o contágio da revolução atinja o país".

*Por Kareem Fahim

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