Calamidade econômica atinge mercado gastronômico na Espanha

Para competir com comida feita em casa, restaurantes convidam clientes a trazerem seu próprio vinho, mudam menus e reduzem preços e porções

The New York Times |

Eugenio Garcia pertence à terceira geração de donos de restaurantes de sua família e mede a intensidade da crise econômica da Espanha com indicadores precisos: as vendas de cerveja e tapas, como ovos de codorna e chouriço, ou lombo de porco com molho de uísque.

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Pessoas que antes gastavam 14 euros em uma refeição, agora gastam 10 em seu popular restaurante Taberna Coloniales, explicou. Seus clientes habituais estão indo embora à procura de empregos na área de construção civil e arquitetura em Dubai. Ele contou um total de 25 falências entre os restaurantes do seu bairro em Sevilla, perto da Igreja de São Pedro, onde sua taverna, uma das mais antigas da região está com as portas abertas há 14 anos. Ele vendeu um de seus dois restaurantes depois que sua clientela diminuiu.

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Eugene Garcia, dono da Taberna Coloniales, em Sevilha

"Antigamente, as pessoas pediam uma garrafa de vinho e agora elas já não o fazem mais", disse. "Elas bebem menos, comem menos. O ambiente é verdadeiramente bastante pessimista para todo mundo. Passamos por quase quatro anos de crise. Agora é como estar em um navio no meio de uma tempestade. A única coisa a se fazer é se segurar e esperar para ver o que acontece."

Desemprego

A Espanha pode até ser reverenciada como a casa da gastronomia chique (ou cozinha de vanguarda, como é conhecida pelos locais), mas sua indústria da hospitalidade está se recuperando, em um país com a maior taxa de desemprego da Europa (24%), onde o déficit orçamentário tem recentemente forçado o governo a aumentar os impostos, ameaçando atingir ainda mais o consumo. Esses fatores estão atingindo os restaurantes, desde tavernas como a de Garcia, até os mais imponentes que antes recebiam banqueiros e políticos.

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Seu principal rival hoje é a refeição feita em casa. Para competir com esses jantares, alguns proprietários estão convidando os comensais a trazer seu próprio vinho. Restaurantes estão mudando seus menus e reduzindo os preços e as porções. Os clientes estão notando que estão sendo cobrados por coisas básicas como gelo extra ou água da torneira servida em jarros.

Alguns dos melhores restaurantes estão desistindo de suas estrelas Michelin para oferecer alternativas de menor custo. Neste verão, muitos locais com uma proposta peculiar estão remodelando seu visual para criar um ambiente casual, temendo que, se eles não mudarem, terão de fechar suas portas.

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Hora do jantar vazia na Casa Robles, em Sevilha, sul da Espanha

Nos últimos meses, David Munoz, um chef proeminente em Madrid e proprietário do restaurante DiverXO, que tem duas estrelas Michelin, questionou se a Espanha irá conseguir manter o seu dinamismo criativo durante a crise.

Ferran Adrià, um chef famoso que ajudou a transformar a Espanha no paraíso gastronômico que é hoje, insiste que os melhores restaurantes estão garantidos durante a recessão.

"Os bons restaurantes não estão sequer correndo o risco de fecharem, os que estão fechando são aqueles que provavelmente são administrados por empresários que não conhecem muita coisa sobre gastronomia", disse Adrià. "Crise ou não, nunca se comeu tão bem como hoje na Espanha."

Pior ano

O pior ano foi 2009, quando 5 mil restaurantes e bares fecharam, de acordo com um relatório de mercado anual emitido neste ano pela Nielsen Co., na Espanha. Mas o desaparecimento dos restaurantes continuou com a crise: 4 mil fecharam em 2010 e 3 mil em 2011, reduzindo o total para 220 mil, o menor número desde 1997.

Em Valência, todo tipo de restaurante está sentindo os efeitos da crise. Este mês, os donos da cadeia de restaurantes T.G.I. Friday’s fechou uma de suas filiais que abriu no ano passado. Em maio, o chef Raul Aleixandre fechou seu restaurante de 30 anos de idade chamado Sento Ca ', um restaurante com estrelas Michelin, devido a dificuldades econômicas.

"Lugares tradicionais, até mesmo os de alto padrão, estão praticamente desaparecendo", disse Jaime Ruiz-Morales, um empresário de Madrid e fanático por um bom garfo. "Eu acho que é normal quando os seus clientes, de repente, começam a pagar 30 euros por seu vinho em vez de 200."

Em Sevilha, o setor gastronômico, especialmente os restaurantes, tem sido atingido por uma taxa de desemprego regional pairando em 30 % e por turistas estrangeiros que desembarcam de voos baratos e costumam gastar pouco. De 2007 a 2010, mais de 2 mil restaurantes e bares fecharam, um decréscimo de mais de 16 %, de acordo com um anuário econômico, publicado por La Caixa, um banco de poupança espanhol.

Neste mês, a prefeitura de Sevilha e a indústria da hospitalidade local anunciaram a campanha Saborea Sevilla (Saboreie Sevilha) para atrair turistas com pacotes que combinam hotéis e refeições em restaurantes.

Alguns proprietários estão fechando restaurantes premiados para oferecer alternativas mais baratas. No outono do ano passado, Victor Enrich e sua esposa, Maria Vega de Seoane, fecharam seu restaurante El Atelier d’Enrich e venderam seus sofás de veludo preto, espelhos, lâmpadas e taças de champanhe. O restaurante, em um dos bairros mais exclusivos de Madrid, costumava atrair executivos de grandes empresas como a Telefonica, mas sentiu o impacto quando seus clientes cortaram suas despesas com comida.

Enrich, em seguida, abriu dois novos restaurantes no mesmo bairro: uma brasserie, El Pract & Co., e uma lanchonete, Taller de la Hamburguesa, onde um hambúrguer com alface e cebola custa cerca de 7 euros. O casal disse que ambos os restaurantes estão prosperando.

"Hoje em dia, é necessário adaptar-se", disse Vega de Seoane.

*Por Doreen Carvajal e Raphael Minder

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