Coquetel com erva típica vira polêmica na Tailândia

Bebida entorpecente com kratom é cada vez mais popular nas províncias do sul que lutam contra pobreza e insurgência

The New York Times |

Enquanto as províncias do sul da Tailândia flageladas pela violência continuam a lutar contra uma insurgência sombria, a região também começa a enfrentar um novo inimigo: um coquetel feito com uma erva local que está seduzindo os jovens.

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A erva, conhecida como kratom, é muito menos debilitante do que as anfetaminas e a heroína que são traficadas na região. Mas seu uso frenético se tornou mais um problema para o governo tailandês e levou a novas tentativas para acabar com o tráfico de drogas.

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Erva conhecida como kratom é menos debilitante do que anfetamina e heroína traficadas na região

"É uma epidemia", disse Srisompob Jitpiromsri, o reitor da Universidade Príncipe Songkla, localizada na cidade de Pattani, ao sul do país. "O uso da kratom se espalhou por todo o país."

A kratom cresce em abundância nas florestas tropicais no sul da Tailândia. Mastigar as suas folhas vermelhas era até recentemente uma tradição entre os agricultores e seringueiros que buscavam um auxílio energético para trabalhar sob o sol escaldante dos campos.

Mas a popularidade crescente do coquetel, que é muito mais forte - normalmente feito através da fervura das folhas e do acréscimo de xarope para a tosse, Coca-Cola e gelo - criou um forte aumento na demanda pelas folhas. Os jovens entram em florestas protegidas e saem de lá com mochilas cheias de folhas.

A demanda também parece ser impulsionada em parte pelo estigma contra o álcool entre os muçulmanos, que são maioria na região.

"As pessoas mais velhas não ficam com raiva se você ferver as folhas de kratom porque elas são consideradas medicamento", disse um usuário de 26 anos que pediu para ser identificado apenas por seu apelido, Mung.

Topor sonolento

O problema, disseram as autoridades, é que o coquetel faz com que os usuários entrem em um torpor sonolento. Isso contribui para uma sensação maior entre os aldeões de que as drogas são um flagelo para uma área que já vive na pobreza.

"O abuso de drogas e a pobreza estão sempre no topo da lista dos problemas mais sérios desta região", disse Srisompob. "A insurgência está em terceiro."

A pesquisa mais recente sobre o uso da kratom, uma dentre uma série feita em nome do Conselho de Controle de Narcóticos da Tailândia, foi realizada este ano com cerca de mil adolescentes nas três províncias com problemas ao longo da fronteira com a Malásia, e revelou que 94% dos participantes da pesquisa utilizaram kratom.

A droga, que é usada principalmente nas três províncias, é acessível para os adolescentes em parte porque é barata - 20 folhas, o suficiente para se fazer um coquetel de kratom para várias pessoas, custa o equivalente a US$ 3.

Algumas autoridades tailandesas ligam o tráfico de drogas, incluindo o de kratom, à insurgência. A fronteira entre a Tailândia e a Malásia fica ao longo de uma importante rota de tráfico de anfetaminas e heroína, que tem origem em Mianmar.

As ligações entre drogas e a insurgência, que já matou mais de 5 mil desde 2004, no entanto, são contestadas por muitos especialistas e autoridades policiais. O major-general Choti Chavalviwat, comandante da polícia na província de Narathiwat, disse que se existe uma ligação entre drogas e a insurgência, ela é fraca.

"Religião, história e etnia são os elementos que motivam a insurgência", disse.

Nos últimos meses, a polícia tailandesa também aumentou sua campanha de corte de árvores em todo o país. Mas isso criou tensões entre autoridades e responsáveis pela proteção do meio ambiente.

A maior quantidade de árvores de kratom se encontra em uma floresta protegida na província de Satun. Centenas de árvores de kratom prosperam em um vale rodeado por falésias calcárias, um local acessível a pé, seguindo por um caminho que percorre um rio e, em seguida, passando por uma grande caverna.

Medidas

As autoridades ordenaram que as árvores fossem derrubadas, mas os guardas florestais estão hesitando.

Narong Kaewsen, um guarda florestal na reserva de Satun, disse que para destruir as árvores, distribuídas por cerca de 12 hectares de terra, seria necessária uma grande quantidade de herbicidas. "No mínimo isso vai prejudicar a água, os animais e as plantas", disse Narong. "Eles também morrerão."

Por enquanto, Narong e outras autoridades locais estão tentando acabar com o tráfico de kratom interceptando os jovens que andam nas florestas, muitas vezes à noite, em busca das folhas.

Panya Tonoon, o chefe da aldeia local, intercepta jovens várias vezes por mês. "Muitas vezes eles entram correndo nas florestas", disse Panya. "Às vezes nós temos que persegui-los."

*Por Thomas Fuller

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