Piadas sobre rede Fox News entram para o repertório de Obama em campanha

Na disputa por reeleição, presidente americano tece críticas sutis ao canal conservador de TV, que se opõe veementemente a seu governo

The New York Times | - Atualizada às

Poucas coisas parecem mexer tanto com o Presidente Barack Obama quanto a rede de notícias Fox News.

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Basta considerar alguns acontecimentos recentes na sua campanha eleitoral. Em um bar em Ohio, onde uma televisão estava sintonizada na Fox News, o presidente brincou dizendo que um dos clientes deveria pedir para trocar de canal. "O cliente sempre tem razão", disse Obama brincando.

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Michael Clemente, sênior vice-presidente da Fox News, que critica o govenro democrata com frequência

Na semana passada, ele usou a rede como uma piada em seu discurso de campanha, dizendo que o "Tio Jim" - um personagem fictício que representa todos seus críticos conservadores - "era um pouco teimoso e assistia a Fox News".

Depois houve uma entrevista com Valerie Jarrett, uma das principais assessoras de Obama. Jarrett foi questionada por que alguns eleitores ficaram com a impressão de que o presidente estava atacando os ricos. "Bem, eles podem estar assistindo a uma certa rede de notícias", ela disse. "CNN?", brincou o entrevistador.

Nada disso passou despercebido nos estúdios da emissora Fox News, onde os executivos consideram essas humilhações por parte da Casa Branca como uma difamação da presidência.

"Eu acho que isso coloca o atual governo em uma situação degradável", disse Michael Clemente, vice-presidente executivo de notícias da Fox. "Que esse tipo de coisa aconteça tão regularmente como vem acontecento - e não é todo dia, mas eu diria que a cada duas semanas - é algo incomum. Especialmente levando em consideração todos os problemas que existem, como a falta de novos empregos e a situação na Síria."

De todos os itens na lista do presidente, Clemente acrescentou: "Eu gostaria de estar em 15º em sua lista, não em terceiro."

Relação

A Fox News e a Casa Branca de Obama nunca desfrutaram de uma relação calorosa. Mas depois de uma briga no fim de 2009, os dois lados pareceram concordar em coexistir pacificamente. Glenn Beck, o polêmico apresentador que chamou o presidente de racista, deixou a emissora depois de um desentendimento com os executivos. O presidente da Fox News, Roger Ailes, disse que está querendo corrigir o rumo que a emissora tomou, um reconhecimento de que a rede havia adotado um ponto de vista muito extremista.

Mas agora, com a campanha presidencial entrando na sua fase mais competitiva, as tensões contidas entre Obama e o canal de notícias de maior audiência do país ameaçam sua frágil trégua.

Tanto a Casa Branca quanto o comitê de campanha de Obama em Chicago enxergam a Fox News com um certo grau de ceticismo. "Nós trabalhamos com a Fox News e seus repórteres de uma maneira profissional todos os dias", disse Jay Carney, secretário de imprensa da Casa Branca. "Mas não somos ingênuos sobre o seu modelo de negócios."

Basta sintonizar na Fox News e grande parte de sua cobertura está focada em histórias que são não fazem jus à Casa Branca. Muito mais do que qualquer outra rede de televisão, ela diariamente narra acontecimentos no escândalo da Operação Velozes e Furiosos, que envolve uma fracassada operação federal de rastreamento de armas que se tornou uma célebre causa entre os conservadores.

Uma investigação feita pelo Congresso sobre o assunto - outra notícia que recebeu atenção especial na Fox - resultou em uma votação geral contra o procurador-geral Eric Holder na Câmara dos Deputados. A Fox News foi a única rede de notícias a cabo a transmitir os processos da audiências ao vivo desde o início.

Lobby

Os detalhes da falência da Solyndra, uma empresa de energia alternativa que recebeu US$ 528 milhões em garantias de empréstimos federais após realizar muito lobby na Casa Branca, é um caso bastante conhecido entre os espectadores assíduos da Fox. Até agora, esta semana, a história que tem dominado os noticiários da Fox foi o furor conservador sobre uma observação recente feita pelo presidente de que os proprietários de negócios devem muito de seu sucesso ao investimento do governo.

A Fox News parece se beneficiar quando cobre Obama e os democratas de forma agressiva. De fato, durante o auge da temporada da disputa de 2009 entre a Fox News e a Casa Branca, a audiência do canal cresceu para um total de 8%. E enquanto muitos de seus comentaristas e convidados torcem por uma vitória de Mitt Romney, os executivos da Fox disseram em privado que um segundo mandato de Obama poderia ser a melhor coisa a acontecer para sua rede.

Por outro lado, Obama também tem se aproveitado de seus comentários sobre a Fox News. Durante sua campanha de 2008, apenas o ato de mencionar a rede em um discurso de campanha atiçava a multidão. Um típico comentário sobre a Fox News era mais ou menos assim: Obama mencionava como os eleitores pareciam estar engajados. Eles assistiam aos debates da CNN e da C-Span, segundo ele. Então, ele fazia uma pausa dramática. "E na Fox News", ele acrescentava, recebendo um coro de vaias da multidão.

Especialistas políticos disseram que esses comentários de Obama sobre a Fox News hoje parecem estar em sintonia com uma estratégia que busca tirar o mérito de seus oponentes, uma tática que a campanha mobilizou de uma maneira bastante eficaz.

"Qualquer um que pode ser uma fonte de força para Romney, eles estão tentando tirar seu mérito de alguma forma", disse David Gergen, conselheiro dos presidentes Ronald Reagan e Bill Clinton. "É uma velha tática e que muitas vezes funciona."

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Barack Obama fala a eleitores democratas na Flórida (19/6)

A Casa Branca insiste que o presidente não tem uma preocupação direcionada à Fox News, e que os comentários recentes que fez sobre a Fox foram improvisados e espontâneos. A observação em Ohio veio durante uma troca improvisada com um eleitor em potencial. E o comentário sobre o "tio Jim", embora tenha sido feito durante um discurso de campanha, não fazia parte do texto escrito previamente.

"Você ficaria surpreso o quão pouco importante isso é na sua lista de prioridades", disse Dan Pfeiffer, diretor de comunicações da Casa Branca.

Clemente diz acreditar que Obama se sente frustrado com a maneira como a mídia tem falado de sua candidatura, especialmente a Fox, e de vez em quando ele gosta de desabafar. A intensidade da disputa, ele acrescentou, é muito inferior ao que era em 2008.

"Estamos examinando e analisando", disse Clemente. "E acho que pode ser irritante às vezes". Afinal, ele observou secamente, "Nós não somos a C-Span".

*Por Jeremy W. Peters

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