Refugiados de Mali fogem de perseguição e duras regras impostas por islâmicos

Turbulência no norte do país africano cria refugiados em países vizinhos como a Mauritânia e levanta preocupações de que região se transforme em ímã para terroristas internacionais

The New York Times |

A região do vasto deserto localizado no norte de Mali tornou-se um ímã para extremistas islâmicos que intensificaram o seu domínio sobre Timbuktu e outras cidades distantes, impondo uma forma estrita de justiça que está levando dezenas de milhares de pessoas a fugir. Alguns dizem se tratar de uma espécie de Afeganistão africano.

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Os recém-chegados a um acampamento improvisado que já abriga 92 mil pessoas na fronteira com a Mauritânia descrevem um influxo de jihadistas - alguns advindos do próprio país e outros, possivelmente, do exterior - com a intenção de impor um islã de chicote e pistola sobre os muçulmanos de Mali, que sempre conviveram com turistas ocidentais na lendária cidade de Timbuktu.

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A refugiada Rana Wallet Chekna trocou Mali pelo campo de Mberra, na Mauritânia

As condições em Mbera são sombrias, com muitos malinenses doentes, famintos e desnorteados. Mas isso é melhor, segundo os refugiados, do que a vida cansativa e tumultuada que enfrentavam naquela inesperada região militarizada pelos islâmicos no coração da África Ocidental.

Refugiados de lugares como Timbuktu, Goundam, Gao e Kidal disseram ter testemunhado chicotadas, espancamentos e outras punições nas ruas, de maneira ostensiva, por violação da lei islâmica. Alguns dos que fugiram disseram terem eles mesmos passado por essa severa justiça.

"Eles disseram: 'Vocês são ladrões. Por que você está andando a essa hora?'", disse Mohamed el-ag Hadj, 27 anos, ex-soldado do Exército de Mali.

Ele e um amigo saíram para passear às 19h e se viram cercados por dois carros cheios de homens armados. Os homens amarraram os braços dos amigos nas suas costas, os prenderam a uma árvore e os obrigaram a ficar de joelhos durante toda uma noite. Pela manhã, "tudo estava inchado."

"Foi assustador", lembrou Hadj. "Eles me insultaram, me chamaram de selvagem e infiel."

Quando encontraram um maço de cigarros no bolso de sua camisa, eles o agrediram no rosto. "Eles punem as pessoas por nada", disse o jovem.

Especialistas em contraterrorismo dos Estados Unidos expressam preocupação de que Mali possa se transformar em um ímã para terroristas internacionais, mas dizem que esses relatos ainda não foram corroborados. Apesar de a turbulência no norte de Mali, lembram, ter sido causada em grande parte por extremistas da região.

"A preocupação é que esses grupos locais consigam abrir espaço no norte de Mali para servir como uma base de operações", disse uma autoridade dos EUA que pediu para não ser identificada. "Talvez, então, o norte de Mali possa se tornar um destino para combatentes estrangeiros da região e até mesmo de lugares mais longe, mas isso ainda não aconteceu."

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Em Timbuktu, os islâmicos destruíram túmulos de homens santos venerados na cidade antiga, proclamando-os contrários à sharia - o código legal baseado no islã. A destruição provocou indignação entre os cidadãos e organizações internacionais.

"No dia em que destruíram os mausoléus , eles puseram sentinelas em todos os lugares", disse Hassan ag Sidi, um refugiado.

A situação com os extremistas no norte de Mali é um resultado inesperado do colapso do que foi erroneamente considerado como uma democracia africana estável. No fim de março, oficiais do Exército furiosos com a forma como o governo lidou com uma rebelião de rebeldes tuaregues se levantou em um golpe de Estado, instalando uma junta militar após duas décadas de governos eleitos. A junta militar, então, deixou o cargo ostensivamente em favor de um governo civil. Mas ela continua a exercer influência.

Mulheres

As mulheres do norte de Mali são alvos especiais. Aishatta Abdou, 30 anos, mãe de seis filhos que fugiu da região há uma semana, foi perseguida pelas ruas de Timbuktu por homens armados por andar sem seu marido. Ela os descreveu como "bem armados".

"Foi depois disso que decidimos partir", disse. "Quando compreendi que não podia mais sair de casa, eu disse: 'A vida não é mais possível para mim aqui.'"

Por enquanto, o que os refugiados descrevem como um reinado de terror islâmico, continua sem controle. Os governos ocidentais e africanos não conseguem concordar sobre uma intervenção, apesar de repetidamente condenar a situação no norte do país.

"Eles viraram o nosso modo de vida de cabeça para baixo", disse Sidi. "Eles impuseram uma espécie de religião que nunca vimos. Você não pode nem andar com sua esposa. Somos como prisioneiros. "

Ele e outros disseram que até mesmo as condições espartanas no acampamento são preferíveis a viver daquela maneira. "As pessoas que ainda estão lá estão praticamente mortas", disse Mohammed el-Mehdi, uma ex-guia turístico em Timbuktu, que chegou ao acampameto através da fronteira de Mali.

*Por Adam Nossiter

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